A Literatura de Cordel é uma manifestação literária da cultura popular brasileira, que retrata a realidade e o imaginário popular brasileiro, em uma linguagem poética e de fácil memorização. É um gênero literário que recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, em 2018. Teve sua origem no Brasil, na região Nordeste, entretanto, encontra-se difundida em todo território nacional, atestando sua relevância cultural.
Na atualidade, mulheres, por meio da escrita de cordéis deixam fluir sua poeticidade e por meio dela demonstram seus sentimentos, aspirações e visões de mundo, consolidando uma identidade autoral e o espaço feminino na literatura de cordel.
Tradicionalmente os folhetos de cordel são escritos por poetas. Entretanto, não se pode deixar de problematizar a questão da presença da figura feminina no cordel. É interessante destacar que, dificilmente encontrava-se um folheto de cordel assinado por uma poetisa, apesar da extensa produção, principalmente no Nordeste brasileiro. Até os fins do século XIX, a produção era marcadamente masculina, mas este cenário vem mudando nos dias atuais.

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Como Albuquerque (2010, p. 115)[1] assevera, um texto literário feminino apresenta a consciência que o “eu” da poetisa coloca, seja na voz de personagens, narrador ou na sua própria pessoa na narrativa, sua experiência de vida, enunciando o seu papel na sociedade.
Sabemos que o pseudônimo era um recurso muito usado na literatura feminina, principalmente até o século XIX, e a poetisa encontra essa forma para obter a aceitação popular numa sociedade patriarcal.

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Na década de 1970, surgem outras produções femininas do cordel, e Santos (2006, p. 186)[2] reafirma quando observa:
A presença das mulheres autoras na literatura de cordel, mormente as condições diferenciadas para sua performance, situa, contemporaneamente um novo fenômeno investigativo nesse campo. Essa autoria feminina, no entanto, apesar de herdar a tradição de cantadores nordestinos – partindo de sua forma patriarcal, a voz, também vai instituir outras formas, outros conteúdos, outras autonomias. Cria-se outra tradição, notadamente vislumbrada a partir de temas próprios como o feminismo, ecologia, saúde da mulher, homoerotismo, entre outras temáticas. Questionando o imaginário social marcadamente masculino ou inaugurando novos espaços de veiculação do cordel como escolas, passeatas, universidades, lugares outros que não as tradicionais feiras, as mulheres no universo do cordel se desterritorializam do espaço privado, se apropriam do território do cordel e instauram uma ressignificação desta poética do homem.
1ALBUQUERQUE, Maria Elizabeth Baltar Carneiro de. Vozes femininas na literatura de cordel. In: DEPLAGNE, Luciana Eleonora de Freitas Calado. Vozes femininas na literatura ocidental: corpo, espiritualidade e relações de gênero. João Pessoa: Editora UFPB, 2010. p. 99-117
2 SANTOS, Francisca Pereira dos. Mulheres fazem … cordéis. Graphos, v. 8, n. 1, p. 183-194, jan./jul. 2006.

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Atualmente a luta por mais um espaço da mulher na literatura finalmente chega aos cordéis e suas produções podem ser encontradas em muitos acervos de bibliotecas. E considerando a importância da Literatura de Cordel como parte da memória social brasileira e as dificuldades encontradas para sua preservação me motivaram a desenvolver um projeto sobre o universo feminino na Literatura de Cordel, cujo objetivo é mapear poetisas de cordel, instituições e as principais características de suas coleções. Em um resultado preliminar, já foram identificadas mais de 300 poetisas em todo o território brasileiro.
Dentre as poetisas identificadas, trago para esta coluna, um grupo de Poetisas que me chamou muita a minha atenção pelo trabalho poético que desenvolvem na Literatura de Cordel: Coletivo Maria das Poesias. @mariasdapoesia

Nós, Marias da Poesia,
Recitamos resistência.
Mulheres em evidência,
Com cuidado e empatia.
No palco, com simpatia,
Pregamos sororidade,
Com força e diversidade,
Lutamos pelo direito,
Nosso verso traz respeito,
Num grito de liberdade!
(Annecy Venâncio)

QUEM SÃO:
O Coletivo Marias da Poesia é formado por quatro mulheres cordelistas da Paraíba: Anne Karolynne, Annecy Venâncio, Cristine Nobre e Juliana Soares. Unidas pelo amor à literatura de cordel e à cultura popular, são vozes que ecoam versos de resistência, identidade e tradição.
Anne Karolynne, Poetisa de Campina Grande – Paraíba, mãe de Ulisses Filho e Talia, enfermeira da saúde mental e empreendedora do Cordel Personalizado. Autora de mais de quarenta títulos de cordéis, de trezentos trabalhos em cordel, através de seu empreendimento e do livro “Poesia popular: ferramenta de inclusão na saúde mental”. Premiada como Melhor Poeta nos anos 2021, 2022 e 2023 em Campina Grande, através de pesquisa popular. Campeã do Prêmio Nísia Floresta de literatura (2020) e do Festival Vamos fazer poesia (2018), categoria declamação. Recebeu prêmios estaduais e nacionais referentes a seu trabalho artístico e literário. Vice-campeã do Festival de Música da Paraíba (2022). Membro titular da Academia de Cordel do Vale do Paraíba e do Coletivo Marias da Poesia. @annepoetisa

Annecy Venâncio, Natural de João Pessoa, Paraíba. É filha de Adeci Beserra Venâncio e mãe de Ana Carolina Venâncio. Mestre em Letras e professora de Língua Portuguesa nos Estados da Paraíba e Pernambuco, contando catorze anos de experiência em sala de aula. É membro da Academia de Cordel do Vale do Paraíba (ACVPB), do Coletivo Marias da Poesia, e do grupo Mulherio das Letras Paraíba. Participou de várias coletâneas e antologias poéticas. É autora dos livros Lonjuras (2019), Borboletei (2024), e dos folhetos de cordel: Lonjuras (2019/2023); Um conto de era uma vez (2020); Carta ao mestre Paulo freire (2021); Nenhuma mulher merece ter seu direito negado, Mulher negra é resistência com a caneta na mão, ambos coletivo (2022); Mulherio das Letras (2022); Manoel José de Lima – mané Caixa d’água (2023); Retalhos diversos (2023); Corpo Violado (2023); Morena do sol e o Cangaceiro (2023). @aninha_venaancio

Cristine Nobre Leite, casada, natural de Fortaleza – Ceará. Radicada na Paraíba. Graduada em Odontologia pela UFPB (1995). Cordelista, membra da ACVPB e autora de: O Dragão da Maldade contra a fluoretação das águas (em parceria com Paulo Capel Narvai), Um Romance pra dar o que escovar (em parceria), As histórias açucaradas de D. Palmira, Mapeamento do Flúor na água de Pirpirituba-PB (relato em cordel), Mínima Intervenção em Odontologia, Ética e Moral em cordel, A Batalha da Covid, Atendimento Odontológico a Pacientes com Necessidades Especiais (CEO de Belém-PB), Biografia de Mauricio Grabois, Uma carta sertaneja (endereçada a Paulo Freire), O voo autista nos mistérios do pavão, entre outros. @cristinenobreleite

Juliana Maria Soares dos Santos, Natural de Cabaceiras – Paraíba. É Pedagoga de formação e atuação, com especialização em Educação Infantil, mestrado em Formação de Professores, pela Universidade Estadual da Paraíba. Autora de poemas, folhetos de cordel e autora dos livros: Gígio um girassol diferente (2021), Chapeuzinho de Chita: uma aventura em cordel (2022) e o livro Poeminhas, poesias e um cordel (2024). É membro efetiva da Academia de Cordel do Vale do Paraíba e do coletivo Marias da Poesia. Duas vezes premiada em literatura na Paraíba. @julianasoaresescritora

O Coletivo Marias da Poesia nasceu em junho de 2022, reunindo mulheres cordelistas titulares da Academia de Cordel do Vale do Paraíba. Desde então, elas vêm fortalecendo sua irmandade por meio da arte e da poesia, unindo vozes femininas para ampliar a presença das mulheres no cordel. O Coletivo representa a poesia de autoria feminina de cada canto da Paraíba, a saber: João Pessoa, Cabedelo, Cabaceiras e Campina Grande.

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FOLHETOS DE CORDEL:

Nas terras desse Brasil,
Cantavam os sabiás,
Sacudiam maracás,
Em natureza gentil.
Mas, num vinte e dois de abril,
Século quinze a se ver,
Homem branco vem fazer
Às nativas, agressão.
QUANTAS MAIS PRECISARÃO, NESTA VIDA, PADECER?
Mote: Juliana Soares
Glosa: Cristine Nobre

Que possamos dizer NÃO
Sem ter o corpo invadido;
Que esse clamor seja ouvido
Com muita compreensão.
Queremos validação
Deste protesto irmanado.
O feminino sagrado
Nos impulsiona e enriquece.
Nenhuma mulher merece
Ter seu direito negado.
Mote e Glosas: Anne Karolynne

Uma jovem sonhadora,
Pois, queria outro destino;
Rezava por liberdade,
O seu sonho clandestino.
Sabia que a cantoria
Era verso matutino.
A chamavam de poeta,
E ficou envaidecida.
No meio dos cantadores, Soledade era querida.
Nas festas em sua casa,
Passava a ser conhecida.
Annecy Venâncio

Paraibana arretada
Que fez valer sua sina.
Uma mulher importante,
Frente à luta feminina.
Por tudo lhe agradecemos.
Nesse cordel nós dizemos:
— Obrigada, Minervina!
Juliana Soares

Nesta escrita que ora faço
Através desse cordel
Vou me mantendo fiel
À história que eu refaço
Cada letra, cada traço
Versos, rimas, oração
Bela metrificação
Dando o ritmo e a cadência
MULHER NEGRA É RESISTÊNCIA COM A CANETA NA MÃO.
Mote: Coletivo
Glosa: Juliana Soares
APRESENTAÇÕES CULTURAIS:

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– Lançamento de Cordel/ Sarau -Agosto das Letras (2022) – Pilar-PB, Cabaceiras – PB, Taperoá – PB e Sumé -PB
– TV Master (João Pessoa – PB)
– Rádio Tabajara (João Pessoa – PB)
– Lançamento de Cordel/Sarau (Museu de Arte Popular da Paraíba – MAPP) – Campina Grande – PB
– Lançamento de Cordel/ Sarau – Festa Literária de Boqueirão – FLIBO (Boqueirão – PB) Sarau – II Encontro Nacional do PROLETRAS – Online pelo YOUTUBE
– Lançamento de Cordel – VI Encontro Nacional Mulherio das Letras – João Pessoa – PB
– Perfomance Poética – VI Encontro Nacional Mulherio das Letras – João Pessoa – PB
– Sarau Contos e Cantos da Cidade – João Pessoa (PB)
– Lançamento de cordel/ Sarau- 36º Salão de Artesanato Paraibano (Campina Grande – PB) -2023
– Sarau e Lançamento de cordel – Agosto das Letras / 2023 – Coxixola – PB
– Apresentação Cultural- VII Encontro Nacional Mulherio das Letras (2023) -Rio de Janeiro
– Oficina de cordel – VII Encontro Nacional Mulherio das Letras (2023) – Rio de Janeiro – Lançamento de Cordel – VII Encontro Nacional Mulherio das Letras (2023) – Rio de Janeiro
– Lançamento de cordel/Declamação-Encontro de Violeiros/as Repentistas e Poetas cordelistas – Alagoa Grande (PB), 2024
– Declamação – II Sarau de Lançamento integrado da FLIPB – Mulheres na Literatura paraibana – Online no YouTube, 2024
– Participação ao vivo no Jornal Bom dia Paraíba, 2024
– Reportagem no Bom Dia Paraíba, 2024
– Reportargem- PROGRAMA DIVERSIDADE/ Rede Ita, 2024
– VII Encontro Nacional Mulherio das Letras, 2024 – Belém – PA
– Gambiarra Poética – Itabaiana- PB, 2025
– Lançamento do Cordel coletivo Mulheres ACVPB – MAPP – Campina Grande –PB, 2025.
VÍDEOS:
MULHERES PARAIBANAS SE UNEM E FORMAM GRUPO DE CORDELISTAS

QUANTAS MAIS PRECISARÃO, NESTA VIDA, PADECER?
MARIA DAS POESIAS


Por BETH BALTAR









