INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – A deficiência na Mitologia Nórdica

INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – A deficiência na Mitologia Nórdica

Os mitos podem ser definidos como histórias consideradas fantásticas, portanto, carregadas de elementos e seres sobrenaturais (deuses, semideuses, heróis etc.) que se prestam a representar os fenômenos da natureza ou até explicar a origem da vida, sob a ótica de determinado povo. A mitologia pode ser compreendida como um conjunto dessas histórias contadas sob uma ótica mirabolante ou extravagante, onde a presença de diferentes personagens e suas tramas são capazes de oferecer explicações para as condições da vida humana, em uma determinada cultura e época (https://www.dicio.com.br/mitos/).

Imagem de DenisW por Freepik

 

Não há dúvidas de que, sob várias formas, a mitologia demarcou costumes, valores e hábitos que acabaram por conferir identidade cultural a cada povo. Portanto, pode-se dizer que o mito tem ascendência sobre a formação cultural de um determinado grupo, delineando aspectos de sua vida social, revelando, inclusive, relações de poder.

Em certa medida, a mitologia atravessa eras e deixa marcas em gerações. Por longos períodos da história da civilização, para determinadas culturas, a mitologia assumiu uma certa sacralidade, e é possível admitir, mesmo na atualidade (quando dispomos da ciência), a mitologia ainda povoa o imaginário popular e desperta atenção especial, servindo de contraponto para várias reflexões filosóficas, tocando fundo nossos sentimentos e emoções (Santiago, 2009).

Os personagens e as narrativas mitológicas são, portanto, explorados no universo das artes, de modo geral, e na indústria cinematográfica vem ganhando espaço e conquistando diferentes públicos. Não é à toa que filmes como Fúria de Titãs ou Percy Jackson, ambos baseados na mitologia grega, lançados em 2010, foram sucessos de bilheteria. Na mesma direção temos a série Os Vikings, lançada em 2013, que tem por base a mitologia nórdica.

Imagem: cena do filme Fúria de Titãs

 

É possível dizer, então, que a mitologia participa da cultura e que, de um jeito ou de outro, é um dos marcadores de nossa identidade, portanto, dá sentido ao nosso pertencimento a este ou aquele grupo. Mas, por outro lado, aspectos culturais também são capazes de promover certa deterioração da identidade e, inclusive, de conferir o não pertencimento de um indivíduo a um grupo. E foi exatamente isso que ocorreu com as pessoas com deficiência, em razão de possuírem características distintas da maioria (Goffman, 1982).

Imagem gerada por Leonardo AI

 

Na mitologia nórdica identifica-se alguns personagens e narrativas que criam ou reforçam o estigma de um corpo deteriorado, estereotipado, associados à condição de deficiência. Nesse contexto, é possível perceber a deficiência sendo relacionada à imperfeição, ao defeito, à falha, e, por conseguinte, sendo atrelada à maldade, à marginalidade. Destaca-se a presença dos chamados anões como seres pertencentes a um mundo inferior. Por vezes, os tais anões são identificados como duendes escuros, e apresentados como criaturas pequenas e mal-sucedidas que vivem dentro das montanhas, mais especificamente numa espécie de subterrâneo escuro (Manea, 2021).

Hoje, já não se usa o termo “anão”, considerado pejorativo. A expressão em uso é “pessoa com nanismo”, conforme a SBGM (Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica). O nanismo, sendo uma condição de deficiência física (CID E34.3) indica somente que o indivíduo tem uma estatura significativamente abaixo da média para a idade e sexo, nada além disso, nenhuma relação com qualquer transtorno cognitivo ou comportamental (https://sbgm.org.br).

Imagem de Natee Meepian por iStock

 

Entretanto, longe dessa compreensão tem-se os mitos. Alviss, Andvari, Fafnir, Galar são seres com nanismo da mitologia nórdica que exercem a função de ferreiros e possuem ótimas habilidades para criar armas e joias e estas, por sua vez, são disponibilizados aos deuses ou heróis, geralmente, em troca de favores. Alguns desses seres possuem poderes mágicos e conseguem adicionar magia às suas criações, sendo capazes de engendrar verdadeiras tragédias ou inesperadas conquistas por suas próprias mãos. Numa das narrativas da mitologia nórdica conta-se que Fafnir, um ser ganancioso e egoísta, mata os próprios irmãos por causa de um tesouro (Manea, 2021). 

Imagem simbolizando Alviss por BaviPower – Google

 

Conforme se pode constatar, com base nos textos nórdicos, os seres com deficiência, no caso, com nanismo, foram separados do mundo dos deuses e dos heróis por sua condição de inferioridade e de maldade. Alguém pode dizer: “são apenas mitos”. Mas, não! As narrativas mitológicas dizem muito sobre as civilizações, revelam a percepção humana sobre as diferenças e acabam por justificar práticas, definir regras e até orientar comportamentos. Não por acaso, a deficiência é representada por comportamentos indesejados, por personagens indignos, obscuros, destinados a viver em submundos.

Os mitos sobre a deficiência refletem os discursos, crenças e, certamente as inverdades e preconceitos que são ideologicamente difundidos, portanto, têm “potencialidade em reforçar posturas discriminatórias e sentimentos preconceituosos, frente ao seu objeto” (Furlani, 2003) e cumpriram esse papel por longos séculos.

Imagem de Capuski por iStock

 

Não por coincidência, PcD ainda colhem os frutos dos mitos de outrora. De fato, o mundo ainda não está preparado para as pessoas com nanismo, mesmo que estejamos vivenciando os mais brilhantes inventos da era tecnológica. Não é por acaso que, em pleno século 21, a estrutura de móveis, automóveis e imóveis, artigos domésticos, brinquedos, espaços de lazer, de trabalho, escolas, instituições públicas e privadas, bancos, caixas eletrônicos, balcões de supermercado, padarias, lanchonetes, quadros de avisos, painéis etc. etc. não estejam acessíveis às pessoas com deficiência física, onde se inclui o nanismo. Por que será? Será que, ainda, são vistos como seres inferiores? Será que estão condenados a viver à margem?

 

Referências:

GOFFMAN, E. Estigma: Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

Maia e Ribeiro, 2010

FURLANI, JMitos e tabus da sexualidade humana 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

MANEA, I. M. Elfos e anões na mitologia nórdica. 2021. Disponível em: https://www.worldhistory.org/article/1695/elves–dwarves-in-norse-mythology/ acesso em 12/5/2025.

SANTIAGO, S. A. S. A história da exclusão das pessoas com deficiência. João Pessoa: Ed. Universitária, 2009.

SBGM. https://www.sbgm.org.br/detalhe.aspx?id=1416&area=4 acesso em 15/5/2025.

MITOS. https://www.dicio.com.br/mitos/. Acesso em 25/5/2025.

 

Por SANDRA SANTIAGO

 

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