SEMEANDO A ESCRITA – Feridas e cicatrizes do poeta

SEMEANDO A ESCRITA – Feridas e cicatrizes do poeta

Marcas e sentidos indeléveis de sua escrita

Salve, leitores! A edição desta coluna intentará semear a escrita a partir de uma visão de algo que compõe boa parte dos poetas e reflete em suas respectivas obras: as dores que cada um carrega e o poder de transformar essa comunicação da alma em beleza.

Sob esse viés é que convido a todos a refletirem sobre o fato de que, mesmo diante de um coração angustiado, há encanto e sobressalência poética. Afinal, as feridas e cicatrizes do bardo são externadas em poéticas marcas que representam o coração do autor e extravasam ao coração do leitor. E, quem sabe, a poesia acabe por se tornar a cura, e; se assim não o for, tornar-se-á o alento necessário à perpetuidade dos mais sinceros e intensos sentimentos evocados em palavras.

Bem-vindos e a desfrutem da leitura!

 

“Finjo que essa vontade de te ter aqui comigo bate apenas de raspão, resvalando em minha mente…

Mas eu sinto! E vou atrás dessa pancada no meu peito que implora por estar contigo. Sinto-a…

Só para saber se não valeria a pena ter sentido que batesse mais forte… Ou se, talvez, fosse melhor nem ter sentido!”

(Lilian Barbosa)

Imagem de Lilian Barbosa através de IA por Bing Image Creator of Microsoft

 

 

Acerca das dores tão enfatizadas nas poesias, faz-se oportuna a leitura do poema “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

(Fernando Pessoa)

 

O poema acima nos convida a refletir profundamente sobre a origem da criação artística e sobre como o poeta se relaciona com a sua obra. Por vezes, o poeta é visto como “mestre da simulação”, até mesmo em relação às dores que, de fato, sente. Isto porque a habilidade de escrever poesia é capaz de constituir uma realidade paralela, cujo resultado pode alcançar sentidos de maior intensidade quando se compara à própria realidade.

Para além da criação de máscaras – sem o viés pejorativo – o poeta exterioriza a sua persona com uma identidade irrefutavelmente autêntica. Embora pareça uma antítese, uma das incumbências do poeta é a de transformar a sua dor real em uma dor “fingida”, atribuindo-lhe uma beleza catártica, de forma a transfigurar e liberar emoções outrora reprimidas. É através dessa arte que o poeta se conecta aos seus leitores, por meio de relatos expressos das dores, ainda que impossível a conexão com a real e subjetiva dor do autor.

Imagem de QuantumEdge por Freepik

 

Ainda na seara das dores expressas em poesias, faz-se salutar mencionar uma marcante obra de Pablo Neruda:

Já não se encantarão meus olhos em teus olhos,
já não se achará doce minha dor a teu lado.

Mas por onde eu caminhe levarei teu olhar
e para onde tu fores levarás minha dor.

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos fizemos
um desvio na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás de quem te ame,
do que corte em teu horto aquilo que eu plantei.

Eu me vou. Estou triste: mas eu sempre estou triste.
Eu venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Desde teu coração diz adeus um menino.
E eu lhe digo adeus.

(Pablo Neruda)

Imagem de Pablo Neruda por Google

 

A poesia de Pablo Neruda reflete a dor da separação, resultado de um amor que um dia foi muito intenso. Os seus resquícios passam a compor a própria pessoa. A ruptura, nesse caso, não é total, posto que a conexão há de persistir em reminiscências das lembranças.

Não há como negar que as feridas e as cicatrizes são partes integrantes do poeta, convertendo-se em material capaz de tocar outros corações, mesmo que de forma diferente daquela prementemente atribuída pelo poeta. Se os corações não são iguais, as percepções de cada poesia diferem mediante as bagagens de cada um que as lê.

Ainda assim, há especificidades da escrita e dos sentimentos capazes de convergir os pensamentos de leitores a alguns poetas, ainda que tais marcas resultem em uma infinidade de interpretações quanto aos mais belos e doloridos sentimentos.

De igual modo, cada leitor dispõe de suas próprias feridas e cicatrizes, o que torna a recepção de excertos poéticos como dores inteiramente singularizadas, traduzindo mais uma das magias do poder da escrita.

Imagem de Milankov por Freepik

Por LILIAN BARBOSA

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