COLUNA ÁGORA – Entrevista com Mauri de Castro

COLUNA ÁGORA – Entrevista com Mauri de Castro

 Olá, caro (a) leitor (a),

Nesta edição, a Coluna Ágora apresenta uma entrevista especial com Mauri de Castro — ator, diretor e compositor cuja trajetória é marcada pelo talento e reconhecimento. Ao longo de sua carreira, conquistou importantes premiações, como o prestigiado Prêmio Jaburu (2018), a mais alta honraria concedida pelo Governo de Goiás, e o título de Comendador do Estado do Tocantins. Soma ainda 6 prêmios de Melhor Ator e 3 de Melhor Diretor em festivais nacionais de teatro, consolidando sua relevância na cena cultural brasileira.

Atualmente, participa de quatro projetos de longa-metragem e dirige uma peça (monólogo) de sua autoria chamada “Sem Mais Porém”. Em Bogotá, este monólogo está sendo montada pelo Ator Carlos Araque, com o nome de “Final da Curva”. A peça discorre sobre a velhice. Também é autor de obras como “Sonata em mim menor”, “Balada para embalar agonias”, “Dobra do Absurdo”, Paradoxo (peça montada também em Angola), “Sozinho a Dois”,Sinfonia do Caos”, “Memória de um prego enferrujado”, e tantos outros títulos que já carregam no nome a poesia de sua existência.

Mauri é, sem dúvida, um artista que vive a arte como vocação e missão — criando, transformando e emocionando por onde passa.

Mauri de Castro – Um artista plural que vive pela arte.

Aproveite esta inspiradora conversa!

 

 

ENTREVISTA

 

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REVISTA THE BARD – Mauri de Castro, que alegria recebê-lo na Coluna Ágora! Hoje temos o privilégio de mergulhar em seu universo criativo e inspirar outros artistas a reconhecerem a força que carregam em si.

Seja muito bem-vindo!

MAURI DE CASTRO – Gratidão pela oportunidade e por tantas palavras generosas. Espero corresponder a expectativa. Tudo que sempre fiz, foi tentar honrar a profissão com que a Fonte Criadora me brindou nesta existência. Sempre considerei a Arte um terreno sagrado. E foi com ela, que construí os laços que ainda hoje me norteiam e dão sentido à minha vida. Cada fragmento de minha jornada, cada lágrima e cada risada, eram elementos que compunham a minha trajetória, a cantiga da minha estrada, capaz de tocar, não apenas a minha própria história, mas também a de todos aqueles que se deixassem envolver pela magia da Arte. Engraçado… Refletindo agora sobre a importância da Arte/Teatro na minha jornada de superação… aqui… agora… Meu coração pulsa como um tambor, ansioso para expor… não apenas histórias, mas lições… sim, porque a Arte te ensina lições que você não aprenderia em outra atividade. Para mim, a Arte é a batida do meu coração. Sem ela eu sou apenas um corpo vazio.

 

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REVISTA THE BARD – Mauri, como foi o seu despertar para a arte? Sua vocação surgiu ainda na infância ou foi algo que se revelou mais tarde, na adolescência? E como foi a receptividade da sua família, eles apoiaram esse sonho desde o início ou houve um processo de convencimento? 

MAURI DE CASTRO – Na minha pré-adolescência, com 10/11 anos, assisti a uma apresentação de circo na minha cidade. Fiquei maravilhado com tudo o que acontecia no picadeiro: os palhaços, os dramas, as mágicas. Foi um impacto tão grande, que, intuitivamente, fiz um “circo” no fundo do quintal da minha casa, debaixo de um pé de goiaba. Cobramos três palitos de fósforo sem riscar. Esse era o valor do ingresso. Ensaiei uns amigos e convidamos a família pra assisti. A apresentação não passou da primeira cena. Explico: a primeira cena era aquele velho número do palhaço que dá uma bofetada no outro, mas este agacha e a bofetada pega num terceiro que nada tem a ver com a história. Meu amigo esqueceu-se de desviar e a bofetada pegou em cheio seu rosto. Como ele era maior que eu, me jogou no chão e me deu várias bofetadas pra valer. A família, concluindo que estava muito real pra ser brincadeira de criança, acabou com a apresentação. Ainda apanhei do meu pai porque ele descobriu que a corda que eu usei pra fazer o trapézio, era o cabresto de prender seu cavalo (meu pai era carroceiro na cidade). Aos 14 anos fui convidado pra contar piadas no intervalo de um show de música. Levei uma vaia de umas 500 pessoas, porque estava muito ruim e o público queria ouvir a banda tocar.  

Minha família nunca concordou com essa minha vocação. Eu era o sétimo filho, o caçula, e não tinha direito de voz. Pra ir ao circo que chegava na cidade, tinha que ser escondido. Eu era engraxate e juntava dinheiro, só pra quando chegasse um circo, eu pudesse assistir. Nenhum parente, nem distante, tinha essa vocação. Quando não tinha circo, eu declamava poesia em sala de aula. Não existia televisão na minha cidade, especialmente pra classe média baixa.  Mas havia alguma coisa na minha alma que me puxava para o lado artístico, mesmo sem saber o que era “lado artístico”.

Bem depois, já tendo ido pro seminário ser padre (o que desisti depois de alguns anos), tendo servido o exército… Quando eu era jogador de futebol profissional, já em outra cidade, soube de uma oficina de teatro que seria ministrada por um ator/bailarino argentino chamado Fred Garcia. Me matriculei e fiz a oficina. Conclusão: me apaixonei tão completamente que nunca mais voltei para o centro de treinamento de futebol. Fui escolhido para ser ator de uma peça, dentro de um projeto (Teatro ao Encontro do Povo) do SESC de Anápolis, nas praças públicas. Devido ao personagem que eu fazia (um dedo-duro, informante da ditadura), recebi várias pedradas. Ou seja: saí da vaia para a pedrada. Era pra eu nunca mais ter subido num palco… mas… destino é destino, né? O Secretário de Cultura do Estado de Goiás da época me viu em cena e me convidou pra fazer parte de um grupo de 12 pessoas que passariam um ano no Teatro Guaíra, de Curitiba, fazendo cursos, pra assumir um Grande Teatro que estava sendo construído em Goiânia. E lá fui eu…

Ah, até hoje nenhum membro da minha família me viu no palco. Só comentam que faço parte dela quando me veem na televisão. Aí, sim: “aquele artista é meu irmão”…

 

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REVISTA THE BARD – Quais foram os artistas que te inspiraram a seguir esse caminho e acreditar que a o caminho da arte era, de fato, o caminho que você desejava seguir?  

MAURI DE CASTRO – Em Curitiba fui me inteirar sobre o que é ser artista… e conhecer os grandes nomes nacionais do teatro, do cinema e da TV. Vi Fernanda Montenegro, Antônio Fagundes, Stênio Garcia, Chico Anysio, Ronald Golias, Grande Otelo, e tantos outros… Sem saber que, alguns anos mais tarde, eu trabalharia com todos eles. E todos esses, sem dúvida me inspiraram e me ensinaram muito.

Sobre acreditar que a Arte era, de fato, o caminho que eu desejava seguir…. Sempre soube disso. Quando entrei em cena pela primeira vez, depois da oficina… Quando entrei em cena… ah… o meu coração disparou. Havia ali a sensação de estar exatamente onde eu deveria estar. Ali estava a confirmação de que eu fazia parte de algo maior… Uma missão de tocar o coração das pessoas através da arte.

A arte, pra mim, nunca foi passatempo ou fuga. Sempre foi minha sobrevivência… A minha maneira de respirar, quando o mundo se tornava pesado… Ou seja: quase sempre. Sem ela, eu não sei onde teria encontrado abrigo para minha dor. Cada nota que eu tocava no violão, cada verso que eu recitava, cada texto era uma viagem, uma libertação…

 

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REVISTA THE BARD – Você já atuou em mais de 100 espetáculos teatrais. O que reverbera na sua existência a cada novo personagem que interpreta?

MAURI DE CASTRO – Cada personagem que represento, e uso este verbo porque, tenho por mim, que o Ator/Atriz é advogado(a) de defesa do personagem e há que defendê-lo bem, para que o júri/plateia fique do seu lado, lembrando dele após sair do teatro. Todos os personagens que fiz, me ensinaram coisas: positivas e negativas, é claro. Já fiz mocinho, fiz mulher (fui premiado com uma delas), vilão (todo ator gosta de representar vilão) acho que já fiz quase todos os tipos de papéis no cinema/teatro/TV.

            De cada um, sempre fica uma lembrança porque, criar uma alma e dar corpo a ela, não é tarefa tão fácil. Quem pensa que representar um personagem é só decorar o texto, não sabe que, dar vida, significa preencher essa alma, com corpo, emoção, pensamentos, dignidade e todas as questões que envolve o seu lado psicológico, econômico, social, fisiológico… enfim…

Peter Brook, grande diretor inglês, dizia que “falar um texto qualquer idiota fala… a função do ator/atriz é deslindar o que está escondido entre as palavras”.

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REVISTA THE BARD – Das 84 peças que você dirigiu, qual delas mais te desafiou como diretor e por quê?

MAURI DE CASTRO – Várias delas, mas vou citar ABAPORU. Eu desenvolvi um projeto chamado “Literatura em Cena”, onde eu fazia adaptações dos principais movimentos literários brasileiros. O espetáculo Abaporu (quadro da Tarsila do Amaral, nomeado por Oswald de Andrade), foi particularmente difícil porque: era sobre o Movimento Antropofágico, de 1928, liderado por Oswald de Andrade. Os atores tinham pouco conhecimento sobre literatura e, para compreender o movimento em questão, eles tiveram, primeiro, que estudar sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, sobre o Movimento da Poesia Pau Brasil de 1924 pra entender de que se tratava o Movimento Antropofágico. Pedi também que se informassem sobre a Tropicália, inspirada na Antropofagia. E também, os mitos brasileiros, como Boitatá, Negrinho do Pastoreio, Anhangá, bem como das danças genuinamente brasileiras, como o jacundá, o cururu, a chula, o frevo…     Por que tudo isso? Porque em todos os espetáculos que monto, gosto de fazer um bate-papo com a plateia após a apresentação sobre os temas apresentados. Isso enriquece tanto o público como os atores.

 

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REVISTA THE BARD – “Anatomia do Caos – Reflexões de uma ameba High-Tech” é seu mais novo livro. Poderia compartilhar resumidamente uma dessas reflexões para que possamos ter uma ideia do que encontraremos no livro? 

MAURI DE CASTRO – A Ameba (que sou eu mesmo) fala sobre o caos no qual se encontra a humanidade. Neste livro eu ironizo a mim mesmo pra mostrar ao mundo a grandiosidade que ele desperdiça. Não me poupo, pegando a mim mesmo como exemplo da enfermidade do mundo. Este livro de poemas é fruto de um desafio poético que me foi proposto sobre os temas: desapego e desenvaidecimento.

 

ABISMO

Nunca entendi profundidades

O complexo sempre me foi dificultoso

Palavras e assuntos profundos

nunca me fizeram festa

minha simploricidade

cria abismos

entre mim

e o sofisticado

Se algo é bonito

só sei dizer que é bonito

Não aprendi criar metáforas

Dos poetas

sei mais lê-los

do que ser um deles

 

 

7

 

REVISTA THE BARD – Seus livros têm títulos fortes e poéticos como “Sonata em mim menor” e “Memória de um prego enferrujado”. Qual a relação entre esses títulos e os sentimentos que movem sua escrita?

MAURI DE CASTRO – Tudo que escrevo, tem a ver comigo. Perguntaram-me, certa vez: “Por que você escreve”? E eu respondi em “Sonata em mim menor”:

 

PORQUE ESCREVO

Não escrevo para concurso

Nem porque preciso

Não escrevo por impulso

Nem por estar vivo

Não escrevo porque sofro

Muito menos porque amo

Escrevo

porque

derramo

 

Esclarecimento: Geralmente, não utilizo pontuações. A única, é o ponto de interrogação, para o leitor não confundir pergunta com afirmação.

Sempre achei que a poesia é terapêutica. Disse isso em “Memória de um Prego Enferrujado”:

 

TERAPIA

Como o rio busca o mar

a alma busca poesia pra se elevar

Não tem contraindicação

nem efeito colateral

A alma precisa da poesia

como o mar do sal

Mesmo a alma 

mais rude e descortês 

necessita da poesia 

pra curar-se de estupidez

Tome ao menos uma vez ao dia

gotas de Quintana 

de Drummond

de Bandeira 

João Cabral 

Pessoa

que a alma há muito doente 

não demora fica boa

E lembre-se 

para se libertar

do mal que lhe atravanca

quem toma Florbela 

seus males Espanca! 

 

 

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REVISTA THE BARD – Você participou de mais de 30 filmes, sendo 13 longas. Como a linguagem do cinema dialoga com a sua formação teatral? Existe um dos dois que fala mais alto dentro de você?

MAURI DE CASTRO – No primeiro filme de que participei (“Índia, a filha do Sol”, de Fábio Barreto, com Glória Pires e Nuno Leão Maia, em 1982), tive muita dificuldade em adequar a intepretação… porque no teatro, quem se dilata é o Ator com movimentos, falas e expressões. No Cinema e TV, o que te faz crescer é o zoom da câmera. Até meu quinto filme, foi essa dificuldade. Tudo que eu fazia parecia teatral demais, segundo os diretores. Aprendi muito com Antônio Fagundes, generoso e disciplinado companheiro de cena de dois filmes (No Coração dos Deuses e O Tronco – ambos, disponíveis no YouTube). Aprendi que a diferença entre Teatro e Cinema está em dosar a intensidade da interpretação. Sou da época em que se apresentava num teatro, para duas mil pessoas, sem microfone… como o Teatro Guaíra, de Curitiba e o Teatro Rio Vermelho, de Goiânia.

Durante muito tempo, a minha grande paixão foi o Teatro, por causa da troca de energia com a planteia que é instantânea e direta. Essa experiência é única. Mas o Cinema tem uma vantagem em relação ao Teatro que é o fato de você fazer o seu trabalho uma vez… e não ter que estar presente para que ele seja visto no mundo inteiro. Já no Teatro, a presença é sine-qua-non. Amo os dois.

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REVISTA THE BARD – Com 4 projetos em andamento, como você se prepara para dar conta de tudo? E quais fatores te influenciam na hora de aceitar um desafio, como por exemplo, atuar num longa-metragem? 

MAURI DE CASTRO – Você disse bem: DESAFIO. No momento (junho de 2025), estou envolvido com 4 longas, sendo o primeiro já em andamento: “São Miguel Arcanjo: Santuário de Batalha”, de Tiago Benetti, onde interpreto Giácomo, um pesquisador ancião. Já na primeira semana de julho estarei em “Quando ao Norte é Verão”, de Dostoiewski Champangnatte, onde faço o protagonista Aldino. Em Agosto, em “As Aventuras do Capitão Fralda”, de Rony Guilherme Deus, interpreto Dr. Ronaldo. Este filme é inspirado numa história real. Em setembro estarei no Set, interpretando o Coronel Belarmino, no filme “Serra do Fogo”, de Júlio Quinan.

No meio disso tudo, nos dias folga, estarei no palco com as palestras: “Várias Faces do Humor” e “O Teatro como Instrumento de Transformação”.  E o grande fator que me influencia para todos esses trabalhos, é a paixão, o amor que tenho pela minha profissão.

 

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REVISTA THE BARD – Com mais de 80 composições musicais e 6 CDs lançados, é fato que você tem vasta experiência e uma mente extremamente criativa. Sendo assim, qual sua opinião sobre o uso de Inteligência Artificial na produção e composição de melodias e letras?

MAURI DE CASTRO – A IA chegou pra ficar. Isso é incontestável. O fato, é que ela oferece benefícios para todas as áreas. No caso da música, beneficia na produção, na criação musical, na composição, nos processos técnicos. Agora, o que não deve, é conferir a ela, a responsabilidade de fazer por você. Há que ter bom senso na utilização da IA. Mesmo assim, tenho certeza, de que, em breve, estaremos elogiando um compositor, sem que ele tenha mérito na autoria.

 

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REVISTA THE BARD – Você foi premiado, com o Troféu Tiokô, o Prêmio Jaburu, o Prêmio Buritis, além de seis prêmios de Melhor Ator e três de Melhor Diretor em festivais nacionais. Esses reconhecimentos revelam mais sobre sua habilidade artística ou sobre a alma que habita o artista?

MAURI DE CASTRO – Acredito que a habilidade artística faça parte da alma do homem. Não dá para separar uma coisa da outra, penso. Há muito trabalho por trás disso tudo. Muita disciplina. Eu sou extremamente focado e disciplinado… trabalhador. Por isso, para mim, o Teatro sempre foi desgastante porque eu ensaio até à exaustão… de manhã, a tarde, a noite, sozinho ou com o grupo. Não me descuido porque tenho um respeito sagrado pela pessoa que sai de casa pra me ver.

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REVISTA THE BARD – Sua trajetória revela um forte compromisso social, presente nas peças teatrais com temas como a relação entre pais e filhos ou os direitos dos idosos, em projetos como “Na Rua, as Crianças e as Artes Cênicas” e na palestra “O Teatro como Instrumento de Transformação Social”. O que te motiva a unir arte e ativismo? E como você percebe o poder da arte para transformar realidades?

MAURI DE CASTRO – Vou começar pela última questão. A arte tem um enorme poder de transformação. No caso do Teatro começa na Grécia com as tragédias. Aristóteles disse: “O Teatro tem o poder de libertação”! Foi por constatar isso, que ele criou o conceito filosófico de catarse. Temos vários exemplos de transformação, não só individual como coletivo, através do Teatro. Senão, vejamos: Okuni, a Bailarina/Atriz/Cantora (Precursora do Teatro Musical Moderno e criadora do Teatro Popular do Japão – KABUKI), através do teatro acolheu moças expulsas de suas famílias e ao ensinar a cantar, interpretar e dançar, deu autonomia e dignidade a elas. Sokolova, na Rússia, através do Teatro, alfabetizou mulheres de 35 aldeias, formou o primeiro grupo de Teatro Camponês da história e ensinou a igualdade entre homens e mulheres, tudo isso utilizando o Teatro como instrumento. E o que dizer de Piscator, Brecht que utilizaram o teatro como manifesto político e conscientização social, na Alemanha? J. L. Moreno, em 1921, criou em Viena o Grupo de Teatro da Espontaneidade, que mais tarde se tornou no Psicodrama, que é a utilização do Teatro tanto no diagnóstico como no tratamento de questões psíquicas. O próprio Hamlet, de Shakespeare utiliza o teatro como instrumento de investigação sobre a morte do seu pai, o rei. E vou parar por aqui, porque isso é objeto de estudo pra um livro, que pretendo escrever. Eu mesmo apresentei em 250 bairros de Goiânia, levando espetáculos discutindo questões sociais e os relatos são impressionantes. Mas não dá pra fazê-los aqui. O projeto citado: “Na Rua, as Crianças e as Artes Cênica” foi desenvolvido em Palma – TO. Foram 3 anos de projeto, para mais de 2 mil crianças e adolescentes, utilizando as técnicas do teatro para o desenvolvimento do potencial criativo.

Desde que comecei a dirigir espetáculos, quis unir Arte com Pedagogia. O resultado é mágico. A utilização da Arte, no meu caso, o Teatro, como instigador da reflexão social é impressionante. Tenho relatos de vários anos de investigação e estudos neste campo. Desenvolvi projetos em 30 cidades do sertão do Tocantins, formando grupos, incentivando a criatividade, repassando noções de comunicação, corporal, visual, verbal, energética, montando peças pequenas e pedagógicas, finalizando com um grande festival de teatro em Miracema do Norte, com a participação de todas essas 30 cidade do Tocantins.

Cito também, o projeto “Cidade Livre”, em Aparecida de Goiânia, onde trabalhei 17 anos, como voluntário, formando um grupo de pessoas e construindo um Teatro de Bolso, com dinheiro próprio. Desde 2004 oferecemos oficinas de formação em várias atividades, como dança, teatro, música, além de apresentar todos os fins de semana para a comunidade, de graça, até culminar na Mostra de Teatro Social Latino Americano, já na sétima edição, e, sempre, com grupos de vários países, como Equador, Colômbia, Chile, Argentina, Bolívia, México e Uruguai. Tudo isso, no fundo de um quintal.

 

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REVISTA THE BARD – E para finalizarmos, poderia deixar uma mensagem para os leitores da Coluna Ágora?

MAURI DE CASTRO – Em primeiro lugar, gostaria de externar minha eterna e infinita gratidão a todos da revista, por essa generosidade de me permitir falar sobre a Arte Popular e Pedagógica, realizada no interior do nosso país. Sempre digo que eu sou todos que me trouxeram até aqui: desde meus ancestrais propriamente ditos, como os meus ancestrais do Teatro, que são os diretores, pedagogos e autores dos livros que me formaram. E sinto que todos eles me impulsionam para este trabalho que provoca mudanças individuais e coletivas através da Arte. Afinal, a Arte cura… a Arte eleva e harmoniza a frequência vibratória do sistema de quatro corpos de cada um: físico, eletrônico/áurico, emocional e mental. Gratidão, gratidão e gratidão. Sejam todos felizes e prósperos.

Há alguns anos fui diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Isso me fez compreender meu comportamento durante a vida e a reação das pessoas em relação a mim. Por isso, sempre digo que o Teatro me salvou. Me ajudou a superar minhas dificuldades de comunicação, especialmente a visual. Sobre isso, tenho um poema no meu último livro “Anatomia do Caos” – Reflexões de uma Ameba High-Tech:

 

 

PERFIL

Restrito         

De fase

Escassa comunicação social

 Rotineiro

Praticante da esquivança

Talento pra estar só

Um tanto antissociável

Ingênuo

Literal

Minimalista

Cada coisa em seu lugar

Rituais cotidianos

Pontualidade

Literatura e Arte:

habilidade e salvação 

Detalhista

AU(R)TISTA 

 

Obrigada, Mauri, por compartilhar um pouco da sua história com a Coluna Ágora e com todos os nossos leitores. E com a poesia de Mauri de Castro, nesta inspiradora entrevista, celebramos a arte!

LIVRO – MAURI DE CASTRO

 

Por MIA KODA

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