PROSA POÉTICA – A Prosa Poética Edição Set/Out 2025

PROSA POÉTICA – A Prosa Poética Edição Set/Out 2025

Há uma escrita que não se conforma. Que não pede licença nem se curva à norma. Quando uma mulher escreve com o corpo, o texto não nasce da cabeça, mas das entranhas. Não obedece ao parágrafo bem comportado, à frase simétrica, à pontuação que acorrenta. Essa escrita se enrosca, hesita, explode. Faz do desequilíbrio o seu eixo. Do abismo, um caminho.

A prosa poética, em mãos femininas, é menos um gênero e mais um gesto. Gesto de quem rasga as costuras da linguagem para respirar. Para algumas, como Rupi Kaur, escrever é bordar a dor em superfície visível. Palavras mínimas. Feridas abertas. A gramática ali é do sangue, do toque, da memória do corpo.

Em Conceição Evaristo, o que escorre da caneta é escrevivência. Uma vida que não se escreve apenas com lembrança, mas com resistência. O texto se faz em espiral, atravessando gerações. É corpo ancestral, ferida coletiva, mas também dança que rompe o chão. Sua prosa poética não deseja explicar: ela exige sentir.

Chimamanda, por outro viés, revela o poder da voz que se recusa a ser moldada. Ainda que não escreva em prosa poética em seu formato clássico, sua escrita carrega o mesmo fogo: de tornar visível o que se tentou apagar. Sua palavra é denúncia, mas também ternura. Porque escrever com o corpo não é apenas gritar, é também tocar, acolher, amar o que foi negado.

A mulher que escreve com o corpo não obedece. Ela conjura. Transforma dor em beleza, silêncio em imagem, violência em verbo. E a prosa poética, nesse sentido, é sua dança livre, sem trilho, sem rédea, sem destino fixo. Ela não pede o fim da frase. Ela aceita a pausa, o tropeço, a palavra inventada.

Talvez escrever assim seja, no fundo, um ato de fé. Não na linguagem, mas no que vibra por trás dela. Um gesto que diz: existo, mesmo quando não sei dizer.

 

 

Sim

Clarice Lispector

 

Eu disse a uma amiga:

– A vida sempre superexigiu de mim.

Ela disse:

– Mas lembre-se de que você também superexige da vida.

 

Por JEANE TERTULIANO

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