O que dizer desse cheiro em meu corpo? Esse cheiro que tanto pedi para ter, que tanto desejei sem saber, sem nome, sem forma. Agora ele está aqui, impregnado em mim, grudado à minha pele como se fosse meu. Mas será meu? Tantos sentimentos me vêm, e todos se confundem: agonia e prazer, felicidade e esperança. Talvez. Algo nele me inquieta, como se revelasse um segredo que meu corpo conhece antes de mim.
Dizem que o olfato é o mais primitivo dos sentidos. Ele nos guia sem que percebamos, nos arrasta para lembranças que não escolhemos lembrar. Reconhecemos um filho pelo cheiro, nos apaixonamos por alguém sem saber que o nariz o escolheu primeiro. Mas também nos enganamos. Esse cheiro, agora, me envolve, me possui. É intuição ou armadilha? Ele desperta memórias que parecem minhas, mas talvez não sejam. O toque de um instante que já passou. A lembrança de um abraço que talvez nunca tenha existido. Um cheiro pode ser um aviso. Um cheiro pode ser uma cilada.
E, no entanto, há nele um conforto inexplicável. Um exalar inebriante que me envolve e me condiciona a você. Mas quem é você? Alguém que conheço ou alguém que inventei? Esse aroma – tão íntimo, tão meu – nasce do mundo ou de mim? É real ou é apenas o eco do que minha pele insiste em recordar?
Quando criança, assisti a um filme chamado *Perfume*, que contava a história de um rapaz que assassinava mulheres com uma motivação bem específica: ele extraía o aroma delas, retirava o perfume de cada canto de seus corpos e, a partir disso, desenvolvia uma fragrância única para cada uma. O enredo dos assassinatos, ao menos para mim, era secundário. O que realmente me tocava no filme (que, já adulta, descobri ser uma adaptação de um livro) era o poder do aroma, esse ser invisível e onipresente.
Naquela época, meu entendimento sobre o mundo era ainda muito instintivo, muito naturalista. Eu via o universo e o compreendia de maneira mais palpável do que intelectual, mais pelo que vivenciava do que pelo que assimilava de forma lógica. Antes de assistir a esse filme, eu achava que o sentido mais essencial da existência humana era a visão. Eu era jovem, sem muito conhecimento científico ou filosófico, e a visão me parecia algo absoluto, imediato. Ela se revelava sem esforço. Mas aquele filme me ensinou algo profundamente diferente: a potência dos outros sentidos, e sobretudo o olfato.
Descobri, então, que o olfato não é apenas o simples cheiro que sentimos. Ele é mais do que isso. Ele é imaterial e inconsciente, tão imanente em nós que nem sabemos quando estamos cheirando. O olfato, que antes eu pensava ser algo secundário, agora me parecia muito mais complexo, mais determinante, e, de fato, tão intrínseco à nossa existência que, de certa forma, ele predomina até sobre a visão, que eu considerava ser o mais importante dos sentidos.
No final do filme, o vilão, já descoberto como responsável pelas mortes, mistura os aromas extraídos das jovens e cria um único perfume. Ele, então, é condenado à forca, mas antes de ser executado, aplica a fragrância. A partir daí, o que acontece é quase uma experiência transcendental: ele vê, ou talvez sinta, a reação dos seus algozes. Todos eles, ao entrarem em contato com a mistura de cheiros, são tomados por uma paixão selvagem e irracional. Uma paixão tão intensa que desencadeia um furor coletivo, que leva à morte de todos, exceto do acusado. A racionalidade, essa grande responsável por nossos atos, é anulada pelo perfume criado por aquele homem.
Lembro nitidamente de como me fascinei com aquele filme, especialmente com o seu final, pois ele retratou lindamente o determinismo do nosso ser, o que nos define, o que nos move, o que, enfim, nos faz humanos. E tudo isso é desencadeado pelo que o nosso sentido olfativo sente e, mais ainda, por como o nosso cérebro interpreta esses estímulos. Nosso olfato é o que temos de mais instintivo; afinal, podemos fechar os olhos, mas não podemos desligar o olfato. Ele está ali, nos atravessando constantemente, sem que nos deem permissão.
Hoje, percebo a secundariedade da visão. O ser vivo, como algo complexo, não vê o que atravessa seus olhos, mas o que sua mente digere. E essa digestão vai muito além do que acontece ou não no mundo, ela é fruto do que sentimos, e o que sentimos não é voluntário. Claro, posso escolher sentir o cheiro do bolo recém-saído do forno ou das páginas do meu livro novo, mas eu não escolho me sentir em casa, confortável, segura, apenas com um abraço. Isso é fruto do que minha mente decifra a partir da experiência sensorial.
Nem tudo o que vemos é o que devemos ver. Às vezes, é o que devemos cheirar.
É curioso como esse insight veio apenas assistindo a um filme. Como eu amo o cinema. Como eu amo o cheiro do cinema! O cheiro do lugar onde tudo acontece, onde as memórias se entrelaçam e os sentidos se expandem.
Mas por que estou falando disso agora? Tanto tempo depois do filme? Ontem, um cheiro me despertou, e ele fez com que eu revivesse uma passionalidade intrínseca a esse instinto. Foi um aroma que me levou a questionar: por que aquele cheiro está no meu catálogo de memórias? E, mais ainda, até que ponto esse aroma ainda influencia a minha existência? Até onde outros cheiros, vindos de outras fontes, alteram a importância que dou a esse específico?
Será que esse cheiro é realmente importante, ou ele me remete a algo, ou alguém, que já se foi?
Por MARYANA SOBRAL ANTUNES
