RAÍZES DO BRASIL – A imagem do feminino na construção da identidade social brasileira

RAÍZES DO BRASIL – A imagem do feminino na construção da identidade social brasileira

Manuscritos que enraizam nossa história e cultura

Esta coluna, intitulada “RAÍZES DO BRASIL: fascinantes histórias da cultura brasileira”, abordará temas diversos, a partir do estudo pormenorizado de documentos do passado. Em geral manuscritos, os registros históricos do Brasil são fontes ricas de nossa cultura. São como verdadeiras janelas que abrimos para um passado que se perderia totalmente fora da cultura escrita. Os detalhes que a documentação manuscrita oferece aos estudiosos da história são ricos e permitem que muito se construa nas artes. Exemplo disso são os filmes e séries históricos. Nisso o Brasil está ficando perito, certo? Vide o show do Oscar em 2025!

Sendo assim, aqui trarei temas de interesse atual e que já fizeram parte do repertório de vida de nossas antigas gerações! Sendo assim, entendemos que muito do que será apresentado por mim, nesta e nas próximas edições da Revista The Bard, tratará sobre os documentos manuscritos enquanto valiosas janelas para o nosso passado histórico e cultural. E aí, vamos juntos espiar pelas tantas janelas de nossos monumentais palácios?

Imagem de Maison Gabriele por Google

 

A imagem do feminino na construção da identidade social brasileira

 

Como desvendar a imagem feminina no brasil colonial?

Imagem de Jrmoluk por Pixabay

 

Poucos são os registros históricos do período colonial brasileiro escritos por mãos de mulheres. Apesar desse silenciamento da voz feminina, sempre decorrente da desigualdade de gêneros, muito se tratou das mulheres em documentação do período colonial brasileiro. Essa perspectiva masculina permite compreender um olhar alheio às verdades das mulheres. Trata-se de olhar construído pelos homens sobre elas, via de regra para justificar situações que os envolviam. Trataremos sobre esse instigante assunto, a partir desses registros, nesta primeira edição desta coluna.

Além de textos escritos por homens, será também usada uma fonte documental peculiar: cartas redigidas por uma mulher, Dona Leonor de Portugal, a esposa do Morgado de Mateus, governador de São Paulo no século XVIII. Essa escolha foi feita porque essa mulher não representa apenas uma figura histórica. É possível entendê-la como o estereótipo do que se esperava de uma mulher neste período. Ela reunia todas as qualidades exigidas para ser “alguém com dignidade para servir de esposa a um homem do período das luzes, o Iluminismo.”

 

UMA PINCELADA HISTÓRICA

No século XVIII, Portugal, embora palco do Iluminismo em suas diversas correntes, ainda se encontrava fortemente influenciado pelas ideias do século XVII. O movimento intelectual das “Luzes”, que revolucionava a Europa, ecoava de forma indireta na cultura portuguesa. A par disso, a economia do reino enfrentava um período de decadência, agravado pela crise do ouro no Brasil. Portugal, à frente de um império vasto e complexo, lutava para manter sua sustentabilidade.

Imagem de Solar do Rosário por Google

 

Diante dos desafios coloniais, marcados pela cultura jesuítica, carência demográfica e economia fragilizada, o Marquês de Pombal assumiu o papel de primeiro-ministro durante o reinado de D. José I. Seu governo ambicionava combater a negligência fiscal, o contrabando, proteger o território de invasões estrangeiras, especialmente espanholas, e impulsionar a agricultura.

Imagem de Visão História por Google – Marquês de Pombal

 

Nesse contexto, a capitania de São Paulo, outrora subordinada ao Rio de Janeiro, sofria com o enfraquecimento demográfico, econômico e político, resultado da perda das zonas de mineração. Em 1765, a capitania recuperou sua autonomia com a nomeação de Morgado de Mateus como governador. Nobre português, fidalgo da Casa Real e militar de carreira, Morgado de Mateus foi escolhido por sua lealdade e confiança, características valorizadas pelo sistema absolutista. Ele assumiu a missão de fortalecer a capitania, combatendo os espanhóis, militarizando a região, explorando o território, fomentando a economia e promovendo a urbanização. Ao partir para São Paulo, deixou sua esposa, Dona Leonor, e seus quatro filhos no Palácio de Mateus, em Vila Real. Inicialmente nomeado para um mandato de três anos, permaneceu na função por dez anos, resultando em doze anos de separação familiar.

Morgado de Mateus, Dom Luís António de Sousa Botelho Mourão, foi um governador emblemático, considerado o mais dinâmico e carismático do período. Além de ter deixado imensa quantidade de material escrito de próprio punho, ele contribuiu significativamente para o desenvolvimento de São Paulo, implementando projetos em diversas áreas. Apesar de seus esforços, não recebeu a condecoração de Conde de Mateus ao retornar a Portugal, mas persistiu em buscar reconhecimento, obtendo o posto de Brigadeiro. Faleceu em 1798, e jaz enterrado na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, dentro de sua propriedade.

Imagem de Cdn Bndlyr por Google – Dom Luís António de Sousa Botelho Mourão

 

Dona Leonor Ana Luísa José de Portugal Sousa Coutinho, esposa de Morgado de Mateus, nasceu em Lisboa em 1722. Proveniente de família nobre e tradicional, recebeu uma educação primorosa, dominando diversas línguas e possuindo vasto conhecimento. Sua mãe, Dona Maria Antónia, era uma figura de destaque nas Letras. Dona Leonor casou-se aos 34 anos e, durante o período em que esteve casada, dividiu-se entre Lisboa e Mateus, onde criou seus quatro filhos. Embora não haja registros de pinturas com sua imagem, sua personalidade e inteligência são evidentes em suas cartas. Como algo pouco comum ao período, Dona Leonor decide divorciar-se do marido após o retorno dele a Portugal. Após a separação conjugal, permaneceu ao lado dos filhos e netos, tendo falecido em 1806.

Imagem de Wikipédia – Palácio de Mateus

 

O LEGADO FEMININO EM CARTAS PESSOAIS

A voz de Dona Leonor revelava sua personalidade e seu intelecto desenvolvido em suas cartas, escritas com muita emoção e perspicácia para seu marido, Dom Luís António de Sousa Botelho Mourão, que governou a capitania de São Paulo entre os anos de 1665 a 1775. Mais do que meros registros históricos, as cartas endereçadas ao marido, que esteve no Brasil por dez anos enquanto ela permaneceu em Portugal cuidando de todos os negócios da família e criando os filhos, revelam a mente brilhante de uma mulher que compreendia profundamente o mundo ao seu redor. Entendemos que as cartas exerciam a função do “principal meio de comunicação entre os distantes do século XVIII” e representavam “o remetente em corpo e voz diante do destinatário” (CONCEIÇÃO, 2013, p. 23). A escolha da espécie documental “carta” permite acessar a esfera particular de Dona Leonor, pois nesse gênero textual, as fórmulas discursivas são menos rígidas e, por isso, a voz da autora se expressa com maior liberdade. A análise minuciosa dessas cartas permite que seja desvendada a complexidade de sua personalidade, a profundidade de seus sentimentos e a importância do papel feminino na construção da sociedade colonial.

Imagem de Freepik

 

Apesar de as cartas pessoais não conterem fórmulas linguísticas como outros gêneros textuais mais burocráticos como o ofício, por exemplo, havia padrões linguísticos que revelavam as sociabilidades do período. Em geral, os cônjuges tratavam-se mutuamente pela retomada do primeiro nome antecedido de “Dom/Dona”. Dizia ela: “só falar e chorar por Dom Luís é o meu alívio.”, em que o interlocutor é mencionado como uma terceira pessoa, forma que se mantém atualmente em Portugal. Do mesmo modo, o marido sempre fala a ela por meio de “Dona Leonor”. Nos primeiros anos apartados, o casal evitou pronomes de tratamento, que revelariam maior distanciamento. Entretanto, com o passar dos anos e o estremecimento da relação por assuntos mal resolvidos, ambos passaram a se chamar por “Vossa Excelência”.

A figura feminina de Dona Leonor de Portugal revela um exemplo de personificação da imagem de mulher idealizada na segunda metade do século XVIII. Seja com sua presença, seja por seu distanciamento, a figura da mulher europeia virtuosa e apartada dos tantos males das terras da América Portuguesa é impositiva ao olhar do colonizador. É comum que se busquem mulheres com virtudes e aparências similares para se construir família no Brasil. Como decorrência dessa idealização da mulher branca e cristã, as mulheres nascidas da miscigenação brasileira acabavam por ocuparem um lugar de rebaixamento social.

É fato que durante todo o período colonial, preservaram-se “os papéis tradicionais da mulher, [de modo a manter-se] fiel à antiga concepção da Igreja da autoridade do marido e da obediência da esposa” (FANINI, 2009, p. 37).

Imagem de Aicandy por Freepik

 

RELIGIÃO CATÓLICA COMO PILAR DA VIDA SOCIAL

A fé católica era o alicerce da vida de Dona Leonor, a exemplo de todos os bons cidadãos da época. Ela via a religião não apenas como uma questão pessoal, mas como um elemento fundamental da sociedade e da política. Em suas cartas, há constantes referências a orações, missas e devoção a Nossa Senhora, demonstrando a importância da fé em sua vida e a influência da Igreja na sociedade colonial. Dona Leonor usava sua fé para influenciar decisões políticas e para promover o bem-estar da comunidade, como evidenciado quando elogia que o marido faça seus funcionários rezarem em trabalho: “Folgo muito que os faça rezar o terço, porque quem é bom católico tem tudo o mais.”

Imagem de EyeEm por Freepik

 

CASAMENTO À DISTÂNCIA

A distância física imposta pelas responsabilidades do marido como governador manteve o vínculo entre Dona Leonor e o Morgado de Mateus. Suas cartas são, aparentemente, um testemunho da conexão familiar entre o casal. “Aparentemente”, porque o que pode parecer à primeira vista os vocativos “Meu amor” de início e a saudação de fecho das cartas “Adeus, meu bem, meu amor” pode revelar sentimento próximo de nosso amor passional contemporâneo. Contudo, a preocupação genuína com o bem-estar do marido e o apoio a suas decisões, pode ser compreendido como instrumento de construção e manutenção da própria imagem de Dona Leonor enquanto autora material e intelectual dos textos. Com essa estratégia, ela prova ser sempre uma companheira leal e dedicada. A correspondência entre o casal revela um diálogo constante sobre assuntos pessoais e políticos, demonstrando que o casamento era principalmente uma parceria intelectual, dada a necessidade de ela manter em ordem os negócios da família em Portugal enquanto o marido desempenhava um cargo político e militar no além mar.

Imagem de Alena_bonn por Freepik

 

A MULHER COMO ADMINISTRADORA DE BENS E NEGÓCIOS DA FAMÍLIA

Imagem de Gpointstudio por Freepik

 

Enquanto o marido estava em São Paulo, Dona Leonor assumiu a responsabilidade pela administração da imensa propriedade que possuíam no norte de Portugal. Vale ressaltar que a Casa de Mateus, sede do patrimônio agrícola e vinícola do casal, permanece até hoje em Vila Real. Tornou-se um Os herdeiros afirmam que a liderança de Dona Leonor foi a mais impactante de todos os tempos, uma vez que ela deixou legados como a construção de poço e da capela, onde jaz enterrado o corpo do Morgado de Mateus. Fica claro, portanto, que ela demonstrou notável capacidade de liderança e de organização. Dona Leonor cuidava dos quatro filhos, da mãe, dos negócios da família, supervisionava as obras, tomava decisões importantes e lidava com questões complexas, mostrando-se uma administradora competente e perspicaz. Suas cartas revelam um profundo conhecimento sobre finanças, agricultura e outros assuntos relacionados à administração. Sua figura extrapola, portanto, a atuação em ambiente doméstico. Mesmo com toda a produtividade de sua vida, mantinha-se deliberadamente com a imagem de uma figura sob as ordens do marido: “Enquanto Nossa Senhora me der vida e alento que me levante, espero não ache as coisas em pior estado, sempre peço a Deus me alumie para que o acerte com o seu gosto.” O gosto do marido deveria imperar em todas as empreitadas. No entanto, a única forma de comunicação eram as cartas pessoais, que partiam de tempos em tempos via caravela e, no melhor dos mundos, chegava ao destinatário após três longos meses de viagem. Fica difícil, então, entender a constante busca por aval antes das ações. O mais plausível é que as respostas tenham chegado sempre tardias.

Imagem de Donbaron por Freepik

 

INFLUÊNCIA POLÍTICA EM PROL DA FAMÍLIA

Imagem de Nastiklis1992 por Freepik

 

Dona Leonor não se limitava a cuidar da casa e dos negócios da família. Como amiga pessoal do Marquês de Pombal, ela frequentava a sede do governo em Lisboa, o palácio real. Acredita-se até mesmo que a nomeação do marido tenha sido obra dela. Outro feito foi conseguir casar sua sobrinha com o filho do Marquês de Pombal. Essa é uma história interessantíssima, mas que ficará para um próximo número desta coluna. Como não poderia ser diferente, as cartas de Dona Leonor revelam uma mulher informada, engajada e com opiniões fortes sobre os assuntos políticos da época, sempre em busca de defender os interesses da Coroa Portuguesa.

 

A MULHER IDEAL DO SÉCULO XVIII

Dona Leonor personificava a imagem da mulher portuguesa idealizada no século XVIII: religiosa, dedicada à família, inteligente, culta, influente e líder. No entanto, apenas mulheres muito abastadas, de famílias da nobreza, poderiam desenvolver todas essas qualidades e habilidades. Sua história nos mostra que as mulheres daquela época desempenhavam papéis importantes na sociedade, mesmo que seus nomes não tenham sido registrados nos livros de história. Infelizmente, esse cenário de letramento exemplar em diversos idiomas, associado a um modelo de virtude, inteligência, resiliência e capacidade de liderança, personificados em Dona Leonor não eram regra às mulheres do período, sobretudo as brasileiras. De maneira completamente oposta, a falta de acesso a qualquer tipo de escolaridade popular restringia a alfabetização a uma pequena elite que, via de regra, preferia que os filhos homens estudassem. Às mulheres ficava restrito um cenário de casamento arranjado pela família ou de convento. As atuações profissionais de uma mulher restringiam-se a casos de extrema necessidade da família, como vendedoras de rua ou funções que não exigissem letramento.

Os discursos masculinos sobre as mulheres brasileiras claramente baseiam-se no padrão feminino europeu de comportamento personalizado por Dona Leonor. Interessante exemplo disso é a análise da mulher brasileira feita em uma carta do Vice-Rei do Brasil, o Marquês do Lavradio, em 1960: “Este país é ardentíssimo. As mulheres têm infinitas liberdades. Saem à noite sós, andam quase nuas a pouco mais de meia cintura para cima. E porque as camisas são feitas em tal desgarre, que um ombro e peito daquela parte é necessário que anda aparecendo todo. Saem em chinelas”. Somada às vestimentas estaria a aparência do corpo de uma nobre europeia em detrimento das brasileiras retratadas por Mary Del Priore “dificilmente poder-se-ia acreditar que a metade delas eram senhoras da sociedade. Como não usavam coletes, nem espartilhos, o corpo torna-se quase indecentemente desalinhado logo após a primeira juventude.” (PRIORE, 2012, p. 55)

 

À guisa de conclusão, contra as velhas e perversas desigualdades social e de gênero no Brasil

Nota-se que além da desigualdade de gênero, as diferenças entre mulheres de diferentes classes sociais já se evidenciava no Brasil colonial. E pode-se afirmar, que, apesar dos avanços conquistados pelas mulheres ao longo dos séculos, a desigualdade de gênero ainda é uma realidade no Brasil, bem como em muitas partes do mundo. As mulheres continuam a enfrentar desafios no mercado de trabalho, na política e na sociedade em geral.

Buscou-se, por meio do exemplo de uma mulher portuguesa, suscitar a importante reflexão sobre a ideologia, marcada pelo sexismo, que nos fundamenta socialmente. Dona Leonor deve incentivar, portanto, o reconhecimento de outras personalidades femininas relegadas à sombra do segundo plano em relação ao gênero masculino. E ainda mais de outras completamente silenciadas histórica e socialmente devido a seu gênero e classe social.

Sendo assim, trazer parte da história de Dona Leonor nesta coluna intenciona nos lembrar da importância de seguirmos lutando por meio da educação de qualidade e do esclarecimento, em prol de uma sociedade com menos diferenças entre gêneros e classes sociais.

Imagem de Andreycherkasov por Freepik

 

Referências Bibliográficas

CONCEIÇÃO, Adriana Angelita da. A prática epistolar moderna e as cartas do vice-rei D. Luís de Almeida, o Marquês do Lavradio – Sentir, escrever e governar (1768 – 1779). São Paulo: Alameda, 2013.

FANINI, Michele Asmar. Fardos e fardões – Mulheres na Academia Brasileira de Letras (1897-2003). Tese de Doutorado em Ciências Sociais. São Paulo: FFLCH/USP, 2009.

PRIORE, Mary del (org). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2012.

 

Por RENATA MUNHOZ

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *