Introdução
Patrimônio cultural é o conjunto dos conhecimentos, crenças, arte, moral, direitos, costumes, capacidade e hábitos adquiridos e transmitidos de geração a geração em uma determinada sociedade. Adquire uma força simbólica na formação cultural e seu significado e pode-se assim dizer, a representação da expressão cultural do fazer social. Nesse contexto, a música, como expressão do fazer social, como elemento da arte, ajuda a (re)criar imagens sobre a formação do patrimônio, do povo e da cultura, suas condições históricas, sociais e comunicacionais. É um espaço simbólico importante para atender às exigências contemporâneas, que consideram a produção humana como bem cultural.

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Na interseção de reflexões acadêmicas e experiências pessoais, o artista Ramon Schinayder (2025) que trabalha nesta direção, pesquisa/vivência em entrevista a esta colunista admite serem escassos os estudos que trazem análises envolvendo a problemática das violências sofridas por mulheres no campo da música. Ele ressalta que a luta por reconhecimento da presença de mulheres na cena musical tem se ampliado no contexto da escalada da violência contra mulheres no Brasil. Indica que muitas questões ainda precisam revisitar no espaço público onde ocorrem fluxos de comunicação que sintetizam e condensam opiniões públicas reagrupadas em função de temas específicos, como, por exemplo, as violências sofridas pelas mulheres no campo musical, bem como na esfera pública digital onde a opinião pública se forma e pode influenciar as decisões políticas.

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Pesquisa realizada por Brennand & d’Amorim (2025) mostra que a música tem historicamente sido um campo de produção de criação artística a partir de códigos de masculinidade. Como campo de produção cultural, tem sido majoritariamente protagonizado por homens e reproduz formas de relações sociais de sexo, de raça e de classe. Somente a partir do século XXI, as mulheres no campo musical vêm crescendo em visibilidade e com maior inserção na segunda década.

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Os debates sobre gênero vêm ocupando lugares importantes, fruto da luta por visibilidade pelas mulheres no processo histórico contemporâneo, bem como pelas necessidades urgentes e reais de luta pela vida. A história das lutas das mulheres por visibilidade e reconhecimento de direitos é comumente dividida em três ondas, que acompanham mais ou menos uma divisão geracional baseada principalmente em eventos ocorridos nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França e em outros países europeus ocidentais além em países da América Latina, entre os séculos XIX e XXI.
Os movimentos por reconhecimento acompanham a evolução social que traz mudanças drásticas tanto na produção como na paisagem e dinâmica do trabalho em todo o mundo: o êxodo rural; processos de industrialização; guerras; as condições de exclusão, preconceito e invisibilidade. A luta ao longo da história traz nuances diversas mesmo em pleno século XXI na busca por emancipação enquanto indivíduo e, o debate, as naturalizações das associações das categorias homem/mulher e da consciência humana e seus produtos possuem forte conotação. O porquê do silenciamento das vozes das mulheres é uma indagação de ordem histórica envolvendo variadas formas de fundamentação, tanto moral como ética. Estudos sobre violências de gênero se dão através de profundas raízes na estrutura patriarcal da nossa sociedade. Atinge mulheres de todas as classes sociais, etnias, religiões e culturas.

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Neste momento histórico de luta contra toda forma de silenciamento e discriminação as vozes das mulheres carecem de novas significações do que pode significar uma sociedade com menos desigualdades, mais inclusiva e que propicia o desenvolvimento social em todos os seus aspectos humanos, ambientais e econômicos.
Mulheres na música brasileira: desigualdades e resistência
O Fórum de Segurança Pública do Brasil reconhece que as iniciativas para frear a epidemia de violência têm sido insuficientes, independentemente dos esforços de alguns governos e da exposição dos casos de repercussão nacional ao longo dos últimos anos.
Segundo relatório da União Brasileira de Compositores (UBC, 2024), somente 8,5% dos fonogramas registrados entre 2017 e 2021 tinham autoria exclusivamente feminina. Ainda que a coautoria com mulheres atinja 21,1% dos registros, a grande maioria continua sob domínio masculino. Além disso, a desigualdade de renda é gritante: artistas mulheres recebem, em média, menos da metade do que os homens em direitos autorais, mesmo quando possuem destaque comercial.
O estudo “Mulheres na Indústria da Música”, realizado pela Women’s Music Event (WME) em parceria com a plataforma Data Sim (2020), analisou a participação feminina em festivais e espaços técnicos da música. O levantamento comprovou que menos de 30% das atrações de festivais brasileiros são compostas por mulheres ou bandas lideradas por elas. Em cargos como produção musical, engenharia de som, direção de palco e curadoria, a presença feminina é quase nula. Mais grave ainda, o relatório apontou que 72% das profissionais entrevistadas já sofreram assédio moral ou sexual no ambiente de trabalho, geralmente sem recorrer a denúncias por medo de retaliação.

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Outro estudo relevante, desenvolvido pelo festival “SIM”, São Paulo (2022), está focado na interseccionalidade entre gênero e raça. A pesquisa demonstra que mulheres negras enfrentam uma marginalização dupla: são menos visíveis nos grandes palcos e praticamente ausentes nas decisões curatoriais e gerenciais do setor. A presença dessas mulheres, embora significativa em gêneros como funk, rap e slam, é pouco reconhecida pelas instituições e pelo mercado formal da música. Mostrou que menos de 30% das atrações principais de festivais de música brasileiros eram compostas por mulheres ou bandas lideradas por mulheres. Em gêneros como sertanejo, rap e pagode, a presença feminina como protagonista é ainda menor.
Considerações finais

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A inserção das mulheres na indústria musical brasileira revela um cenário profundamente marcado pela desigualdade de gênero, atravessado também por relações de raça, classe e territorialidade. Apesar de avanços em visibilidade e ocupação de espaços artísticos, a estrutura do mercado ainda opera com bases patriarcais, reproduzindo a exclusão simbólica e material das mulheres.
As mulheres estão em sub-representação nas posições técnicas e de liderança (como produtoras, engenheiras de som e empresárias artísticas). A violência simbólica e estética tem forte presença na indústria musical. As artistas mulheres frequentemente enfrentam sexualização excessiva, cobrança estética e deslegitimação técnica, especialmente em gêneros urbanos como o funk e o rap.

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Mas é possível verificar o surgimento dos coletivos femininos, como o Rimas & Melodias, Slam das Minas e o próprio WME Festival, tem sido central para construir redes de apoio, visibilidade e profissionalização entre mulheres. Esses grupos promovem formas alternativas de circulação cultural, ao mesmo tempo, em que denunciam o machismo estrutural da indústria fonográfica. Esses dados reforçam a necessidade de políticas culturais e educacionais que estimulem a igualdade de gênero no setor musical, bem como a valorização da diversidade estética, étnica e territorial das mulheres artistas.

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O Relatório “Assédio na Música” (WME, 2020) mostra que 72% das mulheres entrevistadas já sofreram algum tipo de assédio sexual ou moral no ambiente musical. Ramon Schnayder (2025) assevera os dados do Relatório afirmando que, em seu contexto de experiência, a maioria dos casos ocorre em estúdios, bastidores e eventos ao vivo. Grande parte dos casos não é denunciada por medo de retaliação ou perda de espaço na carreira. Mulheres negras enfrentam dupla marginalização: por gênero e raça. E ainda baixa representatividade em cargos de curadoria e direção de festivais. A presença feminina é maior em gêneros periféricos (rap, funk, slam), mas com pouca valorização institucional.
Assim, reconhecemos ser necessário reconsiderar papéis associados ao homem e à mulher na história da música e, com isso, fomentar novas possibilidades de criação e valores sociais. Daí enfatizarmos a importância de políticas com foco em diversidade interseccional no campo da música. Esse tema ainda é incipiente no Brasil, sendo que pesquisas na área se desenvolvem em maior índice nos EUA.

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Referências
BRENNAND & D’AMORIN. Invisibilidade de mulheres na música e as violências na cena em que atuam. João Pessoa: Pré-Print, 2025.
ECAD. Escritório Central de Arrecadação e Distribuição – Disponível em
https://www.ubc.org.br/Hotsite/Relatorio_Anual/2024/. Acesso em abril de 2025.
UBC. Por Elas que Fazem a Música. União Brasileira de Compositores, 2022. Disponível em: https://www.ubc.org.br/publicacoes.
WME; DATA SIM. Mulheres na Indústria da Música. São Paulo: Women’s Music Event, 2020. Disponível em: https://www.womensmusicevent.com.br.
SIM SÃO PAULO. Gênero e Raça na Música Brasileira. São Paulo: Sim São Paulo, 2022. Disponível em: https://dados.artes.simsaopaulo.com.
SCHNAYDER, R. Conversas sobre mulheres na música. Rede interdisciplinar de Estudos sobre violências. Universidade Federal da Paraíba.João Pessoa: 2025.
Por EDNA BRENNAND
