Escrever prosa poética é carregar uma névoa no peito, sabendo que, a qualquer instante, ela pode escapar pelos dedos. É habitar um espaço de ausências, onde as palavras não apenas dizem, mas sussurram entre as frestas do que se perdeu. Cada frase é um reflexo distorcido, um eco que retorna carregado de melancolia.
Clarice Lispector transformou esse vazio em matéria-prima. Seus textos respiram como janelas entreabertas, por onde o tempo entra sem pedir licença. Ser mulher, para ela, era um desafio de existir sem se dissolver, de suportar a lucidez sem naufragar. E a escrita era seu refúgio e seu exílio, a forma mais bela e cruel de permanecer.
A prosa poética não se constrói apenas com palavras, mas com silêncios. Cada pausa é um abismo, cada metáfora, uma tentativa de nomear o que nunca se deixa capturar. Não precisa rimar, mas precisa do ritmo das coisas que partem. Precisa pesar nos ombros, como lembranças que insistem em ficar.
Seu lirismo nasce do equilíbrio entre o narrar e o sentir. O pensamento flui como um rio, mas suas águas carregam vestígios de sonhos e ruínas. Não há enredo rígido, mas há uma cadência, um pulsar quase musical que conduz o leitor por entre imagens e sensações. Assonâncias e aliterações criam melodias invisíveis, enquanto sinestesias desvendam o peso das cores e o som das ausências.
Escrever é como tocar o invisível. É sentir a pele do tempo escorrer entre os versos, soprar vida no que já se desfez. A palavra, quando bem lançada, não voa — desaba. E a prosa poética é esse instante de queda suspensa, onde o mundo inteiro cabe num único suspiro.
Medo
Clarice Lispector
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.
Por JEANE TERTULIANO
