
Do coração do Brasil às riquezas culturais do mundo: uma conversa com o historiador, escritor e poeta THIAGO FRAGATA
Thiago Fragata Historiador, professor, poeta, nasceu na histórica São Cristóvão/SE num dia do século XX. Licenciado na Universidade Federal de Sergipe (2000). É professor da Secretária de Educação do Estado de Sergipe. Além da vasta produção científica milita no campo da literatura enquanto poeta. Assumiu cargo de Diretor de Cultura de São Cristóvão, condição que participou da equipe de resgate do Carnaval e do Festival de Arte de São Cristóvão, em 2005. Único sergipano premiado no Concurso de Redação para Professores promovido pela Academia Brasileira de Letras e Folha Dirigida (2003). Sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGS). Foi presidente da Associação de Cultura Artística de São Cristóvão (gestão 2001/2002) tendo encabeçado movimento pela reativação da Lira San cristovense. Um dos autores da Proposição da Inscrição de São Cristóvão ao título de Patrimônio da Humanidade. Tem dezenas de artigos publicados na imprensa sergipana e poesias premiadas em concursos.
ENTREVISTA
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REVISTA THE BARD – Sobre ser você: historiador, poeta, escritor…
THIAGO FRAGATA – Especialista em História Cultural pela Universidade Federal de São Cristóvão, fiz da minha terra natal uma inspiração de poesia e pesquisa, esse bairrismo rendeu frutos, para não perder o trocadilho “meus frutos” estão aí para apreciação, no formato livros e títulos conquistados com dedicação e luta, o exemplo maior é a chancela de Patrimônio da Humanidade concedida pela UNESCO em 2010. Com orgulho, recordo que fui coautor do dossiê que inscreveu a praça São Francisco, em 2006, e ainda coordenei a Comissão Pró-candidatura, entre 2006 e 2010. Essa dupla-participação sensibilizou o Governo de Sergipe que me concedeu, no ano de 2011, a Comenda do Mérito Aperipê.
Considero a vida uma aventura, uma viagem que nem todos estão desfrutando, tem alguns que nem perceberam, para mim seu sentido não é materialista, não pode ser estudar para trabalhar, trabalhar para usufruir bens materiais. Outro dia, recebi visita de um amigo de infância, falava para ele sobre a importância de cuidar de um jardim para a qualidade de vida, a felicidade, a saúde mental, ele redarguiu que só perde tempo plantando o que se come. Fiquei triste, adoro cultivar plantinhas e arte.
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REVISTA THE BARD – Principais obras (publicações)
THIAGO FRAGATA – São Cristóvão Poética e xilogravada (2015) e Fragatas não voam só (2021) – POESIAS
Personas gratas: visitantes ilustres em São Cristóvão – HISTÓRIA
No prelo: Hai Cair no riso: poesia de trocadilho, Cronicário das memórias – São Cristóvão 1973/2024

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REVISTA THE BARD – Destacaria alguns elementos (principais) da cultura nordestina que você considera fundamentais para a identidade (cultural e histórica) de Sergipe?
THIAGO FRAGATA – É preciso falar um pouco da História de Sergipe para responder, permita-me! Sergipe é o menor Estado da federação brasileira, sua origem remonta fins do século XVI, quando o governo baiano, atendendo a aspirações da coroa luso-hispânica, empreendeu uma “guerra de conquista” ao sul da capitania dizimando povos originários e fundando São Cristóvão, como sede da capitania de Sergipe Del Rey, no dia 1 de janeiro de 1590. O fato de surgir para atender ao crescente mercado da Bahia, não esquecer que Salvador foi o centro do poder no período colonial, consolidou a nova Capitania como território de gado e cultivo de cana de açúcar, fumo, etc. Não diria quintal da Bahia (risos), meu bairrismo (a sergipanidade) não permite, mas Sergipe foi o celeiro da Bahia, tanto que o governo baiano não aceitou pacificamente a Emancipação Política de Sergipe em 1820, determinada pelo Imperador D. João VI.
Traços culturais decorrente da sua história e configuração geográfica: O sergipano possui uma megalomania que compensa o seu pequenino território (21.910 km²), gosto de exemplificar isso na ideia de lonjura (a prosódia sergipana tratarei adiante). Imagine um Estado que você consegue percorrer norte/sul e leste/oeste em um dia, no entanto, seus habitantes consideram percorrer 1 km, 500 metros, 300 metros “muictho longe, uma lonjura! ”. Ou seja, tudo é considerado muito longe, lonjura é o superlativo!
Os rebanhos e plantações de fumo que encontramos, hoje, no agreste, centro-sul, bem como plantações de fumo e mandioca constituem atividade laboral persistente ao longo de séculos que se adaptaram ao fluxo de escoamento, ao jogo econômico, sobretudo pela sobrevivência dos criadores, pequenos produtores, trabalhadores. Isso de produzir alimentos para comercializar nas feiras e suprir a família sempre caracterizou o pequeno trabalhador, quero atentar do quanto isso remonta antiguidades. No regime feudal europeu – quando foram criadas as feiras – esse regime de trabalho vigorava. As feiras, taí mais um elemento que bem caracteriza Sergipe do litoral ao interior, quero destacar feira de Itabaiana, Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, reconhecida pela Lei nº 8.561/2019, da Assembleia Legislativa de Sergipe.
A prosódia do povo sergipano, a forma de falar, inspirou parte do meu trabalho literário poético. Não diria que o sergipano “fala cantando” mas que ele “cultiva harmonia poética” quando expressa “barrê e muictho pouco”. Aliás tem poesia inspirada nisso no meu Fragatas não voam só (2021):
ROTINA
Todo dia quando se acorda
Dona Maria toma café e barre a porta
barre e barre, barre e barre
barre a porta
Todo dia
todo dia quando se acorda
Dona Maria toma café….
e barre a porta!
Barre e barre
barre e barre
barre a porta
barre a porta
Todo dia quando se acorda
Seu Chico toma café
e vai para roça
vai pra roça, vai pra roça
ai roça, roça e roça
Todo dia
todo dia quando se acorda
Seu Chico toma café…
e vai pra roça!
Faça chuva, faça sol,
Ele vai pra roça
Meio dia Dona Maria senta e almoça
Seu Chico procura sombra de um umbuzeiro
e fila boia.
Cai a tarde, junto com o sol
Seu Chico e Dona Maria se deitam
No outro dia, bem cedo, recomeçam a peleja
Dona Maria se acorda, toma café
e barre a porta
Barre e barre
barre e barre
ela barre a porta
Seu Chico, todo dia quando se acorda
toma café…e vai pra roça
faça chuva, faça sol
Vai pra roça
vai pra roça
vai pra roça

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REVISTA THE BARD – Como a literatura nordestina reflete as realidades sociais e históricas de sua região?
THIAGO FRAGATA – Considero literatura como fruto de contexto histórico, mas com poderes de refletir e transcender o tempo, temas, possiblidades. Provar a literatura de cordel ou a literatura de Ranulfo Prata e Francisco Costa Dantas, renomado autor de Coivara da Memória. Vou tratar de cangaço para me fazer entender. O fenômeno social alcunhado como cangaço vicejou entre fins do século XIX e primeira metade do século XX, seu raio de ação perpassou 7 estados: Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Bahia, Alagoas e Sergipe. Não tem como falar, pensar, cangaço, seja no passado, seja como tema inspirador de obras do século XXI, descolado do Nordeste. Diria o mesmo para o marcante catolicismo popular, releitura do catolicismo trazido pelos jesuítas, feita pelos povos catequisados, evangelizados, sem esquecer os beatos como Ibiapina, Zé Lourenço, Pedro Batista e Antônio Conselheiro.
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REVISTA THE BARD – Pode destacar alguma influência de outras culturas (africana, indígena, portuguesa?) na história e cultura nordestinas?
THIAGO FRAGATA – Sim, um elemento para refletir origem e resistência cultural. Vou focar na gastronomia.
Africana – destacaria o inhame. Esse alimento é presente na África e tem uma simbologia forte nas religiões de matriz africana;
Indígena – a farinha de mandioca e os muitos usos e lendas dessa planta;
Portuguesa – o queijo, não esquecer que vaca foi trazida da Europa para a América.
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REVISTA THE BARD – Percebe alguma mudança social e econômica recentes, impactando as tradições culturais da região nordeste?
THIAGO FRAGATA – A cultura popular se reinventa sempre (mudança é um traço do ser humano), contrariando a permanência/cristalização alimentada por uma certa elite intelectual estudiosa do folclore, por exemplo. Tomemos o Reisado como exemplo. O Reisado, a brincadeira que chegou ao Brasil com os portugueses, foi teatralizada por religiosos catequizadores como José de Anchieta, não por acaso ele é o pai do folclore brasileiro, sim, o santo Anchieta…, mas o que gostaria de informar, respondendo à questão e percebendo mudança social a impactar tradição é como as jornadas ou partes (eram 25!) que se realizavam por uma noite inteira. Foram suprimidas em apresentações de no máximo 25 minutos para entreter turistas; não apenas no período natalino, mas em qualquer época ou dia do ano. A turistificação da cultura popular acontece desde o século XX, hoje a sobrevivência do folclore depende do mercado e da liderança de mestres/mestras conscientes da tradição.
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REVISTA THE BARD – Há alguma figura histórica ou algum artista nordestino subestimado, que deveria ser reconhecido e valorizado não só na região?
THIAGO FRAGATA – Sim, nas artes o escultor Véio, de Nossa Senhora da Gloria/SE.
Nas plásticas, Jenner Augusto (1924/2003)
Na literatura de cordel, José Firmino Cabral (1940/2013)

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REVISTA THE BARD – Que escritores nordestinos você destaca como essenciais para entender a poesia, a história, a cultura da região?
THIAGO FRAGATA – Patativa do Assaré, José Américo de Almeida (A Bagaceira, 1928), Raquel de Queiroz (O Quinze, 1933), Ariano Suassuna (Auto da Compadecida, 1955; Pedra do Reino, 1971), Jorge Amado, Francisco Costa Dantas (Coivara da Memória, 1991; Desvalidos, 1993; Cabo Josino Viloso, 2005), Ranulfo Prata (Lampião, 1934), Amando Fontes (Os Corumbas, 1933; Rua de Siriri, 1937) e Camara Cascudo (Dicionário do Folclore Brasileiro, 1954).
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REVISTA THE BARD – Como a natureza e clima (geografia) da região inspiram e colaboram com os autores e suas obras?
THIAGO FRAGATA – Geografia e clima enredaram Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, que construiu uma explicação científica (hoje ultrapassada!) do determinismo geográfico. Foi o regime da seca quem inspirou a obra seminal do regionalismo modernista, estou falando de A Bagaceira, de José Américo de Almeida. No parecer do crítico sergipano João Ribeiro: “A Bagaceira – é de agora em diante o livro clássico da literatura do Norte porque alia à perfeição dos seus temas a correção da linguagem sem dano do idioma nacional. Ali está debuxada a vida dos engenhos, o flagelo da migração forçada dos retirantes, com a fragrância da verdadeira realidade”. A seca, como o cangaço, atravessou a literatura nordestina de Raquel de Queiroz (O Quinze), José Lins do Rego (Menino de Engenho, Os cangaceiros), Graciliano Ramos (São Bernardo, Vidas Secas) e até Jorge Amado (Seara Vermelha, todos os romances do ciclo do cacau).
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REVISTA THE BARD – A oralidade tem um papel fundamental na preservação e propagação cultural do Nordeste. Como você vê essa manifestação em obras contemporâneas?
THIAGO FRAGATA – Durante um bom tempo, as academias ignoraram o saber popular, destilaram preconceitos e encastelaram-se em suas bibliotecas. Demorou, mas a oralidade dos repentistas das feiras livres, a oralidade fixada na literatura de cordel, a oralidade presente no folclore (lendas), marginalizada, conquistou honoris causa. O caso de Patativa do Assaré é emblemático, gosto de falar aos meus alunos dos poetas analfabetos, artistas da palavra que nunca frequentaram escolas. Sim, porque a Educação formal foi projeto para servir as elites, o projeto de democratização do saber ocorreu somente no século XX. Recomendo a todos conhecerem Leonardo Bastião e sua obra, esse poeta analfabeto de Itapetim, sertão pernambucano. Toda vez que volto ao seu caso, penso quantos intelectuais como ele perdemos.
Ainda sobre oralidade e mudanças, gostaria de lembrar o caso do machismo na literatura de cordel exposto pela sergipana Izabel Nascimento durante o II Encontro Paraibano de Cordelistas, em 27 de junho de 2020. Os ataques criminosos que a cordelista sofreu, a posteriori, deflagrou o Movimento Nacional das Mulheres Cordelistas Unidas em Combate ao Machismo, onde mulheres tentam denunciar as variadas formas de violência sofridas nesse espaço. Segundo a cordelista Daniela Bento, há um grande machismo estrutural no cordel, que remonta desde a sua origem. “O que acontece hoje é fruto de um resquício histórico. Antigamente, as mulheres eram deixadas de lado. Elas não podiam sequer assinar suas obras”.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 21/08/2025″
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REVISTA THE BARD – De que forma, o seu trabalho (historiador e poeta) impacta/colabora com a educação e formação de novos leitores/estudantes de sua região?
THIAGO FRAGATA – A palavra revoluciona a vida, marca nossa identidade, norteia a visão de mundo, estimula nossa curiosidade, questiona o desconhecido – base do aprendizado. Como Historiador e poeta vivo a burilar a palavra, penso um texto como um “canto de sereia” que pode arrastar viajantes para o mar da Educação. Minha Odisseia, vou aproveitar o trocadilho, é alcançar a excelência do texto acadêmico e do texto poético. Pode parecer utópico, NÃO EXISTE UTOPIA MAIOR DO QUE ACREDITAR QUE PODEMOS EDUCAR ALGUÉM, no entanto é o que acontece, o milagre acontece.
Como todo o saber parte da palavra, vejo a palavra escrita e a leitura como basilar. É preciso investir na comunicação, nesse trabalho como um canto de sereia potente que faça derreter a cera dos ouvidos (risos).

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REVISTA THE BARD – O que fazer para fortalecer a arte, a cultura e a literatura do Nordeste?
THIAGO FRAGATA – A arte precisa ser encarada como item da cesta básica, isso pelo poder público. Vou mais longe, é preciso construir uma agenda das artes como uma política pública, vinculada ao Ministério da Cultura e Ministério da Educação, que alcance os brasileiros de maneira geral. Uma política pública cultural consolidada de forma que não seja abalada pela descontinuidade dos governos.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 21/08/2025″
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REVISTA THE BARD – Além dos livros já mencionados, teria mais referências para quem deseja conhecer as belezas culturais de Sergipe?
THIAGO FRAGATA – Livros do Amâncio Cardoso: Sergipe – História, Cultura e Turismo (2023), Sergipe, um roteiro turístico, histórico e cultural (2022)
Livros de Francisco Dantas: Coivara da Memória, Desvalidos
Livros de Mário Cabral: Roteiro de Aracaju, Aracaju bye, bye
Filme: Baile perfumado (1996), direção conjunta de Lírio Ferreira e Paulo Caldas
Conhecer os seguintes museus: Museu da Gente Sergipana, em Aracaju, unidade museológicas de São Cristóvão e de Laranjeiras, Museu de Arqueologia de Xingó, em Canindé de São Francisco.
Lugar de memória do cangaço: Grota de Angicos, em Poço Redondo, onde Lampião, Maria Bonita e mais 9 cangaceiros foram assassinados.
Participar da Missa do Vaqueiro de Porto da Folha.

Imagem do Museu da Gente Sergipana por Turismo em Sergipe
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REVISTA THE BARD – Reitero os agradecimentos e depois dessa formação, curso oferecido em suas respostas, suas considerações finais.
THIAGO FRAGATA – Foi John Lennon quem disse “pense globalmente, atue localmente”, daí que a gente volta para a nossa (o)missão, sim porque sou militante da arte, um ativista, um protagonista; não acredito em omissão, porque esta perpetua a realidade, ou seja, o omisso tem lado e deve ser responsabilizado sobre suas escolhas. “Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor”, asseverou Desmond Tutu, ganhador do Prêmio Nobel da Paz, conhecido por sua luta contra o apartheid, na África do Sul.
Mas sobre o papel de um ativista cultural, artista da palavra, nós escritores, o que penso… Expressar sua visão de mundo através do seu veículo, a arte, arte de protesto, arte que ora reflete a sociedade, ora transcende. Como exemplo da minha militância, na última semana, o deputado Georgeo Passos anunciou aprovação do seu projeto que proíbe fogos de estampidos em todo o Estado de Sergipe. Festejo conquista pois sou militante da causa autista, tenho animais sensíveis aos fogos, por essa razão é que escrevi e publiquei na imprensa sergipana 2 textos com ampla repercussão:
SÃO JOÃO SEM FOGOS BARULHENTOS, FESTA MAIS INCLUSIVA? JORNAL DA CIDADE. Aracaju, Ano LV, N. 15368, 26 de junho 2025, (OPINIÃO)
VIOLÊNCIA DOS FOGOS DE RÉVEILLON CONTRA VULNERÁVEIS (JORNAL DO DIA. Aracaju, Aracaju, ano XIX, n. 5941, 30/12/2023 a 2/1/2024, p. 2)
Em suas palavras, é a palavra revolucionando a vida, educando o olhar do homem para enxergar o seu lugar e contando verdadeiras histórias.
Viva a arte, a literatura, a história e a capacidade do homem de se expressar com naturalidade, sabedoria e conhecimento.
Realmente, uma conversa do coração do Brasil para o mundo e para a vida.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 21/08/2025″
Por MÁRCIA NEVES
