Pedi a uma amiga que revisasse e comentasse um livro de poemas que estava preparando para publicação. Muito generosamente, ela não se furtou à tarefa e anotou pontos essenciais que me ajudaram a decidir sobre a versão final do projeto. Professora de língua portuguesa e literatura que é, não me cabe discutir a parte “técnica” do que ela apontou; aceita-se e fim. Uma observação, entretanto, me chamou a atenção, e acho que vale registro.
Ela percebeu o tom sombrio – talvez mórbido ou pessimista – que permeava os poemas. Expliquei que, naquele caso, tudo tinha a ver em grande parte com o período pandêmico em que os poemas foram concebidos. A rigor, meus poemas muitas vezes giram em torno de temas um tanto quanto pessimistas, depressivos e negativos. Não sei a que atribuir essa tendência de falar sobre o incômodo da existência, a desilusão, o desespero e até mesmo a morte. Disse-lhe resumidamente que não encontrava muito valor na alegria; sempre achei que o sofrimento traz mais aprendizado que a felicidade. Afinal, o que se pode aprender com momentos felizes? Penso que não muita coisa. E prefiro nem falar da praga atual de mensagens motivacionais e dessa onda exacerbada de positividade tóxica.
Seja como for, ela sugeriu que eu levasse em conta a sugestão de escritores consagrados, dentre eles Shakespeare, que se utilizava do comic relief [alívio cômico] em suas obras. Assim, o conjunto de minha produção ficaria menos “pesado”. Filosoficamente, concordo com ela. Em um mundo já deveras complicado e assombrado por situações problemáticas e ameaçadoras, por que ler poemas que são, em essência, ácidos e que fazem alusão ao caos reinante em grande parte da humanidade? Por que potencializar sentimentos negativos que minam a pouca resistência emocional ainda existente? A resposta – mais pragmática – que lhe ofereci tem dois caminhos.
Em primeiro lugar, devo dizer que já escrevi muitos poemas e contos com o tal comic relief. Acho interessante, do ponto de vista da estrutura narrativa, a ideia do alívio cômico. Só não acho que deve ser uma tônica. Da mesma forma que não acho que qualquer outro recurso estilístico deve ser uma tônica. Se não me engano, Cowper postulava: variety is the spice of life [a variedade é o tempero da vida]. Mas um mero aprendiz de escritor como eu não pode teorizar sobre o assunto. Considero a ideia do alívio cômico bastante válida e já a utilizei diversas vezes, mas, quanto mais não fosse, acho que não se adequaria ao livro que minha amiga revisou.
Em segundo lugar, trata-se de uma questão pessoal. Ou emocional. Ou existencial. Já escrevi muita coisa “alegre”, mas alegria não é o que vejo por aí desde que me entendo por gente. Vejo guerra, corrupção, assédio, violência, morte, doença, estupro, homofobia, racismo, abuso, agressividade, assassinato, exploração, impunidade e tanta coisa ruim que fica difícil para meu “eu lírico” escrever algo positivo, “pra cima”. Não que eu pregue a desilusão, o derrotismo, nada disso. Só acho que o artista – perdão pela prepotência – também tem o dever de mostrar o “lado sombrio da força”. Não se trata exatamente de negatividade; trata-se de, digamos, despositividade. Admiro e respeito quem escreve com júbilo, mas penso que, no mundo atual, a positividade excessiva torna-se bastante tóxica e não condiz com toda a fome, repressão e opressão do resto do mundo fora de nossa bolha privilegiada. Sei que meus textos dificilmente serão lidos, mas sinto que preciso deixar registrado o que penso. Em relação a meu país, a meus semelhantes, a mim mesmo e a tudo que me cerca. Suponho que muitos escritores, pensadores, filósofos, músicos, pintores e cineastas hoje famosos um dia passaram pelo mesmo dilema: falar ou não falar o que pensavam em relação ao mundo em que viviam. Não que eu me iguale a eles, mas vai que alguém resolve me ler um dia… Que uns escrevam em tons maiores e outros em tons menores. A arte fica mais equilibrada, a meu ver.
Lamento dizer, amiga, mas este mundo, em sua versão atual, não tem lugar para muito comic relief. Ao menos para mim. Deixo para outros a tarefa de discorrer poeticamente sobre a tal alegria de viver. Sorry.
Por JOSÉ M. DA SILVA
