CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Da singularidade dos encontros únicos

CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Da singularidade dos encontros únicos

Recentemente, li na página @sagradaintuicao um pensamento bem interessante que diz assim: “Quando aprendemos a escolher os solos férteis, as sementes propícias nos fecundam.” A questão é: como estimular esse aprendizado o mais rápido possível para que a nossa vida seja sempre fértil (e isso não quer dizer, necessariamente, feliz).

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Tantos são os caminhos que nos conduzem aos solos áridos… frequentemente, nossa própria aridez que busca solos semelhantes…  Isso não exclui o fato de que a vida anda automatizada demais. Rápida demais. Tudo se resolve – ou se complica – com um clique.

Chata essa vida, né? Rasa. Insípida. Padronizada. Anêmica.

Como seria voltar a se permitir fruir de experiências singelas e potentes? Humanas e, por isso mesmo, contraditórias? Como seria abrir mão do controle? Sustentar o desconhecido e se render a ele?

Nas próximas páginas, leitor (a), você irá ler exatamente os desdobramentos de um encontro comum. Mas, o que seguiu após o encontro foi absolutamente inesperado, transformador e poético. Insuspeitado.

A vida é assim: tudo está disponível desde que estejamos abertos e atentos. Com o que você sintoniza? Com quais encontros a vida tem lhe presenteado?

Desejo que, assim como eu, você se deixe encantar pelo fluxo do inesperado, que conduz a outro inesperado em uma sinfonia quase sem fim…  Que sua alma reconheça a potência do simples que, na maioria das vezes, é o que há de mais rico e curativo…

Um beijo no seu coração,

Adriana

 

 

DA SINGULARIDADE DOS ENCONTROS ÚNICOS

 

“O aberto dá espaço. Ele nos convida. Por exemplo, uma porta aberta e um portão amplamente abertos.

O aberto nos concede entrada por qualquer lado. Por exemplo, a visão aberta, o ouvido aberto, a mão aberta, a casa aberta, o espírito aberto, o futuro aberto, o amor aberto. ” Berth Hellinger

Nada nem ninguém me preparou para o que eu viveria ali e nos próximos dias. Não sou uma pessoa que usa com frequência aplicativos como Uber ou 99, mas, por necessidade, tenho adotado esse recurso ultimamente e, graças a esse novo quase hábito, dei-me conta do tamanho da minha cegueira. Sim: falta de visão mesmo. Da vida. Do mundo. Das pessoas.

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Não havia cogitado que, dentro do carro de um desconhecido, há um oceano de possibilidades, de trocas e de descobertas. Têm sido experiências memoráveis minhas conversas com os motoristas e julguei justo prestar-lhes, aqui, minha gratidão pelos momentos de felicidade que, casualmente, temos construído. Alguns, ficaram, já, tatuados nas minhas melhores memórias.

Há cerca de 4 meses, numa dessas corridas, conheci um músico que toca Cello, Adriano, meu xará. Quando entrei no veículo, de imediato, fiquei impressionada: tocava uma composição famosa de música clássica. Mas, impressionada mesmo (e decepcionada!) fiquei foi com meu preconceito… como rotulamos o outro com tanta naturalidade, não é? Pensei “como assim um taxista de aplicativo gosta de música clássica? ” O preconceito é como um polvo com seus tentáculos imobilizadores ou como o olhar de uma Medusa que petrifica o que toca: a matriz preconceituosa é veneno mortífero que se espraia pela corrente sanguínea contaminando tudo e mostrando-se em variadas e disfarçadas facetas. Dentro do carro, porém, mal sabia eu das surpresas que o “acaso”, esse deus imbatível que nos move de uma direção a outra e nos vira do avesso, me renderia…

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Logo, iniciei uma conversa entusiasmada falando da minha paixão por música clássica e, surpresos, descobrimos que, em comum, conhecíamos uma mesma pessoa: o maestro João Maurício Galindo, um regente magnífico, uma pessoa fantástica, um entusiasta da arte e alguém extremamente contagiante! Tive a feliz oportunidade de assistir a diversas apresentações regidas por ele e, em uma delas, ganhei até um abraço seu!!! Ao compartilhar essa informação, muito educada e amorosamente, o motorista perguntou:

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– Adriana, você me permite compartilhar agora a minha história com você? Faladeira como sou e mega curiosa, disse – claro! Imaginem como o mundo é pequeno: eu sei que é um clichê. Mas, não há como não me render a ele diante de acontecimentos inusitados como esse…  Simplesmente, o motorista me disse que foi regido por Galindo durante anos na Orquestra Jovem do Estado. Pode? Emocionada e surpresa, perguntei-lhe:

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– Mas, se você é músico, o que está fazendo aqui?

– Meu pai faleceu cedo e, logo, precisei começar a trabalhar para ajudar minha mãe… é a vida, né? Sim: a vida e suas armadilhas.

Inconformada, continuei:

– Mas você abandonou a música?

– Não! Eu toco Cello na Camerata Quattro Stagioni, no Teatro Arthur Azevedo, aqui na Mooca. E a felicidade tão perto de mim e eu não fazia ideia…

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Não sei dizer exatamente o que senti, mas as lágrimas e a ebulição brotaram com uma intensidade forte: era um misto de orgulho por ele, de saber que nem todo mundo desiste de sonhar e de manifestar os sonhos. Além disso, reverberou um apelo ancestral muito forte em mim: sou neta de um homem negro que foi filho de uma execrava liberta. O motorista é negro: percebem? Ali, na presença serena, culta e gentil dele, eu vi um capítulo bem-sucedido de um descente africano: contra todas as expectativas, ele deu certo! Por breve instante, acreditei que a libertação das pessoas escravizadas foi real… Conseguiu honrar seu sonho. O sangue negro que corre em minhas veias, apesar da minha pele clara, vibrou fortemente, me levando direto às memórias do meu sistema familiar. Eu renasci. Foi como um banho de cachoeira que me trouxe de volta a uma realidade que pode – e deve – ser transformada sempre. Eu senti na minha alma “eu também vou conseguir”: aquele relato reavivou minhas forças.

Vocês pensam que parou por aí? Era final de abril e, na mesma semana, seria o primeiro domingo de maio. Ele me disse que a Camerata faz concertos mensais gratuitos e me convidou para ir vê-lo tocar. Pediu para avisar na entrada caso eu fosse para que ele soubesse que eu estava lá.

Quem me conhece sabe que, como diz um colega, “se estou no inferno, eu beijo o capeta! ” É claro, minha gente, que fui vê-lo tocar! Posso garantir: foi o concerto mais lindo, humano, arrojado, criativo, intenso e mobilizador de que já participei! Logo no início, ele, o motorista-músico, dirigiu-se a mim, dizendo da sua surpresa ao me ver lá, pois não imaginou que eu fosse. A partir daí, só emoções intensas. Música, piada, leitura de partitura, teoria musical, perguntas da plateia, mito grego e gargalhadas: muitas, aliás! Conseguem imaginar isso tudo em um concerto de música clássica? Eu vivi essa experiência incrível e contagiante! Quantos talentos na minha frente compartilhando encanto, beleza, competência artística com a vida! Quantos talentos ocultos existem na vida? Nunca vistos. Nunca ouvidos. Nunca manifestados. Nunca sequer suspeitados…  Enfim, um concerto totalmente interativo! Ao final, tive o privilégio de subir ao palco para ouvir, sentada entre os músicos, a última apresentação. Não tenho palavras para descrever minha emoção!!! O som simplesmente brota de todos os lados: é forte, é contagiante e vibra no corpo todo! Após o encerramento, além de um abraço muito apertado, de muitas lágrimas de alegria, agradeci à vida que permite encontros assim: plenos, que fazem a gente transbordar. Que acordam o melhor que está adormecido em nós. Que nos presenteia com pessoas iluminadas e talentosas como o Adriano de Paula, o motorista que me deu vida! Aqui, registro também meu agradecimento mais do que especial ao Maestro Titular da Camerata Quattro Stagioni, João Carlos Pinheiro da Silva, que, com brilhantismo ímpar, irreverência, erudição e alegria, prontamente, se dispôs a me dar algumas informações para a confecção deste texto: parabéns, Maestro, por levar arte, cultura e humanidade a uma sociedade tão adoentada, desnutrida e carente de vida em abundância… seu trabalho, Maestro, e de todos os músicos da Camerata é vital para o mundo! Gratidão por existir tão linda e corajosamente!

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Bem, depois de assistir à apresentação, período em que confeccionei esta crônica, novos eventos surpreendentes e impactantes ocorreram e é importante fazer uma atualização. Então, “Senta, que lá vem história…”

Fui intimada pelo Maestro João Carlos a ler a crônica aos músicos no ensaio geral para o próximo concerto. Conseguem suspeitar do tamanho da minha emoção? Eram jovens musicistas, de periferia e negros em boa parte. O Maestro me disse que precisava do meu depoimento para que eles – os jovens instrumentistas – vissem o impacto real da arte deles no público. Desejava que eles sentissem o que provocam na plateia. À época, comentou, também, das inúmeras dificuldades para conseguir motivá-los a chegar para a orquestra e nela permanecer e acreditava que, se me ouvissem, seria um estímulo real, vindo de uma desconhecida que “apenas” havia assistido à apresentação deles. Diante desse contexto, obviamente, aceitei a intimação e compareci ao ensaio geral da Orquestra para fazer a leitura desta crônica para eles.

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Gaguejei, chorei e, por fim, sorri grata por aquela experiência. Parecia uma cena de filme: os músicos atentos, ansiosos, curiosos e emocionados (porque só o Maestro havia lido a crônica previamente). Perfilados a minha frente, uma orquestra todinha só pra mim (risos)! Nos primeiros minutos de leitura, já conseguia sentir e ver tamanha comoção entre eles. Olhos brilhantes e muitas lágrimas. Era como se, finalmente, tivessem sido vistos. Re-conhecidos. Validados. Suspiros profundos, corpos trêmulos e sorrisos sem fim. Ao final, ganhei um sem número de abraços e de agradecimentos. Ainda agora, ao rememorar e descrever essa cena, me emociono e uma lágrima insistente brota aqui.  

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Vocês pensam que, finalmente, acabou? Mais um pouquinho … não bastasse a convocação do Maestro para ler o texto aos músicos, intimou-me, também, a ler para a plateia do próximo concerto no mês seguinte… Já sabem, né? Fui, claro! Domingo pela manhã, acordei emocionada. Dirigi-me ao teatro e, daquela vez, tudo estava diferente. Adriano, o motorista-músico, motivo de tudo isso, fez a abertura das apresentações e confessou ao público que estava agitado e ansioso porque aquele dia teria uma surpresa muito diferente além da orquestra. Na plateia, sentada, meu estômago revirou e meu coração desatou a acelerar.

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O concerto prosseguiu – magnífico e estimulante como sempre – e, ao final, o maestro João Carlos me chamou ao palco. Assim, sem prévias explicações, me entregou um microfone e me lançou no jogo cênico-musical. Sem saber bem por onde começar, fui tratando de deixar claro que não sou musicista, ao que perguntei:

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– Então, o que estou fazendo neste palco sagrado? Nesse instante, vi várias cabecinhas concordando comigo e rindo. Emendei e, brevemente, contextualizei o nascedouro da crônica, culminando com a intimação que me conduziu ali. Enquanto eu lia – dessa vez, sem gaguejar – havia, de novo, emoção e alegria em volta de mim. O palco – pareceu – ficou ainda mais iluminado. Ao final, recebi muitos aplausos e, novamente, muitos abraços de toda a orquestra. Esta foi, igualmente, uma experiência de forte impacto em mim.

Ufa, minha gente, o que não faz uma simples corrida de aplicativo, heim?

  Bom, #ficaoserviço: concertos mensais, sempre no primeiro domingo do mês, às 11h, com entrada gratuita, em São Paulo, Mooca, no Teatro Arthur de Azevedo. Sim, é um apelo-convite: como humanos, permitam-se viver essa experiência. Há encontros cuja probabilidade de ocorrerem novamente é mínima: estejam atentos ao que a vida traz! Como diz o ditado, “a felicidade mora ao lado”. Pergunta que não quer calar:  você está de olhos abertos para reconhecê-la? Olha ela aí, agora, exibindo-se para vocês! Enxergaram?

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Por ADRIANA MOURA SALLES

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