INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – O nordeste independente do olhar xenofóbico

INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – O nordeste independente do olhar xenofóbico

Exatamente quando a The Bard homenageia o Nordeste brasileiro, parece oportuno refletir, inicialmente, sobre uma ideia que há muito vagueia entre o imaginário popular: de um nordeste independente. Tema de poema e de música, ela também cabe no debate sobre inclusão e exclusão, pois está carregada de sentidos. E o nordestino há muito carrega estereótipos que geram exclusão.

A expressão que dá título ao presente texto é também título do belíssimo poema “Nordeste Independente”, de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova, que foi popularizado em forma de canção na voz de Elba Ramalho, cantora nordestina, em meados dos anos 80. Num trecho diz:

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 25/08/2025″

 

Já que existe no Sul esse conceito

Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato

Já que existe a separação de fato

É preciso torná-la de direito

Quando um dia qualquer isso for feito

Todos dois vão lucrar imensamente

Começando uma vida diferente

De que a gente até hoje tem vivido

Imagine o Brasil ser dividido

E o Nordeste ficar independente[1]

 

O poema é carregado de significados e de simbolismos, especialmente entre os nordestinos, e nos dias hodiernos ganhou ainda mais popularidade, especialmente depois das inúmeras manifestações xenofóbicas que ganham espaço e engajamento nas redes sociais. É preciso falar sobre isso.

Cabe destacar, conforme Bernardes (2007:41) que “a formação do que um dia viria a ser o Nordeste está diretamente ligada à história do espaço colonial brasileiro”, portanto, mais do que uma “expressão direta de uma realidade geográfica”, a região se forjou a partir de movimentos que contribuíram na formação de uma identidade comum, envolvendo diferentes grupos, próximos geograficamente, mas, próximos, sobretudo, nos interesses e identidades.

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Como se sabe, nos primórdios do Brasil colônia, a divisão administrativa do território se fez por meio de capitanias, espaços territoriais governado pelos capitães donatários ou capitães-generais, nomeados pelo colonizador. À época, destacaram-se no cenário geral, as capitanias de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Ceará e Bahia que se uniram para defender seus territórios, invadidos e ocupados por estrangeiros, como os holandeses, por exemplo.

Conforme Bernardes (2007:50) “a natureza dessa ocupação e suas consequências para a camada de proprietários de fazendas, engenhos e escravos” (…) “propiciaram a formação de formas de solidariedade, de manifestações de interesses e de identidades que também ultrapassavam as fronteiras das capitanias”.

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De tal modo, em meio às necessidades de autodefesa e envoltos em dramas de natureza política, econômica, administrativas etc. (como é comum entre os marginalizados) se desenvolve um espírito de solidariedade entre as capitanias, cujos interesses são maiores que os limites territoriais. Some-se a isso, algumas ações concretas do governo central, situado no Rio de Janeiro, sob o ponto de vista comercial e até religioso que favorece esse movimento mais crescente de identificação e unificação entre elas, fortalecendo uma espécie de solidariedade.

Tal conjuntura incita nesses grupos o desejo crescente de autonomia política e administrativa. A Revolução de 1817 evidencia isso e é considerada por alguns historiadores como o movimento que “instaurou de fato e pela primeira vez um governo independente no solo colonial” e que, embora tenha durado “pouco mais de dois meses”, (…) “suas consequências ultrapassaram essa curta duração” (Bernardes, 2007, p. 50).

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Na prática, a localização da corte portuguesa, no Rio de Janeiro, e o movimento articulador entre as capitanias mais ao norte, contribuíram para uma nova compreensão da territorialidade brasileira (Bernardes, 2007). Desde então, há uma divisão no Brasil: Norte e Sul, sendo o norte a periferia do país e o Sul usufruindo diretamente do progresso. Nessa perspectiva, paulatinamente, o país se desenvolve reforçando divisões e, infelizmente, mesmo com as mudanças significativas da República Federativa do Brasil, ainda é possível sentir os efeitos daquela divisão.  No poema, se destaca…

Dividido a partir de Salvador
O Nordeste seria outro país
Vigoroso, leal, rico e feliz
Sem dever a ninguém no exterior
Jangadeiro seria senador
O cassado de roça era suplente
Cantador de viola o presidente
E o vaqueiro era o líder do partido
Imagine o Brasil ser dividido
E o Nordeste ficar independente[2]

 

Atualmente, ainda que o país esteja dividido em cinco regiões, parece existir uma divisão norte-sul que, em diversas ocasiões, se materializa por meio da xenofobia, um tipo de preconceito caracterizado pela aversão, hostilidade, repúdio ou ódio ao estrangeiro, relacionado com fatores históricos, culturais, religiosos etc. (Bezerra, 2024).

Não é raro, principalmente nas redes sociais, a presença de grupos que consideram o Nordeste como “um câncer nacional” ou “a praga do Brasil”. E, que desejam o extermínio do povo nordestino, com falas do tipo: “tem guerra em tantos lugares, bem que poderia ter uma guerra no Nordeste”, “a solução para o Brasil é tão simples, é só excluir o Nordeste e toda essa gente burra e suja do nosso país”, conforme adverte Bessa (2015).

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Dados do Observatório dos Direitos Humanos (Brasil, MDHC, 2024) revelam que os crimes de xenofobia cresceram 874% entre 2021 e 2022. Portanto, essa é uma questão séria que precisa ser alvo de reflexões e, ao mesmo tempo, sendo tão grave, precisa ser enfrentada pelas políticas públicas brasileiras com maior firmeza.

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De tal modo, ser nordestino não implica em resistir a uma região árida, seca, sem chuva, com fome, com índices de índices de desenvolvimento humano (IDH) médios a baixos – como se costuma representar. Ser nordestino no Brasil é resistir, sobretudo, contra o preconceito. Não é somente sobre ser um povo aguerrido, que desde sempre esteve inquieto e, quando necessário, se articulou, lutou, viveu, sonhou e mudou os rumos da história.

O nordestino sabe fazer festa, louvar, cantar e dançar, após cada conquista; conserva sua identidade cultural, mas é capaz de unir, abraçar e acolher, de uma maneira singular, cada viajante ou visitante, a ponto de ele não desejar partir. Sua música, sua dança, suas festas, sua culinária, suas tradições etc. são pequenos fragmentos do que significa nascer nesse lugar, mas, é muito pouco para traduzir o que é, de fato, o Nordeste.

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Referências:

BESSA, B. Imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente. 2005. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0rBCKrgO3vg Acesso em 21/6/2025.

BERNARDES, D. de M. Notas sobre a formação social do Nordeste. Revista Lua Nova. São Paulo, 71: 41-79, 2007.

BEZERRA, M. Xenofobia. 2024. Disponível em: https://mundoeducacao.uol.com.br/sociologia/xenofobia.htm.  Acesso em 3/7/2025.

BRASIL. MDHC. Xenofobia: o ódio que divide o tecido social e incita violações de direitos contra povos e culturas. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2024/agosto/xenofobia-o-odio-que-divide-o-tecido-social-e-incita-violacoes-de-direitos-contra-povos-e-culturas. Acesso em 12/7/2025.

VIOLA DE BOLSO. 2008. Nordeste Independente. Disponível em: https://violadebolso.org.br/2008/08/08/nordeste-independente-braulio-tavares-e-ivanildo-vilanova/ Acesso em 4/7/2025.

[1] Disponível em: https://violadebolso.org.br/2008/08/08/nordeste-independente-braulio-tavares-e-ivanildo-vilanova/

[2] Disponível em: https://violadebolso.org.br/2008/08/08/nordeste-independente-braulio-tavares-e-ivanildo-vilanova/

 

Por SANDRA SANTIAGO

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