LITERATURA DE CORDEL – Romances, Cordel e o Pavão Misterioso

LITERATURA DE CORDEL – Romances, Cordel e o Pavão Misterioso

A origem da Literatura de Cordel está ligada à divulgação de histórias tradicionais, narrativas orais presentes na memória popular, chamadas romances.

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Na teoria literária clássica, costuma-se categorizar os textos literários de acordo com a maneira como se apresentam, isto é, em prosa e versos. Quanto ao conteúdo, os textos podem ser classificados como líricos, onde um eu lírico expressa suas emoções, pensamentos e o mundo interno em relação ao mundo externo; narrativos ou épicos, onde um narrador narra a história de um povo ou nação; e dramáticos, que retratam o conflito entre os seres humanos e seu ambiente.   

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O gênero literário romance é de narrativa longa, escrito em prosa, cuja trama aborda diversos temas, como policial (histórias de investigação e crimes), ficção científica (narrativas relacionadas em tecnologia), terror (quando cria medo e suspense), histórico (com foco em épocas passadas), fantasia (de mundos imaginários), urbano ou de costumes (sobre hábitos, vida social de uma época ou de uma comunidade), aventuras (narra perigos e descobertas) e não é exclusivamente sobre amor, este ocorre quando é o foco central da narrativa, chamado “romance romântico”.

Os romances da literatura de cordel, estruturalmente, são divididos em quatro classes: os romances de amor, de sofrimento, romances de lutas e, por último, de príncipes, fadas e reinos encantados. E sobre este tipo de cordel, o estudioso Liêdo Magalhães de Sousa, em seu livro “Classificação popular da literatura de cordel”, apresenta:

   

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Romances de príncipes, fadas e reinos encantados são histórias que se passam no coração da grande Ásia, no Sudão. Antigo, nos confins do horizonte, ou, com frequência, num reino muito distante. Contam o drama de príncipes apaixonados e de princesas órfãs de pai e mãe, criadas por fadas misteriosas de grandes poderes. Falam, igualmente, de fortalezas guardadas por monstros encantados (Sousa, 1978, p. 100)[1].

A contribuição de Souza, com sua classificação popular, trazia uma proposta ousada, já que deu voz a leitores e folheteiros. Entretanto, na introdução, deparamos com um equívoco conceitual reiterado, repetido e reforçado por vários anos, no qual confunde folheto (suporte no qual se publica o texto) com o gênero literário romance.

A Classificação popular divide, inicialmente, tais publicações em folhetos e romances, de acordo com o número de páginas que possuem, reservando a denominação de folhetos para os trabalhos de 8 e de 16 páginas, sendo os de 24, 32, 48 e 64 páginas conhecidos como romances (p. 13).

Sobre esta questão conceitual, alguns poetas desconstroem essa divisão por páginas, quando escreveram folhetos clássicos considerados “romances”, com 16 páginas, como exemplos: O romance de João Besta e a jia da lagoa, do Poeta Francisco Sales Arêda; Romance da princesa do reino do Mar sem Fim, do Poeta Severino Borges da Silva, e o Romance de João Cambadinho e a princesa do reino de Mira-Mar, de Inácio Carioca.

 

O romance, por tratar-se de uma narrativa, possui características peculiares como uma ação, um lugar onde ela ocorre, um tempo em que acontece, personagens que a realizam e uma trama na perspectiva do narrador.

 Albuquerque (2011),[2] em sua pesquisa de doutorado, identificou alguns estudiosos estrangeiros e brasileiros que propõem uma classificação para os Romances em Cordel, por tipos, categorias e ciclos temáticos, mas que não atendem às variações e diversidades temáticas do cordel brasileiro. A seguir apresentamos algumas classificações propostas sobre tais classificações do romance:

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  • Robert Mandrou apresenta a classificação referindo-se à coleção Bleue (séculos XVII e XVIII), da Littérature de colportage francesa. Arte e sensibilidade populares: romances, o burlesco, a canção profana, o teatro, o crime, o amor e a morte.

 

  • Genevière Bollèrie, historiadora francesa, propõe uma tipologia por ordem de importância das categorias: Histórias romanceadas.

 

  • Orígenes Lessa registra uma série de temas permanentes: Romances de Amor, de Aventuras, Trágicos.

 

  • Roberto Câmara Benjamin sugere uma classificação sobre os temas de religião: romances, narrativas tradicionais para entretenimento e distrações.

 

  • Manuel Diegues Júnior adotou a seguinte classificação: Romances e novelas: do romanceiro português, a literatura de cordel do Nordeste, recebeu a transmissão de narrativas tradicionais, uma de fundo histórico, sobretudo das velhas gestas medievais, outras de criação erudita. As novelas representavam criações poéticas que permitiam fixar fatos e acontecimentos.

 

  • Ariano Suassuna propõe a classificação por ciclos temáticos e tipologia de poetas populares e de romances versados: Tipologia dos Romances:
  1. de amor
  2. de safadeza e de putaria
  3. cangaceiros e cavalarianos
  4. de exemplo
  5. de espertezas, estradeirices e quengadas
  6. jornaleiros
  7. profecia e assombração

Imagem de Sport Recife por Google

 

  • Liêdo Maranhão de Souza, estudioso pernambucano da literatura de cordel, propõe a classificação por folhetos e romances: Romances:
  1. de amor: falam de dramas, envolvendo “esposas honestas, mulheres devassas e maridos cruéis”.
  2. de sofrimento: falam de donzelas capazes de “levar a virgindade para o interior do frio chão”, de “corações que se encontram por força do destino”, mas, sendo “um, firme; outro, traiçoeiro”, têm de “caminhar contra a sorte”.
  3. de luta: ao contrário dos folhetos de bravura, que têm como cenário o interior sertanejo, os “romances de lutas” se desenrolam na cidade. Seus heróis não são vaqueiros.
  4. de príncipe, fadas e reinos encantados: são histórias que se passam “no coração da Grande Ásia”, no “Sudão Antigo”, “nos confins do horizonte” ou, com frequência, “num reino muito distante”. Contam o drama de príncipes apaixonados e de princesas “órfãs de pai e mãe”, criadas por fadas misteriosas “de grandes poderes”. Falam, igualmente, de fortalezas guardadas por monstros encantados.

Imagem de Revista Continente por Google

 

  • Sebastião Nunes Batista, pesquisador da literatura de cordel, divide a temática em: os gêneros tradicionais (romances, novelas, contos maravilhosos e heroicos, estórias de animais e da tradição religiosa).

 

  • Gustavo Dourado, poeta e cordelista baiano, criou uma classificação dos principais temas e ciclos do cordel que abordam vários assuntos: romances.

 

  • Pinheiro e Lúcio (2001) reduzem a quatro os tipos de folhetos, a saber: romances, textos que tratam de história de amor impossível, de aventura e mistério.

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Observamos que estes estudiosos criaram suas próprias classificações, rejeitaram as de outros, fizeram acréscimos e arranjos; outras extensas, inconsistentes, redundantes, confusas, com misturas de gêneros, tipologias e temas, entretanto, não conseguiram fugir das classificações por ciclos temáticos, o qual é outro equívoco que salta aos olhos, porque os temas são recorrentes e independentes do seu tempo na história e no imaginário.

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De acordo com essa categorização, o cordel O Romance do Pavão Misterioso, de 1923, escrito pelo poeta José Camelo de Melo Resende, mas registrado pelo Poeta João Melquiades Ferreira da Silva, é classificado como um romance de fadas e reinos encantados. É um dos textos mais conhecidos do ciclo de histórias fantásticas e um dos mais apreciados romances de cordel no Brasil, constituindo-se em um símbolo da cultura do Nordeste.   

O pesquisador e estudioso da Literatura de Cordel, José Paulo Ribeiro, de Guarabira — Paraíba, nos conta a história da origem do “Romance do Pavão Misterioso”:

Clique aqui para assistir

 

A fantástica narrativa deste romance traz como mote os contos de fadas tradicionais, devido aos elementos simbólicos apresentados em uma aventura dramática. A obra tornou-se um clássico da literatura de cordel, influenciando, desde a sua publicação, outras manifestações culturais e artísticas, como: filmes, teatros, pinturas, músicas, novelas, histórias em quadrinho, enredo de escola de samba, etc.

Toda leitura é sempre um ato de releitura e de interpretações que podem alcançar novos sentidos, e as narrativas presentes na Literatura de Cordel evidenciam personagens, tramas, imagens e símbolos ligados ao imaginário popular. Apresentamos a seguir um resumo da obra:

A obra conta a história de amor entre Evangelista, um rico comerciante turco, e Creusa, uma bela condessa grega que vivia presa em uma torre pelo pai, o conde D’Arles. Evangelista se apaixona por Creusa ao vê-la em uma procissão anual e decide pedi-la em casamento. Para isso, ele conta com a ajuda de João Sem Medo, um inventor português que constrói um pavão mecânico capaz de voar até a torre da condessa. Com o pavão misterioso. Evangelista consegue raptar Creusa e fugir com ela para a Turquia. No entanto, o conde D’Arles não desiste de recuperar sua filha e envia seus soldados para perseguir os amantes. Após muitas aventuras e perigos, Evangelista e Creusa conseguem se casar e viver felizes.

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Apresentamos uma das edições no link: https://app.docvirt.com/cordelfcrb/pageid/5272, bem como a diversidade de capas do folheto de cordel, que conseguimos identificar, considerando que a obra teve mais de 50 reedições:

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Sobre o poeta José Camelo de Melo Resende (20/04/1885 – 28/10/1964).[3]

 

Natural do povoado de Pilõezinhos, município de Guarabira, Paraíba, José Camelo de Melo Resende nasceu em 20 de abril de 1885 e faleceu na cidade de Rio Tinto, Paraíba, em 28 de outubro de 1964. Poeta popular, cantador, carpinteiro e xilógrafo, era, segundo Átila Almeida e José Alves Sobrinho, homem imaginoso e brilhante. Começou a versar romances por volta de 1923, mas não escrevia suas composições: guardava-as na memória para cantá-las onde se apresentasse.

Imagem – divulgação por Google

 

No fim dos anos 1920, mete-se em complicações e foge para o Rio Grande do Norte, onde se esconde por uns tempos. É nessa época que João Melquíades Ferreira da Silva publica na Paraíba, em seu nome, o romance Pavão misterioso, obra criada por José Camelo. Este denuncia o golpe, mas o romance continuará a ser atribuído a João Melquíades (o caso causou controvérsia que perdura até os dias atuais, apesar de já estar provada e documentada a verdadeira autoria).

Pavão misterioso torna-se um dos principais sucessos da literatura de cordel, sendo reeditado inúmeras vezes, além de inspirar peças de teatro, canção, novela de televisão e filme de animação. Segundo Vicente Barbosa (2013).

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De todos os cordéis até hoje impressos, um deles teve destaque e tornou-se um grande best-seller do gênero. Trata-se do Romance do Pavão Misterioso, obra do cordelista guarabirense José Camelo de Melo Resende (1885–1964) que ganhou fama no Brasil e no mundo. O Livro do Pavão Misterioso já teve suas versões adaptadas para o teatro, cinema, literatura, música e televisão. Seu texto simples, combinado com a fluidez dos versos e as menções aos contos das Mil e Uma Noites, alcançou a impressionante marca de mais de dez milhões de cópias vendidas em todo o território nacional.

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De acordo com Marco Haurélio, em 2013, para celebrar os 90 anos de encantos do Pavão Misterioso, o poeta Paulo Gracino, natural de Guarabira, fez uma homenagem a essa obra inesquecível com o poema 90 anos de encantos de um Pavão Misterioso, como revelam as primeiras estrofes da poética:

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Quem é que nunca ouviu?

Um dia alguém contará.

A história de um pavão.

Que começou a voar.

Há mais de noventa anos.

E que nem pensa em parar.

Ele é misterioso,

Mas nunca foi encantado.

Passeou no mundo todo.

E sempre foi bem lembrado.

Por tudo que fez e faz.

E por onde tem passado.

Ele é o grande astro.

De um romance acontecido.

Um romance de verdade,

Daqueles bem aguerridos,

Que já tem quase cem anos.

E jamais foi esquecido.

 

Por fim, pelo fato de a Literatura de Cordel ser carregada de toda uma expressividade e historicidade, torna-se uma fonte de pesquisa inesgotável, com significados temporais e espaciais, que evidenciam uma forma singular da cultura popular.

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[1] SOUZA, Liêdo Maranhão de. Classificação popular da literatura de cordel. Petrópolis: Vozes, 1976.

[2] ALBUQUERQUE, M. E. B. C. Literatura popular de Cordel: dos ciclos temáticos à classificação bibliográfica. 2011. Tese (Doutorado em Letras) –Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2011.

[3]https://memoriasdapoesiapopular.com.br/2014/12/03/poeta-jose-camelo-de-melo-resende-sintese-biografica/

 

Por BETH BALTAR

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