NAU LITERÁRIA – Entrevista com Mhill Simon Velaj

NAU LITERÁRIA – Entrevista com Mhill Simon Velaj

Mhill Simon Velaj é um escritor, poeta, prosador e publicista nascido em 1957 no Kosovo, perseguido politicamente pelo regime sérvio e exilado nos EUA desde antes da guerra do Kosovo. Vive em Stamford, Connecticut, com sua família, sendo pai de cinco filhos bem-sucedidos.

É autor de 23 obras publicadas e membro de diversas associações literárias internacionais. Suas obras foram traduzidas para vários idiomas e sua poesia integra importantes antologias e festivais internacionais. Recebeu distinções relevantes, como o título de “Cavaleiro da Ordem da Bandeira” pelo presidente da Albânia. Continua atuante como escritor, editor e figura destacada na cultura da diáspora albanesa.

Membro da Academia Alternative Pegasiane-Albânia

Membro da Acadêmia Alternativa Pegasiane-Brasil.

 

ENTREVISTA

 

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Um diálogo sobre memória, identidade e o poder universal da palavra escrita

REVISTA THE BARD – O senhor cresceu em um contexto cultural específico dos Bálcãs. De que maneira sua origem albanesa influencia a temática e o tom de sua escrita?

MHILL VELAJ – Minha origem albanesa é a espinha dorsal da minha escrita. Venho de uma cultura em que as palavras sempre foram mais faladas do que escritas, onde a memória se preserva por meio de canções, provérbios e histórias contadas ao redor do fogo. Essa tradição ancestral, combinada com as rupturas históricas que vivenciamos, molda profundamente o tom reflexivo e, por vezes, melancólico dos meus textos. Escrevo com a consciência de carregar uma voz coletiva.

 

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REVISTA THE BARD – Quais foram os primeiros estímulos que o levaram à literatura? Existe algum episódio marcante em sua infância ou juventude que despertou seu desejo de escrever?

MHILL VELAJ – Recordo-me de uma noite em que um velho contador de histórias narrou uma fábula sobre um homem que havia perdido o próprio nome. Aquilo me causou um impacto tão grande que passei dias tentando reescrever a história em minha mente. Foi aí que compreendi o poder transformador das palavras. A literatura nasceu para mim como uma extensão da escuta – primeiro escutei muito, só depois comecei a escrever.

 

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REVISTA THE BARD – Como se dá o seu processo de criação? Há algum ritual, momento do dia ou método específico que o senhor adota ao escrever?

MHILL VELAJ – Escrevo quando algo me inquieta ou me atravessa. Prefiro o silêncio da madrugada ou os primeiros instantes da manhã. Não tenho um ritual fixo, mas costumo carregar comigo cadernos pequenos onde anoto frases, imagens ou lembranças. Às vezes uma única palavra amadurece por dias até encontrar o texto que merece.

 

 

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REVISTA THE BARD – Quais são os temas que mais o inquietam como escritor? O senhor considera que a memória, a identidade nacional e a condição humana são elementos centrais em sua obra?

MHILL VELAJ – Sim, sem dúvida. Escrevo como quem resgata. A memória – tanto individual quanto coletiva – é um dos pilares da minha obra. A identidade nacional, o exílio, a perda e o reencontro com as raízes são temas recorrentes. Mas tudo isso está sempre em diálogo com a condição humana. O que me importa é compreender o ser humano diante do tempo, da dor e da esperança.

 

 

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REVISTA THE BARD – Sua escrita é muitas vezes descrita como sensível e humanista. Como o senhor equilibra emoção e reflexão em sua construção literária?

MHILL VELAJ – O equilíbrio nasce da escuta interior. Quando escrevo, tento não ser refém da emoção imediata. Dou tempo para que o sentimento decante e se converta em algo universal. A emoção, quando atravessada pela reflexão, ganha profundidade e atinge o outro sem excessos. Escrever é, para mim, um exercício constante de compaixão e lucidez.

 

 

 

6

REVISTA THE BARD – Como a história recente da Albânia — marcada por isolamento, transições políticas e diáspora — impacta a literatura atual e, em particular, a sua produção?

MHILL VELAJ – A literatura albanesa carrega cicatrizes profundas. O isolamento, a repressão, os silêncios impostos e os deslocamentos forçados formaram uma geração de escritores que escreve quase como um ato de resistência. No meu caso, tento transformar a dor histórica em linguagem que dialoga com o presente – não apenas para denunciar, mas para compreender.

 

 

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REVISTA THE BARD – A literatura albanesa ainda é pouco conhecida fora dos círculos especializados. O senhor acredita que há um movimento de maior abertura internacional para os escritores albaneses?

MHILL VELAJ – Sim, acredito que vivemos um momento de abertura crescente. Embora o caminho ainda seja difícil, há cada vez mais interesse por vozes que vêm de culturas até então marginalizadas. No entanto, é necessário investimento em traduções de qualidade, curadoria e divulgação. O mundo tem sede de autenticidade, e a literatura albanesa tem muito a oferecer.

 

 

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REVISTA THE BARD – A tradição oral é um pilar importante na cultura albanesa. Como ela dialoga com sua escrita contemporânea? O senhor costuma incorporar elementos dessa tradição em seus textos?

MHILL VELAJ – A tradição oral é o meu alicerce. Cresci ouvindo histórias que não estavam em nenhum livro. Esses ecos da oralidade aparecem na minha escrita tanto na estrutura narrativa quanto na cadência da linguagem. Resgatar esse mundo ancestral é uma forma de preservar uma sabedoria que o tempo moderno tende a apagar.

 

 

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REVISTA THE BARD – Como escritor, o senhor sente que escreve para os albaneses, para o mundo ou para ambos? Qual é o seu público ideal?

MHILL VELAJ – Escrevo para o ser humano – com raízes albanesas. Meu texto carrega o local, mas aspira ao universal. O meu público ideal é aquele que lê com o coração aberto, independentemente de sua origem. Se alguém no Brasil ou em qualquer outro lugar se reconhece no que escrevo, então a ponte foi construída.

 

 

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REVISTA THE BARD – Quais autores, albaneses ou estrangeiros, mais o influenciaram? Há algum livro ou escritor que o senhor considera fundamental na sua formação?

MHILL VELAJ- Entre os albaneses, destacaria Migjeni e Martin Camaj. Entre os estrangeiros: Albert Camus, Hermann Hesse, Faulkner e Rilke. Há também escritores contemporâneos que me tocam profundamente. Um livro que me marcou foi O Estrangeiro, de Camus – pela sua densidade filosófica e clareza existencial.

 

 

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REVISTA THE BARD – O senhor acredita que a literatura deve ter um papel social e político? Em algum momento sentiu a necessidade de posicionar-se através da sua obra?

MHILL VELAJ – A literatura não precisa ser panfleto, mas também não pode ser neutra diante do sofrimento humano. Em muitos momentos, sim, senti a necessidade de escrever como forma de denúncia, de resistência e de memória. A palavra tem força – e às vezes é tudo o que nos resta.

 

 

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REVISTA THE BARD – Quais são os projetos literários que o senhor está desenvolvendo atualmente? Há novos livros em preparação?

MHILL VELAJ – Atualmente trabalho em um romance sobre o silêncio e a culpa herdada. Também estou organizando uma coletânea de contos curtos e reflexões que nasceram durante a pandemia e os anos posteriores. Espero que em breve possam ser traduzidos e conhecidos fora da Albânia.

 

 

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REVISTA THE BARD – Na sua opinião, como a literatura pode ajudar a construir pontes entre culturas tão distantes como a brasileira e a albanesa?

MHILL VELAJ – A literatura é a arte mais íntima e, ao mesmo tempo, mais expansiva. Ela revela o outro e, ao fazê-lo, nos revela também. Quando um leitor brasileiro mergulha em uma história albanesa e encontra ali o eco da sua própria alma, então não há mais “distância”. Há reconhecimento. E isso é o início de toda ponte verdadeira.

 

 

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REVISTA THE BARD – Que mensagem o senhor gostaria de deixar para os leitores brasileiros que estão começando a conhecer a literatura albanesa e, especialmente, sua obra?

MHILL VELAJ – Gostaria de lhes dizer que, apesar das distâncias geográficas e culturais, nossos sentimentos são os mesmos. Se minhas palavras puderem tocar algo em seus corações, então a missão estará cumprida. A literatura nos torna próximos – mesmo quando falamos idiomas diferentes.

 

LIVROS – MHILL VELAJ

   

 

Muito obrigada, professor Mhill Velaj, por esta conversa profunda e inspiradora.
— Magna Aspásia Fontenelle, jornalista cultural, The Bard

   MTE-0023508/MG

Por MAGNA ASPÁSIA FONTENELLE

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