CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Crônica – O portão, a trava e a vida

CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Crônica – O portão, a trava e a vida

Dia destes, estava fazendo um passeio habitual com meus filhotes – o Flic e a Princesa – cachorrinhos e companheiros centrais em minha vida quando uma senhorinha que, frequentemente, brinca com eles fez um gesto, despertando minha atenção. Na verdade, não tinha sido a primeira vez.

Imagem de arquivo pessoal – Flic e a Princesa

 

Enquanto eles brincavam e cheiravam suas plantas – muitas – do lado de fora, ela – do lado de dentro do portão – se esforçava para acariciá-los. Dizia “Vem aqui, pequenininho” e “Vem aqui, Princesa”. Seu corpo, no entanto, estava quase imobilizado diante daquele encontro e nada parecia denunciar sua real vontade de brincar com eles. Naquele momento, meu estranhamento e incômodo aumentaram. Pensei:

“Ué, quando a gente quer muito alguma coisa, há movimentos internos e externos que precisam ser construídos e mobilizados. Para isso, como uma sinfonia habilmente orquestrada, nosso corpo (emocional e físico) se move em direção ao nosso desejo. Se ela gosta tanto de cachorros, por que nunca abre o portão para usufruir da presença deles? Será mesmo que ela quer experienciar este encontro? Estará disponível para tudo que ele apresentar?

Imagem de Korrawinj por Freepik

 

A experiência do encontro – conosco e com o outro – é sempre mobilizadora. Será por isso que, cada vez mais, as pessoas o temem e buscam anestésicos de todas formas? Lembrei do clássico livro “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley: em uma sociedade distópica (nem tão distópica assim, pois é fértil o diálogo entre literatura e realidade, não é?), as personagens são compulsoriamente orientadas a ingerir Soma em doses regulares e frequentes. Na referida ficção, o Soma nada mais é que uma droga potente e, enquanto alegra, também aliena e promove controle social. Quantos Soma você consegue identificar na sociedade atual? Em outras palavras, quantos mecanismos existem para anestesiar e afastar o homem da própria humanidade, ampliando o espectro de desconexão consigo mesmo e com o outro? 

Conviver é arte desafiadora: relacionamentos são espelhos que nos devolvem uma porção de nós. Viver é mergulhar no imponderável e no imprevisível: isso assusta você? A interação mobiliza seus contornos, aguça sua curiosidade ou parece algo desagregador? São muitas as possibilidades para o espaço potencial de criação que surge a partir do encontro de duas pessoas, no entanto, nem todos estão disponíveis para viver essa abertura e mergulhar nesse vazio que pode ser criativo ou ameaçador.

Assim como vocês, ouço tantas pessoas reclamando da solidão e vejo o quanto estão, ainda, ensimesmadas. Não querem sair do casulo em direção à luz. Que tal um check-list? Neste momento, como está seu corpo diante da vida e de suas relações? Travado como o da senhora desconhecida? Apático, fragilizado, desvitalizado ou energizado, criativo e pulsante? E seus olhos: abertos, quentes, conectados ou frios e dispersos? Seus ombros: caídos, alinhados ou levantados? E suas pernas? Sente-se firme nelas e consegue avançar na caminhada? Por último e o mais importante: como anda sua respiração? Aliás, ela percorre seu corpo, abastecendo e mobilizando a vida que pulsa ou está quase paralisada, truncada, fraca e espremida? A respiração é o elo direto com nossa vida emocional. Parafraseando o adágio popular, “Me diz como respiras, que direi quem você é.” Sem respiração profunda, resta a superfície árida da vida… Faz sentido pra você?

Imagem de Freepik

 

Intrigada fiquei o dia todo, pensando na simbologia daquela cena cotidiana e na postura emocional-corporal daquela idosa.

 Quantos portões fechados existem na nossa vida?

De que forma nos relacionamos com nossos desejos: de portão fechado ou aberto?

Hoje, no seu momento existencial, em uma escala de zero a 10, o quanto você se permite viver?

Ali, trancada do lado de dentro do portão, não havia como existir entrosamento nem alegria plena: apenas uma migalha tênue de ilusão de felicidade. Nossos encontros eram, assim, sempre furtivos, uma fresta de alegria, numa dosagem absolutamente controlada e, quem sabe, contida da parte dela. Nós, ao contrário, sempre estávamos presentes, inteiros e entregues à experiência. Lembrei que, em outros dias, ela até dissera: “A Princesa não gosta de mim. ” Mas, o que ela fez para que a Pri se aproximasse? Para muitos, essa postura cômoda de reclamar do que está fora e de apenas esperar da vida basta, não é?

Pois é, mas, para ser feliz, é preciso coragem. É preciso investimento. É preciso disposição. É preciso abandonar o lugar de vítima. Em suma, é preciso “arregaçar as mangas” e ir para a vida. Felicidade é ação.

Hoje, honestamente, quais travas impedem seu caminhar?

Em qual porão escuro e úmido você ainda está trancado (a)?

 Quais movimentos você tem criado para alterar essa situação?

Você reconhece o melhor da vida?

A felicidade decorrente de nossas interações está, por exemplo, acontecendo aqui e agora enquanto você me lê: percebe isso? Mas, para que nosso encontro seja potente e criativo, ele exige uma condição inegociável: que estejamos abertos para tudo o que ele suscitar. Qual é o grau de sua abertura para o ineditismo da vida?

A felicidade não gosta de gente distraída. Ela aprecia pessoas atentas: preste atenção. Eu disse atentas; não tensas. Porque o estado de atenção pressupõe entrega, interação e conexão. Pessoas que veem a beleza cotidiana não são alienadas: são operárias da própria felicidade… porque ser feliz é jeito, escolha. Não é destino.

Não se engane, leitor, a felicidade passeia colorida, livre, leve e solta por aí, tal como borboletas, e está à espreita de alguém que seja capaz de reconhecê-la, senti-la, integrá-la, compartilhá-la e multiplicá-la. Você compartilha – na vida real – sua felicidade e deixa expandir o convite que ela traz?

Bom, quero fazer uma provocação: será que você consegue encontrar felicidades na sua rotina? Proponho que crie uma lista de pequenas felicidades a qual pode ser atualizada e ampliada frequentemente. Vou compartilhar minha lista provisória pra você já ir conhecendo minhas alegrias, paixões e ternuras, ou seja, tudo que aquece meu coração, enfeita meu dia e dá sentido a ele! Espia aí e, depois, me conta se compartilhamos algumas felicidades comuns, tá?

Imagem de EyeEm por Freepik

 

– beijar meus cachorros

– fazer muita bagunça com meus cachorros

– dormir abraçada com meus cachorros

– chegar em casa e ser recebida pelos meus cachorros

– tomar banho

– sentir cheiro de roupa limpa

– colocar flor no cabelo

– usar vestido

– saber que o Outono vai chegar

– usar xale

– conversar com minhas plantas

– tomar sorvete

– sentir cheiro de chuva

– olhar o céu

– tomar chá de canela

– curtir muito o friozinho do Outono

– comer doce

– ouvir música

– tomar Tubaína

– apreciar flores

– sair da rotina no meio da semana

– estudar temas Psi (especialmente Análise Bioenergética)

– atender meus clientes

– comer abacaxi

– encontrar amigos

– dançar

– admirar mandalas

– ouvir passarinho cantando

– escutar o vento

– admirar as cores do mundo

– sentir cheiro de mato

– abraçar árvores

– admirar a lindeza de minhas plantas

– comer bolinho de chuva

Imagem de DenisW por Freepik

 

Então, se inspirou? Que tal fazer sua lista de pequenas felicidades? Na verdade, gigantes, né? Olha só: aposto que, depois de ler minha lista, você foi mentalmente criando a sua também…. Estou muito enganada? Percebe o que o encontro possibilita? Ele nos leva de volta a nós, só que modificados, expandidos e acompanhados de todos que passaram por nós e nos germinaram com suas sementes. Bonito isso, né? Eu celebro nosso encontro aqui, abençoo e reverencio nossos próximos encontros porque sei que sempre sairei mais inteira, aprofundada e criativa. Como diz a canção “Maior”, de Dani Black e Milton Nascimento, “Eu sou maior do que era antes / estou melhor do que era ontem…” Eu saio mais feliz deste nosso primeiro encontro. Saio, também, animada pelas novas amizades que surgirão a partir deste contato inicial. É preciso cuidar das conexões, concorda? Me vi e me senti muito presente, conectada e viva ao me preparar para estrear aqui. E você, como sai deste primeiro encontro comigo? Me conta?

Desejo que nosso – o meu e o seu – caminhar seja mais leve, com mais portões abertos e menos porões; mais corações amorosos e menos resistências. Enfim, que a gente tenha a coragem de compartilhar a nossa melhor versão com a vida: o nosso presente para o mundo! Para finalizar nossa conversa, trago as palavras poéticas e amorosas de um colega de profissão, Alexandre Coimbra Amaral, em seu livro recém- lançado “A esperança a gente planta”, pela Editora Paidós. Ele diz assim:

Imagem de Pixabay por Pexels

 

“Há pétalas de você esperando para embelezar o mundo. O mundo anda precisando, demais, da sua beleza. E você é reserva abundante disso, dessa materialidade. Coloque no mundo. Haverá um beija-flor, um só que seja, que fará par com a beleza disponibilizada por você. Toda beleza é convite para um beija-flor”.

Fica meu convite: vamos florescer? Um beijo carinhoso, paz no seu coração, movimentos potentes e conexões nutritivas para sua alma. Até!

Por ADRIANA MOURA SALLES

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