Subir ao sótão é mergulhar num tempo suspenso, um oceano de poeira banhado pela luz fraca da claraboia. O ar, pesado, cheira a madeira e papel antigo. Aqui, as coisas não morrem, apenas são esquecidas. E nesse silêncio denso, elas falam.
Numa prateleira, um livro de couro ressequido me encara. Suas páginas amareladas revelam uma anotação a lápis junto a um poema sobre o mar. De quem era a mão que sonhava com viagens ou lamentava um amor perdido para as ondas? O livro guarda o fantasma de uma emoção, a vibração de um dedo que traçou aquela linha. Sua história não está no texto, mas na marca humana que o tempo poupou.
Ao fundo, numa caixa, um cavalo de madeira. A tinta gasta, uma roda perdida. Seus olhos pintados guardam batalhas imaginárias. Foi corcel de um rei, confidente de um menino. Hoje, sua imobilidade é sagrada, um monumento à infância que galopa apenas na quietude da memória.
Dentro do livro, uma fotografia em sépia: um casal jovem sorri, encostado numa árvore. Sua felicidade é tão palpável que dói. Posam para um futuro que acreditavam ser infinito. Quem são? O que foi feito do amor em seus olhos? A foto é um portal para um instante congelado, uma beleza perdida que assombra o presente.
Não são objetos, percebo ao descer. São ecos. A arqueologia da alma. Testamentos de vidas, amores e sonhos. Sua melancolia não vem do abandono, mas da certeza de que toda história, por mais vibrante, um dia se torna um objeto empoeirado, à espera de olhos que a leiam.
Por J.B WOLF
