Junto a janela quadriculada uma miragem tinha sido avistada de palanque em direcção ao “ASA BRANCA” e muitas vezes, era difícil realizar uma descrição daquilo que ocorria.
Matinalmente, aquela imagem aparecia ao entrar e ao sair do 53, mas não podia chegar as proximidades para ver o que era aquilo que abrilhantava os meus olhos.
Dona Nzadi era uma empreendedora informal de mãos cheias e bastante popular no último reduto do “ASA BRANCA”.
Todas as manhãs ajudava a minha mãe na confecção de gelados de múcua para depois concluir as vendas nos meandros do coração do “ASA BRANCA”.
Levantava às 5h00 da manhã e por volta das 7h30, já tinha o quiosque completamente montado.
Embora, não se enriquecesse naquele mundo; já sonhara em experimentar outros trampolins, mas para perpetrar o referido desiderato faltava um detalhe……..
Desvendar o secretismo por trás da miragem era o meu novo ofício e foi nessa altura que comecei a conquistar a paixão pela ilusão de óptica.
– O que está havendo Ubuntu?
– Nada Mãe!
Apenas estou a fazer alguns cálculos nessa folha; daqui a pouco termino.
– Está bem!
A velha já estava a desconfiar que havia algo errado comigo, todavia preferiu descurar os acontecimentos por causa da confiança que nutria por mim.
Ao longo de seis meses aquela ilusão sumira integralmente do 53 para o meu espanto.
No décimo mês a ilusão reapareceu bem diante dos meus olhos e era a grande oportunidade para descobrir o mistério.
O 53 desembarcava, enquanto abandonava o quiosque. Corri feito um louco para embater no 53 e foi mesmo assim que sucedeu.
Cordialmente, esperei até ela descer e a abordei assim:
– Gostava de provar o melhor gelado do Cazenga e de Luanda?
Ela assentiu e provou o gelado de múcua para a minha alegria. Aproveitando o clima, enchi o peito e fiz a colocação:
– Qual é o seu nome?
– Humbi!
– O meu nome é Ubuntu!
Então, tudo começou desse jeito até ao dia que a gente casou. Já faz cinquenta anos e eu ainda amo a sua avó intensamente; tal como no primeiro dia.
– Obrigado pela história avô, confesso que aprendi bastante com a vossa experiência de vida e espero um dia ter uma relação amorosa longínqua a semelhança da vossa.
Nota: 53 era a designação de um autocarro da firma TCUL (Transporte Colectivo Urbano de Luanda) que fazia a rota Cazenga – Mutamba e Mutamba – Cazenga na década de 80. Asa Branca é a denominação de um dos mercados informais mais antigos de Luanda; localizado no Município do Cazenga, zona periférica de Luanda, desde a época colonial portuguesa até a atualidade.
Por FÁBIO WADYANGA
