COLUNA ÁGORA – Entrevista com Débora Lima

COLUNA ÁGORA – Entrevista com Débora Lima

Olá, caro (a) leitor (a),

Nesta edição, a Coluna Ágora traz uma entrevista especial com Débora Lima, uma artista que ilumina a cena cultural e intelectual do Brasil com rara intensidade. Natural de Vitória de Santo Antão (PE), ela é uma mulher plural: especialista em Direito Público, licenciada em Letras, Conciliadora do Tribunal de Justiça de Pernambuco, professora, escritora consagrada com 10 livros publicados e presença marcante em diversas antologias literárias. Mas sua arte não se limita às palavras, também se expressa pelas cores e formas, sendo uma talentosa artista plástica.

Débora integra o corpo de membros da Academia de Letras, Artes e Ciência de Vitória de Santo Antão (AVLAC) e do Instituto Histórico e Geográfico da cidade, demonstrando seu compromisso com a preservação da memória e valorização do saber. Sua atuação se estende como revisora do projeto “Chá da Vida” e redatora da revista “Armazém na Estrada”, fortalecendo o diálogo entre arte, cultura e sociedade.

Pelo conjunto de sua obra e contribuições, Débora Lima foi agraciada com o título de comendadora, um reconhecimento merecido por sua trajetória inspiradora, que une sensibilidade artística, rigor intelectual e compromisso comunitário.

Aproveite esta inspiradora conversa!

Débora Lima – Entre livros e telas, uma voz que não se cala

 

 

DÉBORA LIMA, natural de Vitória de Santo Antão (PE), ela é uma mulher plural: especialista em Direito Público, licenciada em Letras, Conciliadora do Tribunal de Justiça de Pernambuco, professora, escritora consagrada com 10 livros publicados e presença marcante em diversas antologias literárias.

 

 

ENTREVISTA

 

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REVISTA THE BARD – Débora, sua trajetória inspira pela autenticidade e beleza com que transita entre a literatura, a arte e a atuação social. Hoje, temos o privilégio de mergulhar no seu universo criativo e celebrar a força transformadora da sua expressão.

Seja muito bem-vinda!

DÉBORA LIMA – Obrigada, é uma honra poder compartilhar um pouco da minha histórica como artista com os leitores de uma revista tão relevante no cenário mundial, principalmente porque a partir de uma coluna que trata do mais requintado produto da alma humana: a arte. A meu ver, todo trabalho a serviço da beleza (a forma que confere à obra o estatuto de arte, nas palavras de Adélia Prado), é um trabalho heroico, pois “A arte existe para consolar os que são quebrados pela vida – Van Gogh”.

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REVISTA THE BARD – Débora, como era a menina que você foi? Que sonhos, curiosidades ou inquietações já moravam em você na infância?

DÉBORA LIMA – Considerando minhas circunstâncias (família disfuncional e pobreza, em dados momentos, extrema), a princípio, sonhava em me sentir bem em casa, em ter uma cama (houve tempo em que eu dormia num colchão no chão), em ganhar brinquedos de presente no natal e não precisar mais sentir medo de passar fome. Depois, já perto da adolescência, quando meu pai conseguiu um trabalho mais estável, passei a sonhar em ser escritora, pois “pintora” eu já era, desde que aprendi a segurar os lápis. Eu queria ser, para outras pessoas, uma voz de consolo, de conforto, um refúgio, enfim, como o que encontrei nos livros da biblioteca da escola, na época mais difícil da minha vida.

 

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REVISTA THE BARD – Imagino que a escrita e a pintura exigem silêncios diferentes. Como é o seu processo criativo em cada uma dessas linguagens?

DÉBORA LIMA – Que linda colocação, mas para ser sincera em minha resposta, a verdade é que escrever e pintar, na minha condição, não exige, promove esses silêncios.

Minha mente vive em constante ruído: preciso lidar constantemente com pensamentos intrusivos, canções que não consigo pausar, preocupações e demandas outras que furtam meu sono e, por conseguinte, minha alegria… Então, quando estou mentalmente exausta, vou pintar, inclusive, muitas vezes, durante a madrugada. E é quando consigo me esvaziar e, em silêncio, minha mente descansa, é um silêncio de água parada, é o silêncio de dentro.

Por outro lado, quando, mergulho no caos de todas essas ideias que me sobrevêm e, como que por um milagre, consigo resgatar algumas e colocá-las em ordem: escrevo. E quando escrevo, silencio o mundo ao meu redor, enquanto, por dentro, estou em polvorosa, atenta às informações das mil abas abertas dentro da minha cabeça para, quem sabe, buscar citações, memórias, histórias que possam enriquecer meu texto de modo a torná-lo significativo e belo. É um silêncio de paisagem bucólica, como se tudo ao meu redor fosse plasmado numa tela.

 

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REVISTA THE BARD – Como você descreveria o seu estilo artístico nas artes plásticas? Há temas ou símbolos que se repetem nas suas obras?

DÉBORA LIMA – Embora eu não me filie a qualquer escola, tenho profunda admiração pelo impressionismo. Admiro Renoir, por exemplo, pelo aspecto onírico que reproduz, quando tenta captar o cotidiano como que se visto de relance ou através de raios solares tão densos que desvanecem a imagem por detrás. Além disso, como o advento da fotografia veio retratar, de imediato e com extrema precisão, o que um pintor realista levaria meses para conseguir captar, o impressionismo encanta justamente pela maneira como as manchas se dispõem sobre a tela: ao mesmo tempo em que, de perto, parece que estamos diante de um borrão, ao nos distanciarmos, a imagem vai se tornando mais nítida, comunicando ordem à razão, como se fosse mágica. Por isso, gosto das pinceladas livres do impressionismo, mas também amo a vivacidade das cores do fauvismo e, com um pouco de cada, vou tecendo os encantos do meu próprio mundo de cores.

Quanto aos temas, embora eu pinte tudo que capta a atenção do meu olhar ou do meu pensamento, a arte dança com o inconsciente, de modo que, inevitavelmente, o que mais amamos ou o que mais nos fere é o que aparece mais reiteradamente, de modo que flores, autorretratos e meu gato-poeta, Olavo Bilac, são bem recorrentes nas minhas criações.

 

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REVISTA THE BARD – Você tem 10 livros publicados e diversas participações em antologias. Quais escritores(as) te influenciaram ou marcaram sua trajetória? Você busca referências em autores clássicos, contemporâneos ou populares?

DÉBORA LIMA – São muitos os autores que me marcaram, cada um a seu tempo; cada qual a seu modo. Dos clássicos, como Antígona de Sófocles e a Odisseia de Homero (que me ajudaram a entender melhor sobre os arquétipos humanos, sobre o porquê do respeito ao cumprimento de um papel dentro de uma ordem cósmica era algo tão importante para os gregos e como isso acabou influenciando a psicologia moderna). Aos modernos e contemporâneos, que, seguindo o fluxo histórico de reafirmar ou desconstruir os valores assentados pelos clássicos, numa verdadeira dialética hegeliana, foram enriquecendo minha experiência com a literatura enquanto modulavam meu imaginário. Dentre eles: Shakespeare, Adélia Prado, Machado de Assis e Nelson Rodrigues…

Durante a minha adolescência, fui ferida de amor pelos poemas de Vinícius de Morais: o ritmo, o erotismo, que inclina à contemplação (o que distingue o erótico do pornográfico, pois este compele à ação) em versos como: “essa mulher que a cada amor proclama a miséria e grandeza de quem ama/ E guarda a marca dos meus dentes nela” provocavam um verdadeiro deslumbramento em mim.

Ou a curiosidade obstinada da pequena leitora de Felicidade clandestina (Clarice Lispector): “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.”  A poesia multifacetada de Fernando Pessoa, que, para cada heterônimo desenvolveu um estilo diferente (do classicismo ao pessimismo existencialista e ao experimentalismo linguístico), que implica personalidades diferentes, revelando que, como ele bem defendia (ou não, pois o poeta é um fingidor), cada um de nós tem, ou, ao menos, pode ter muitas almas…

E mesmo os versos populares de autores como Patativa do Assaré ou Jessier Quirino, que tão precisamente traduzem a beleza e a riqueza da cultura e sabedoria do povo nordestino. Enfim, tudo isso fez com que minha alma se tornasse uma verdadeira dependente da literatura. Como o corpo precisa de água para viver.

Depois, vieram as leituras mais densas, que me ajudaram a compreender como a condição humana é complexa, de modo que as ações dos humanos não refletem apenas um aspecto da existência (Por exemplo, em O mercador de Veneza, encontramos um personagem capaz de dar como garantia de uma dívida parte de seu coração, para salvar um amigo em dificuldade, enquanto esse mesmo homem piedoso para com seu amigo, era também cruel em suas palavras contra um outro personagem, simplesmente por ser este de outra etnia. O que nos permite entender que os mesmos seres que são capazes de criar campos de concentração, podem ser caridosos com animais, bons cônjuges, bons amigos… De modo que precisamos estar sempre alertas quando o assunto for a banalização da maldade, uma vez que ela não está reservada a um tipo raro de pessoas) ou como das muitas criações humanas (inclusive o Direito, que se propõe a ser o orquestrador de uma harmonia social), na verdade, são mantenedoras de instituições que se agarram ao poder a custo de sangue, suor e lágrimas, enquanto apresentam um discurso banhado a palavras de ordem como: democracia, dignidade da pessoa humana, mínimo existencial e, a mais manipulada de todas: igualdade. Isso porque tudo que decorre do ser humano é complexo.

Então, já não citando os autores, mas as obras, a fim de consigná-las como indicação de leitura, como Germinal, Crime e castigo, Os demônios, Guerra e paz, Notas do subsolo, Vidas secas etc, foram muitos os livros que não só marcaram minha trajetória, como me ajudaram a compreender um pouco melhor a vida.

 

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REVISTA THE BARD – Débora, em seu mais recente livro, intitulado “Nomes para quê”, você já provoca o leitor logo no título, convidando-o a refletir sobre o valor e o sentido das palavras. O que despertou essa pergunta em você? E de que maneira essa pergunta atravessa toda a obra? Há alguma passagem, capítulo ou texto de “Nomes para quê” que você sente como o coração da obra? Poderia compartilhar conosco?

DÉBORA LIMA – Pensamos por palavras e por imagens, mas os pensamentos mais bem elaborados, aqueles que demandam maior esforço da inteligência, são elaborados por meio das palavras. Mas, infelizmente, a perda do hábito da leitura, da reflexão filosófica, da contemplação da arte, e tudo quanto costumamos chamar de cultivo da mente ou cultura, tem promovido uma verdadeira restrição da linguagem, o que resulta, inclusive, na diminuição da inteligência.

Como bem pontuou Mário Vieira de Melo em “O conceito de educação da cultura”, o número de iletrados no Brasil tem aumentado à medida que aumenta o número de alfabetizados. Lamentavelmente, o acesso à educação não tem significado formação intelectual sólida. De modo que, segundo a pesquisa apresentada na obra, proporcionalmente, há hoje, menos leitores de Machado de Assis e Guimarães Rosa do que em 1960, quando o índice de analfabetismo no país era muito mais alarmante.

Então, a ideia por trás de “Nomes para quê” é justamente a de demonstrar como a palavra é poderosa. É ser livro composto por contos tão envolventes, marcantes e reflexivos, que os nomes dos personagens nem precisam ser apresentados neles, pois, cada um deles, em sua grandeza e miséria, em sua alegria e dor, é o próprio leitor, e todo drama que o espetáculo da vida envolve. Como no trecho a seguir, que pode ser considerado uma síntese da obra, e faz parte da história “Musa bardo”, em que uma mulher de meia idade tenta se reinventar para ajudar seu marido escritor que está deprimido ao mesmo tempo em que resolve não se render às pressões de um mundo que, para que uma mulher se sinta atraente e bonita, exige uma aparência sempre jovem:

“Resolveu naquele dia que não pintaria mais os cabelos, decidiu que envelheceria naturalmente, como cada erva daninha no campo, cada fungo, cada peixe-demônio nos abismos dos oceanos. Continuaria cumprindo seu papel na natureza, seguiria criando os filhos feios que tivera de um amor antes boêmio, que ia se acomodando com o tempo à forma burguesa que lhe dera. Era como se a poesia da existência já não fosse um sol, mas uma luz azul levemente bruxuleante, tênue, porém necessária à pulsação.

Mas aquela poesia real era a que mais marcas lhe trouxera, era a poesia que feria, a poesia que era fera. Não exatamente por ela, mas por aquele que se singularizara a ponto de transferir-lhe as angústias:

Seu marido, que era poeta, se sentia frustrado, a angústia dos homens ocos de T. S. Eliot há muito o alcançara. No fundo, era um refém da poesia e do sentimento moderno de desconcerto, de estranheza e desencantamento de um mundo expurgado de Deus, da metafísica, da essência humana, um mundo onde só restara a alguns: vontade de potência, a outros, os consolos efêmeros do consumo. Um mundo sem sentido, onde cada um não passa daquilo que faz de si mesmo, em tensão com tudo o quanto as circunstâncias lhe fazem.

Embora ainda alguma satisfação houvesse em sentir a inspiração surgir entre os escombros de uma mente abarrotada, não conseguia evitar desapontar-se por não ter leitores, por não encontrar, dentre seus pares, pessoas que ainda amassem essa sutil prova da existência da alma humana. Já não era de versos que os homens sentiam fome, já não era na beleza que buscavam os meios para preencher o vazio da vida cotidiana, viviam anestesiados pelas imagens dos corpos cada vez mais irreais, pelos vapores do álcool, pelos vapores do medo, pela falta de propósito. E o seu homem, seu poeta, que não era capaz de dar ao mundo qualquer coisa além de versos, sentia-se inútil.

Ainda assim, ela sabia que seu companheiro de anos acreditava que, como diria Frankl, “Se você vive correta e integralmente poderá encontrar um significado tão profundo que o protegerá até mesmo do medo da morte.” Pelo que, embora desanimado, não estava abatido. Sabia que a solidão é como um cão, um companheiro inseparável, mas que deve ser mantido do lado de dentro da casa ou as pessoas que tornam, do lado de fora, a vida possível, seriam seu banquete noturno e, passada a noite, só ele restaria, rondando cada espaço em qualquer dos lados (…).

 

7

REVISTA THE BARD – Já te ouvi cantar e encantar… A música também parece atravessar sua sensibilidade artística com delicadeza e força. Qual o papel da música na sua vida? Ela te inspira, te acompanha enquanto escreve ou pinta, ou é uma forma de expressão que acalma seu coração?

DÉBORA LIMA – Ah, obrigada, estou encantada com sua gentileza e sensibilidade. O papel da música na minha vida é de protagonista, tanto me inspirando, quanto acalmando, inclusive, só durmo ao som de Bach ou dos noturnos de Chopin. Mas a música, quando é boa, não só me acalma, como também me alegra e me acompanha enquanto executo minhas criações.

Meu pai sempre gostou muito de música e, quando eu era muito pequena, me contou que, para conquistar minha mãe, gravou numa fita cassete a música: Wish you were here, do Pink Floyd e eu, que já amava a canção, pois ele também a cantava para mim, passei a tê-la como a mola propulsora e a trilha sonora da minha existência. A música fala sobre saudade e sentimento de desconforto e descontentamento com o mundo, além de ter uma linda melodia, não poderia me traduzir melhor. No mais, como já é de senso comum, a música sempre acompanhou a humanidade como expressão de culto, de alegria, de sentimento de pertencimento, uma vez que também é manifestação cultural. Por isso, também gosto muito da música da minha terra, principalmente, forró pé de serra. E, claro, amo cantar.

 

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REVISTA THE BARD – Débora, ser mulher, profissional, escritora, artista plástica, revisora e ainda manter vínculos com a família e com a própria interioridade, exige equilíbrio e presença. Como você organiza sua rotina para cultivar a arte no meio de tantas demandas? Há um segredo, um ritual ou uma filosofia que te guia nesse conciliar?

DÉBORA LIMA – O segredo é a alegria em realizar, algo que Spinoza chamaria de potência de agir. Nietzsche dizia “Demore o tempo que for para decidir o que você quer da vida, e depois que decidir, não recue ante nenhum pretexto, porque o mundo tentará te dissuadir.” E eu realmente acredito que esta é minha sina: fazer tudo isso, pois me encanta, embora haja muitos desafios, além do cansaço.

E é justamente aí que entra a filosofia, pois, ainda Nietzsche: “Quem tem um porquê para viver, suporta quase qualquer como” e eu acredito que faço parte de algo maior do que eu mesma e que tenho um dever para com o próximo. Às vezes, diante da indiferença ou do mal que há no mundo, fraquejo e penso em fazer nada além do mínimo para minha preservação e dos meus filhos, mas lembro do bem que recebi de outros, lembro de como a literatura, a arte como um todo, teve um papel crucial para o meu próprio resgate e, então, compreendo que preciso pavimentar o caminho para outras pessoas. Por isso, continuo.

E, por fim, o ritual: pintar na (ou perto da) cozinha, pois enquanto espalho a tinta e faço marcações, fico de olho no feijão.

 

9

REVISTA THE BARD – Participar de projetos como o Chá da Vida e escrever para a revista Armazém na Estrada te convida a um olhar mais coletivo. Como isso lhe completa como ser humano?

DÉBORA LIMA – O simples fato de estar num mundo construído por outros implica esse sentimento, esse olhar coletivo. Se hoje conseguimos partir de um ideal de acolhimento, empatia e respeito às diferenças, é porque outros lutaram, sofreram, escreveram, deram seu sangue para que pudéssemos fazer a nossa voz ser ouvida. Por isso, esses projetos citados, e outros, como meu trabalho com mediação ou com educação, que me colocam em contato direto com pessoas, agregam mais tijolos na casa em eterna edificação que sou, simplesmente porque o humano só se aperfeiçoa em contato com o humano, numa legítima relação dialógica “eu-tu”, reconhecedora da humanidade do outro e que, como diria Martin Buber, se opõe a uma relação “eu-isso”, que é a instrumentalização das relações sociais.

 

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REVISTA THE BARD – Que papel você acredita que as academias literárias e os institutos históricos desempenham na preservação da identidade cultural local?

DÉBORA LIMA – O papel de guardiões da memória, da identidade e da tradição (a fé viva dos mortos, segundo Eliot). Precisamos conhecer nossa história, pois, nas palavras de Burk, “aquele que não conhece sua história, tende a repeti-la” precisamos estar a par dos males do passado, pois não podem ser reproduzidos. Assim como também dos feitos heroicos que geram admiração e nos inspiram a melhorar e até amar nossa comunidade, pois só o amor nos torna capazes de fazer mais do que fazemos por obrigação. E não somos capazes de amar àquilo que não conhecemos. De modo que, para amar aquilo que é nosso, precisamos ir mais fundo no conhecimento do que foi feito pelos nossos e os institutos históricos, as academias de letras, os museus, enfim, nos dão o aporte necessário para a modulação dos nossos sentimentos em favor da nossa comunidade, do nosso lugar de pertencimento.

 

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REVISTA THE BARD – Como você enxerga o cenário atual da literatura e da arte no Brasil, especialmente para artistas mulheres do interior?

DÉBORA LIMA – Superficialmente falando, não vejo com como gostaria, uma vez que, dado  facilitado acesso à informação, por meio, por exemplo, da disponibilização de obras escritas que já estão sob domínio público, da existência de revistas como a The Bard que veiculam, com ampla circulação, conteúdos de qualidade sem fins lucrativos e mesmo à democratização da educação, que se seguiu à promulgação da CF/88, por meio, por exemplo, da reforma no ensino superior, do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública e da promulgação da LDB, percebo que o interesse pela leitura poderia ser muito mais expressivo. Outros problemas como a massificação da informação, a pobreza extrema, a grande diferença econômica entre as macrorregiões do país também influenciam negativamente esse cenário.

Quanto às mulheres, embora a dificuldade de acesso a manifestações artísticas e a condições de produção cultural seja algo que afeta a qualquer pessoa em condição de vulnerabilidade social, as mulheres têm que lidar com demandas de outras dimensões de sua condição. Eu, por exemplo (estendendo o assunto à questão da educação formal) precisei trancar um mestrado porque meu filho mais novo, que é neurodivergente, demandava atenção, e, justamente por morar numa cidade do interior, não consegui conciliar os estudos ao trabalhado dentro e fora de casa. E o fiz por entender que ele, uma vida humana em desenvolvimento, deveria ser minha prioridade no momento. Mas, por melhor que meu marido seja, sua condição social e biológica não exigiu tal atitude, embora tenha exigido seus próprios sacrifícios.

 

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REVISTA THE BARD – E para finalizarmos, poderia deixar uma mensagem para os leitores da Coluna Ágora?

DÉBORA LIMA – Continuem lendo, contemplando obras de arte, buscando atrair a poesia para perto. Sigam lendo pessoas (não os textos sem sentimentos produzidos por inteligência artificial), a leitura eleva nossa consciência, nos ensina sobre o outro, sobre o mundo, o que nos faz mais empáticos, mais generosos, enfim, mais irmãos. E a arte nos confere o sentimento de estar inteiros, pois na vida fragmentada que levamos, temos perdido o sentimento de continuidade e isso nos fere, mas a obra de arte, nos ensinou Adélia Prado, por estar inteira, segura, aprisiona o tempo para nós.

Com esta entrevista, celebramos Débora Lima, mulher cuja trajetória é testemunho vivo de que a arte é presença, escuta e transformação.

 

LIVRO DA AUTORA – DÉBORA LIMA

Sinopse do Livro

“Nomes para quê?” É um livro de contos formado por histórias tão envolventes, marcantes e reflexivas, que os nomes dos personagens nem precisam ser apresentados, pois eles, em sua grandeza e miséria, em sua alegria e dor, são os leitores todo drama que o espetáculo da vida envolve. Nesta obra, a verve literária de Débora Lima se revela pungente, de modo que, como toda a verdadeira arte: a obra consola, conforta e também confronta com nossas próprias atitudes e valores diante da vida, diante do outro.

Por MIA KODA

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