Há exatos sete domingos, Luísa observava o homem da mesa do canto. Sempre o mesmo ritual: ele chegava às 10h12, pedia um café sem açúcar e um copo d’água, abria um caderno de capa preta e escrevia ininterruptamente por uma hora e dezessete minutos.
O Café Passagem não era especialmente charmoso ou famoso. Ficava numa esquina discreta do centro antigo, com suas mesas de madeira escura e cadeiras desparelhadas. Talvez fosse justamente esse anonimato que atraísse pessoas como eles, frequentadores de domingo que buscavam um lugar onde o tempo parecia fluir em outro compasso.
Naquele oitavo domingo, algo mudou na rotina de Luísa. Em vez de se sentar à mesa habitual junto à janela, caminhou decidida até o homem do caderno.
— Posso me sentar? — perguntou, surpreendendo a si mesma com a própria ousadia.
Ele ergueu os olhos – castanhos, profundos – e sorriu como se a esperasse há muito tempo.
— Estava me perguntando quando você viria — respondeu, fechando o caderno.
Luísa sentiu um arrepio.
— Você me notou?
— Todos os domingos. Mesa junto à janela. Chá de jasmim. Livro diferente a cada semana.
O garçom trouxe o chá que ela nem precisou pedir. Quando se afastou, o homem estendeu a mão.
— Daniel.
— Luísa.
— Eu sei — ele disse, com uma familiaridade desconcertante.
— Como poderia saber?
Daniel abriu o caderno e o virou para ela. Nas páginas, Luísa viu seu próprio nome escrito dezenas de vezes, em diferentes caligrafias, como se ele estivesse praticando a assinatura de outra pessoa.
— Isso deveria me assustar — ela disse, mas não sentia medo.
— Provavelmente.
— Por que meu nome?
Daniel hesitou, como se escolhesse cuidadosamente as palavras.
— Você acredita em vidas passadas, Luísa?
Ela nunca havia pensado seriamente sobre isso.
— Não sei.
— E em vidas futuras?
A pergunta a pegou desprevenida. Daniel continuou:
— Venho aqui todos os domingos há três anos. Escrevo sobre uma mulher chamada Luísa que conhecerei num café. Sete semanas atrás, você apareceu.
— Isso é impossível.
— Concordo.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo barulho das xícaras e conversas distantes. Luísa deveria levantar-se e sair. Qualquer pessoa sensata faria isso. Em vez disso, perguntou:
— Posso ver o que escreveu?
Daniel empurrou o caderno em sua direção. Luísa começou a ler e sentiu o mundo ao redor desaparecer. As páginas descreviam detalhes de sua vida que ninguém poderia saber, o ponto de nascença atrás da orelha esquerda, o medo de trovões, a coleção de miniaturas de faróis escondida em uma caixa de sapatos.
Mas havia mais. O caderno continha cenas de uma vida que ela ainda não vivera, uma viagem a Lisboa, um apartamento com vista para o mar, uma filha chamada Clara.
— Como…? — ela começou, sem conseguir formular a pergunta completa.
— Não sei — Daniel respondeu com sinceridade. — Só sei que escrevo o que vejo, e vejo o que ainda não aconteceu.
Luísa fechou o caderno e o devolveu. Suas mãos tremiam levemente.
— E agora?
Daniel sorriu novamente, aquele sorriso que parecia conhecer segredos do universo.
— Agora pedimos outro café. E deixamos o tempo decidir se sou um louco com sorte ou se há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia.
Luísa assentiu. Afinal, era domingo. E domingos sempre foram feitos para possibilidades.
Por J. B WOLF
