DIALÉTICA – A memória imaterial popular passada pelas festividades ao longo do tempo

DIALÉTICA – A memória imaterial popular passada pelas festividades ao longo do tempo

A memória humana, em suas múltiplas formas, constitui um dos alicerces mais potentes da vida social e cultural, emergindo não apenas como arquivo do passado, mas como organismo vivo, afetivo e dinâmico.

 Entre suas expressões, a memória imaterial ocupa um lugar de destaque por atravessar práticas populares, festividades, gestos simbólicos e rituais que se projetam ao longo do tempo.

Em contraponto à memória material — fundada em documentos, monumentos, objetos, artefatos e registros tangíveis — a memória imaterial apresenta-se como fluxo, vibração e transmissão sensível, característica que foi profundamente teorizada por correntes historiográficas como a Escola dos Annales, por estudiosos da cultura de massa e pelos teóricos da contemporaneidade que investigam a construção narrativa do passado.

 As festividades populares surgem, nesse contexto, como um dos mais importantes suportes de continuidade cultural, pois condensam repertórios simbólicos, afetivos, musicais, corporais, estéticos e comunitários.

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Ao mesmo tempo, dialogam com o imaginário da cultura pop, com a psicanálise, com a poesia e com as literaturas que se nutrem dessas heranças para repensar a relação entre passado e presente.

Na tradição dos Annales, Marc Bloch afirmava, em “Apologia da História”, que “a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”, mas acrescentava que o passado permanece naquilo que os homens fazem, dizem e celebram.

 Essa indicação abre caminho para compreender que as festividades populares — como o carnaval, o Dia dos Mortos mexicano, o Bumba Meu Boi, as festas juninas, as romarias, as congadas, as procissões e as feiras — configuram-se como exercícios contínuos de memória viva, nos quais a comunidade reinscreve sua identidade.

Lucien Febvre, ao tratar das “sensibilidades” como categorias de análise histórica, insistia que as emoções coletivas são fundamentais para entender a ação humana e que “a história é ciência do homem, e o homem sente, deseja, teme, celebra”.

Fernand Braudel, por sua vez, em “A Longa Duração”, enfatiza que certos elementos culturais se fixam nas estruturas mais profundas da vida social, resistindo às rápidas mudanças políticas ou econômicas.

Essa perspectiva braudeliana ilumina a compreensão da memória imaterial, pois esta não se fixa em objetos, mas em práticas recorrentes que, de geração em geração, atualizam antigas experiências sociais.

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Enquanto a memória material pode se deteriorar, perder-se ou ser destruída, a memória imaterial persiste porque se reencena, se canta, se dança, se narra, se dramatiza.

 As festas populares, frequentemente desprezadas por historiografias tradicionais, ganham centralidade quando se adota a abordagem dos Annales, que ampliou o conceito de documento histórico para incluir toda forma de testemunho humano.

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Para Bloch, “todo vestígio do homem é documento”; para Febvre, a história deveria considerar “a totalidade da vida”.

Assim, uma dança, um canto, uma comida ritual, uma máscara carnavalesca, um cortejo, um mito de origem ou um verso popular são também registros históricos, ou melhor, são manifestações de uma memória imaterial que se conserva no corpo e na fala.

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Em contraste, a memória material — exemplificada por monumentos, arquivos e museus — fornece, é certo, estabilidade documental, mas não possui a maleabilidade expressiva da tradição viva.

Pierre Nora, em sua obra monumental “Les Lieux de Mémoire”, argumenta que a modernidade produziu uma ruptura entre memória e história, o que fez com que a sociedade passasse a depender de lugares artificiais de rememoração.

Nora afirma que “a memória é vida” enquanto “a história é reconstrução”, definindo que a memória imaterial é espontânea, múltipla, afetiva, enquanto a material é monumentalizada.

 Ele afirma ainda que os lugares de memória surgem quando os meios de memória — como as tradições vivas — começam a desaparecer.

 Contudo, as festas populares tornam essa separação menos rígida, pois mantêm viva uma forma de rememoração que não precisa de mediação monumental.

A cultura de massa, analisada por Edgar Morin em “Cultura de Massa no Século XX”, por Adorno e Horkheimer em “Dialética do Esclarecimento”, por Walter Benjamin em “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica” e por Umberto Eco em “Apocalípticos e Integrados”, introduziu novas dimensões para o debate sobre memória.

 Morin assinala que a cultura de massa não apenas consome elementos da tradição, mas os transforma e devolve ao público em novas molduras simbólicas.     

Benjamin observa que a reprodutibilidade técnica democratiza o acesso à imagem, mas ao mesmo tempo dissolve a “aura” do ritual original.

Adorno sustenta que a indústria cultural tende a homogeneizar experiências e transformar tradições em mercadorias.

Contudo, Eco, em sua visão menos pessimista, sugere que a cultura pop também cria vínculos simbólicos novos, capazes de reintegrar elementos tradicionais ao consumo cotidiano.

Assim, as festas populares passam a existir simultaneamente em seus contextos originais e em versões midiáticas, televisivas, turísticas e globais.

 O carnaval brasileiro, por exemplo, torna-se espetáculo televisivo e produto cultural, mas mantém, em sua vivência de rua e em suas escolas de samba, um profundo vínculo com a ancestralidade afro-brasileira, com a memória da escravidão, com a resistência popular e com o sentido comunitário.

No cinema, a memória imaterial surge como tema privilegiado em obras que exploram tradições festivas, rituais e filiações afetivas. O filme “Coco” (2017), da Pixar, tornou globalmente conhecido o Dia dos Mortos, apresentando-o como ritual no qual a memória dos antepassados garante sua permanência simbólica.

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A trama do filme incorpora os princípios da memória comunicativa descritos por Aleida Assmann, para quem a memória transmitida oralmente nas famílias e nas comunidades é um dos pilares fundamentais da identidade.

Em “Bacurau” (2019), Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles exibem uma comunidade que se reconhece por meio de narrativas orais, música e ritualizações de resistência, em consonância com as análises de Paul Ricoeur em “A Memória, a História, o Esquecimento”, onde o autor sublinha que a memória é sempre uma narrativa situada, atravessada por disputas de poder. Já filmes como “Blade Runner 2049” (2017) e “Mad Max: Fury Road” (2015) exploram ficcionalmente a possibilidade de memórias fabricadas, manipuladas ou esvaziadas, reforçando, por contraste, o valor da memória imaterial ligada às práticas comunitárias.

Essas abordagens dialogam intensamente com a psicanálise.

Freud, desde seus “Estudos sobre a Histeria” até “O Inconsciente”, demonstra que a memória não é arquivo estático, mas reconstrução constante.

Imagem de Wikipedia

 

A lembrança é trabalhada pela censura, pela repetição e pelo desejo.

Em “Além do Princípio do Prazer”, Freud introduz a noção de compulsão à repetição, que pode ser interpretada como mecanismo de elaboração psíquica do trauma.        

Essa repetição, deslocada para o campo social, ajuda a explicar a função catártica das festas populares, que repetem rituais ancestrais como forma de organizar o psiquismo coletivo.

Lacan, ao definir que “o inconsciente é estruturado como linguagem”, sugere que a memória depende do simbólico, dos significantes que circulam na comunidade.

 As festividades populares, ao produzirem redes simbólicas compartilhadas — músicas, danças, narrativas, mitos — funcionam como organizadores psíquicos coletivos, aproximando-se do que Durkheim já chamava de “efervescência social”.

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A poesia, por sua vez, fornece uma chave sensível para compreender a potência da memória imaterial.

Em Cecília Meireles, o passado aparece como canto e vento, como eco de tradições, como em “Romanceiro da Inconfidência”, onde a história se torna balada popular e a oralidade transforma fatos em mito.

 Manuel Bandeira, em poemas como “Evocação do Recife”, recupera a memória afetiva da infância e das festas de rua, em que a cidade se torna corpo e voz.

 João Cabral de Melo Neto, em “Morte e Vida Severina”, transforma a memória coletiva do sertão em estrutura dramática, fazendo do maracatu, do vilancete e da fala cantada elementos que sobrevivem como memória imaterial do Nordeste.

 Já Milton Hatoum, em “Dois Irmãos”, trabalha com memórias familiares que se entrelaçam com tradições culturais, enquanto Mia Couto, em “Terra Sonâmbula”, cria uma tessitura poética na qual a memória das guerras se conserva nos cantos, nos avós e nos mitos.

Conceição Evaristo, com sua escrita do vivido — a escrevivência — inscreve a memória das mulheres negras como força histórica e literária que desafia o apagamento.     Sua obra dialoga profundamente com as formulações de Andreas Huyssen, que em “Seduzidos pela Memória” afirma que a contemporaneidade vive uma “hipertrofia memorial”, mas que somente as memórias corporais, sensíveis e comunitárias conseguem resistir ao esquecimento acelerado.

Comparar memória material e imaterial, portanto, não significa opor termos excludentes, mas reconhecer suas funções complementares.

 A material fornece estabilidade, registro e documentação; a imaterial, movimento, afeto e recriação.

As festividades populares exemplificam essa convivência: elas são, simultaneamente, performance viva e arquivo simbólico.

Ao reunir teoria histórica, psicanálise, cinema, poesia, cultura pop e estudos contemporâneos, percebe-se que a memória imaterial é uma das maiores fontes de resistência cultural.

 Ela ultrapassa gerações porque se reinventa, porque vive no corpo, na voz, na música e no gesto.

 Como afirma Ricoeur, “a memória é a guardiã da identidade”, e essa guarda se realiza, sobretudo, naquilo que as comunidades celebram.

A ampliação da reflexão sobre memória imaterial, sobretudo no entrecruzamento entre festividades populares e os novos regimes de sensibilidade da contemporaneidade, pode ser aprofundada ao mobilizar outros teóricos da cultura, da sociedade, da antropologia e da filosofia que reforçam a importância da permanência ritualizada como forma de resistência aos processos históricos de esquecimento.

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Maurice Halbwachs, em “A Memória Coletiva”, estabelece que a memória não é atributo individual, mas construção social, compartilhada por grupos e moldada pelas interações entre pessoas.

Ao afirmar que “lembramos porque pertencemos”, Halbwachs ilumina a função das festas populares como estruturas de pertencimento, pois nelas a memória é atualizada em um contexto coletivo, no qual o indivíduo se reconhece como parte de uma continuidade.

Halbwachs explica também que cada grupo social seleciona aquilo que deseja lembrar e aquilo que decide esquecer, e as festividades funcionam como mecanismos privilegiados dessa seleção, preservando determinados gestos, símbolos, cantos e narrativas enquanto outras práticas desaparecem.

Assim, a memória imaterial não é apenas transmissão espontânea: ela é uma construção ativa, atravessada por disputas entre grupos, entre o tradicional e o moderno, e entre as forças da globalização e da memória local.

No campo da antropologia, Clifford Geertz contribui significativamente ao pensar as festas como “textos culturais” que podem ser interpretados como sistemas simbólicos.

 Em sua análise clássica do combate de galos balinês, Geertz demonstra que o ritual é uma forma condensada de narrativa social, na qual as identidades e tensões da comunidade são representadas simbolicamente.

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A mesma lógica serve para compreender o carnaval, as congadas, as festas do Divino, as festas indígenas de iniciação, os reisados e outras celebrações populares, pois cada uma delas constitui uma espécie de dramaturgia social que revela valores, conflitos e hierarquias.

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Victor Turner, por sua vez, com sua teoria dos ritos de passagem e da “communitas”, amplia essa reflexão ao afirmar que as festividades criam um momento de suspensão das estruturas formais, no qual os participantes experimentam uma intensidade comunitária e igualitária.

Essa “communitas” é um espaço de renovação social e emocional, e reforça a ideia de que a memória imaterial é inseparável da experiência do corpo, do encontro e da coletividade.

No campo da filosofia, Henri Bergson é fundamental ao estabelecer, em “Matéria e Memória”, que a memória não é simples registro do passado, mas força ativa que interfere diretamente no presente.

Bergson diferencia a memória-hábito, ligada aos costumes e repetições inconscientes, da memória pura, ligada à evocação consciente do passado.

Essa distinção ajuda a compreender que muitas práticas festivas operam como memória-hábito, pois são realizadas mesmo sem plena consciência de sua origem histórica, mas também como memória pura, quando seus praticantes conscientemente evocam significados ancestrais.

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Gilles Deleuze, em seus estudos sobre o cinema e sobre Bergson, retoma essa ideia propondo que a memória é matéria virtual que se atualiza continuamente.

 Para Deleuze e Guattari, em “Mil Platôs”, a memória imaterial possui uma lógica rizomática: ela se expande, se conecta, se transforma, em redes e trajetórias imprevisíveis, algo perfeitamente visível na circulação global das festas populares e na maneira como influenciam estéticas contemporâneas da música, da moda, da dança e da cultura pop.

Ao considerar a relação entre memória imaterial e práticas culturais do presente, não se pode ignorar a contribuição de Michel de Certeau.

Em “A Invenção do Cotidiano”, Certeau apresenta o conceito de táticas, formas criativas pelas quais os sujeitos subvertem estruturas de poder e reinventam espaços.

 As festividades populares podem ser compreendidas como táticas coletivas que, muitas vezes, desestabilizam a ordem institucional ou política.

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 Ao ocupar ruas, praças e igrejas, as comunidades reinventam o sentido desses espaços, criando zonas de liberdade simbólica.

As festas, portanto, são não apenas formas de memória, mas estratégias de sobrevivência cultural.

Marcel Mauss, em seu estudo sobre a dádiva e sobre as técnicas do corpo, reforça que práticas culturais se transmitem por imitação, repetição e corporeidade, sendo a festa um ambiente privilegiado desse aprendizado sensível.

A dádiva ritual, as oferendas, os cânticos e os presentes simbólicos dos cortejos são expressões da memória que se transmite pela experiência compartilhada.

No campo da sociologia contemporânea, Zygmunt Bauman, ao falar da “modernidade líquida”, identifica que vivemos um tempo de vínculos frágeis e memórias voláteis.

 Em contraposição a essa liquidez, as memórias imateriais das festividades funcionam como âncoras comunitárias.

Bauman explica que a sociedade global tende a dissolver tradições e criar identidades flexíveis, mas as festas resistem a essa dissolução ao proporcionar experiências de continuidade e permanência.

Anthony Giddens, por sua vez, ao falar da reflexividade da modernidade, indica que as identidades são construções reflexivas, constantemente reinventadas.

As festas populares participam dessa reinvenção ao oferecer repertórios simbólicos que possibilitam novas formas de autorreconhecimento.

No campo da história cultural, Roger Chartier destaca que as práticas culturais são sempre mediadas por modos de apropriação.

Isso significa que as festas podem ser vividas de maneiras diferentes por diferentes grupos sociais, e que a memória imaterial não é homogênea.

 Peter Burke, em seus estudos sobre a cultura popular da Europa moderna, demonstra que as festas foram historicamente espaços de negociação entre culturas eruditas e populares, entre ordem e subversão.

 Essa ambivalência permanece até hoje.

Carlo Ginzburg, com seu conceito de “paradigma indiciário”, mostra que vestígios aparentemente menores — como cantos, provérbios, rituais — são fundamentais para compreender a história das mentalidades. A memória imaterial, portanto, não é objeto secundário, mas fonte privilegiada para o historiador atento às sutilezas.

Na América Latina, autores como Ángel Rama, Néstor García Canclini e Jesús Martín-Barbero contribuem para entender como a cultura popular se articula com a modernidade.

García Canclini, em “Culturas Híbridas”, defende que não há uma oposição entre tradição e modernidade, mas processos de hibridação contínuos.

 As festas populares, assim, incorporam elementos da tecnologia, da mídia e da globalização sem perder seus significados profundos.

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Martín-Barbero argumenta, em “Dos Meios às Mediações”, que a cultura é uma trama de mediações, e que a memória imaterial circula por meios comunicativos diversos, desde a oralidade até a televisão e a internet.

Ángel Rama, com o conceito de “cidade letrada”, mostra como as elites históricas tentaram controlar as narrativas culturais, enquanto a cidade popular manteve vivas outras formas de memória.

As festas surgem como um dos espaços em que a cidade popular afirma sua autonomia simbólica.

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No campo da antropologia brasileira, Roberto DaMatta é central ao analisar o carnaval e outras festividades, especialmente em “Carnavais, Malandros e Heróis”. DaMatta observa que a festa opera como inversão ritual e como narrativa identitária do Brasil, onde se dramatizam tensões entre indivíduo e sociedade.

 Hermano Vianna, em “O Mistério do Samba”, mostra como o samba, a partir das festas e tradições da cultura negra, torna-se parte da identidade nacional, articulando memória imaterial e construção política do Brasil moderno.

 Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro”, destaca que as festas populares são espaços de síntese criativa das matrizes indígenas, africanas e europeias que compõem a formação do país, e que sua permanência revela a força da memória coletiva.

A ampliação dessa perspectiva permite incluir também pensadores do pós-colonialismo, como Homi Bhabha, Gayatri Spivak e Dipesh Chakrabarty.

Bhabha, em “O Local da Cultura”, argumenta que a identidade é sempre produzida no entre-lugar, no espaço híbrido entre tradição e modernidade.

 As festas populares, nesse sentido, constituem territórios híbridos por excelência.

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Spivak chama atenção para a necessidade de ouvir as vozes subalternas; muitas festividades, especialmente de origem indígena e africana, são precisamente vozes subalternas que resistem pela memória.

Chakrabarty, em “Provincializar a Europa”, defende que outras concepções de tempo — não apenas o tempo linear ocidental — devem ser consideradas; as festas operam com tempos cíclicos, ancestrais e míticos, que desafiam a narrativa histórica eurocêntrica.

No campo da fenomenologia, Merleau-Ponty oferece uma reflexão valiosa sobre corpo e percepção.

Para ele, a memória está inscrita no corpo, nos gestos, nas posturas, nos ritmos da experiência.

 As festas populares são laboratórios da corporeidade, nas quais o corpo se torna meio de transmissão histórica.

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 Jean-Luc Nancy, em “A Comunidade Inoperante”, propõe que a comunidade é antes uma partilha sensível do que uma instituição.

A festa é essa partilha no seu grau máximo: um estar-junto que não precisa de finalidade além da experiência compartilhada.

Com a ascensão da tecnologia digital, a memória imaterial encontra novas condições de transmissão. Henry Jenkins, em “Cultura da Convergência”, explica como práticas tradicionais são reapropriadas em ambientes digitais, multiplicando significados.

As festas, antes locais, tornam-se globais pela circulação de vídeos, imagens e trilhas sonoras.

 Sherry Turkle, ao discutir a formação do “self” na era digital, sugere que a identidade contemporânea é múltipla e fragmentada, mas que experiências comunitárias ainda são fundamentais para dar coesão ao sujeito.

 As festas desempenham esse papel, mesmo quando experimentadas através de mídias.

Pierre Lévy, em “Cibercultura”, mostra que a memória coletiva se expande com as tecnologias digitais, criando novas modalidades de arquivo vivo.

No campo da estética, Hans-Georg Gadamer — especialmente em “Verdade e Método” — argumenta que a tradição não é peso morto, mas diálogo contínuo entre passado e presente.

 A hermenêutica gadameriana revela que compreender uma festa, um canto ou um rito implica participar do horizonte simbólico que o gerou.

 Paul Zumthor, estudioso da oralidade, destaca que a performance é o modo por excelência da memória imaterial.

 A voz, o ritmo, o corpo em ato constituem a preservação viva do passado. Mikhail Bakhtin, ao tratar do carnaval medieval, mostra que a festa cria um espaço de paródia, inversão e crítica social.

Sua teoria da “carnavalização” evidencia que as festas são linguagens alternativas, capazes de contestar poderes instituídos.

A lógica da memória imaterial também se manifesta nas literaturas contemporâneas que revisitam tradições.

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 José Saramago, em romances como “Memorial do Convento”, apresenta festas populares como núcleos de resistência simbólica.

 Gabriel García Márquez, em “Cem Anos de Solidão”, transforma a cultura popular do Caribe em cosmogonia literária.

Jorge Amado insere festas baianas em suas narrativas como elementos estruturantes da identidade afro-brasileira.

 Clarice Lispector, em chave introspectiva, revela como a memória se inscreve na experiência sensível do cotidiano.

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A poesia de Adelia Prado, por exemplo, celebra o sagrado no comum, recuperando memórias afetivas da roça, das procissões e dos costumes familiares.

 A literatura indígena contemporânea, representada por autores como Ailton Krenak, Daniel Munduruku e Eliane Potiguara, reafirma a memória imaterial de seus povos como força espiritual e política, apresentando festas, mitos e narrativas ancestrais como caminhos para a preservação da identidade.

Dessa maneira, a memória imaterial se revela não apenas como categoria cultural, mas como força transversal que atravessa história, filosofia, antropologia, sociologia, literatura, psicanálise, estética e estudos da mídia.

 Ao dialogar com tantos campos, torna-se evidente que as festividades populares constituem um dos mais potentes laboratórios de experiência comunitária, capazes de articular passado e presente de forma criativa.

Nelas, a memória imaterial manifesta sua vitalidade: ela não está encerrada em monumentos, mas respira no corpo que dança, no canto que se repete, na comida que se prepara, nas ruas que se enchem de cores, nos gestos que se renovam.

A memória material fixa, mas a imaterial reinventa; a material documenta, mas a imaterial encarna; a material preserva, mas a imaterial vive.

E é justamente nessa vitalidade que se encontra a força que mantém sociedades inteiras conectadas à sua história profunda.

A Congada, manifestação profundamente enraizada nas tradições afro-brasileiras, constitui um dos exemplos mais vigorosos da memória imaterial transmitida por meio de festividades populares.

 Misturando devoção católica, elementos da cultura banto e iorubá, teatralidade, canto e dança, a Congada é uma celebração marcada pela coroação simbólica de reis negros e por um conjunto de rituais que expressam resistência, ancestralidade e pertencimento.

 Em sua essência, a Congada é uma “litania performática da memória”, operando como espaço de transmissão cultural e de elaboração coletiva da história da diáspora africana no Brasil.

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 Essa dimensão se torna evidente quando se considera o que Paul Gilroy chama, em “The Black Atlantic”, de “memória atlântica”, ou seja, um repertório comum de práticas culturais de origem africana que se reconfiguram nos territórios onde se estabeleceram populações negras.

A Congada é uma dessas reconfigurações, misturando catolicismo popular, mitologias de reis africanos e memórias da escravidão.

Antropólogos como Roger Bastide, em “As Religiões Africanas no Brasil”, já haviam destacado que manifestações como a Congada representam formas de resistência simbólica, nas quais elementos africanos sobrevivem e se reinventam dentro de estruturas religiosas coloniais.

 Bastide lembra que, embora a Congada frequentemente se apresente como festa cristã, sua essência é africana na forma de dançar, cantar e organizar o cortejo.

 Já Edison Carneiro, em “Negros Bantos”, observa que a Congada cristaliza valores comunitários, especialmente a solidariedade e a reciprocidade, funcionando como ritual de reencantamento da vida coletiva.

Leda Maria Martins, em seus estudos sobre teatralidades negras, das quais se destacam “Afrografias da Memória”, mostra que a Congada é performance que inscreve no corpo a memória histórica da escravidão e da realeza negra.

Martins analisa o “tempo espiralar” das tradições afro-diaspóricas, no qual passado, presente e futuro se enroscam.

A Congada é expressão plena desse tempo espiralar: a cada ato performado, os congadeiros reencenam episódios simbólicos de sua ancestralidade africana, enquanto criam memórias afetivas do presente.

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Essa lógica da repetição ritual, própria da memória imaterial, aproxima-se também das formulações de Victor Turner acerca dos rituais de passagem e da “communitas”. Turner explica que os rituais produzem momentos de suspensão das hierarquias sociais e criam uma experiência de união emocional e espiritual.

 A Congada, ao organizar cortejos, coroações e encenações, cria um sistema de papéis simbólicos que articula estrutura e antiestrutura.

 É festa, mas é também ritual; é performance, mas é também arquivo vivo.   

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Marcel Mauss ajuda a compreender que a Congada transmite técnicas do corpo que são aprendidas pela prática e pela convivência. As coreografias, os gestos com espadas e bastões, o cantar responsorial entre mestre e coro são “saberes inscritos” que se difundem por imitação e repetição.

Do ponto de vista da história cultural, a Congada se insere no que Carlo Ginzburg chamaria de “indícios da cultura subalterna”, pois ela preserva traços e símbolos que não aparecem nos documentos oficiais, mas que revelam práticas e mentalidades das populações negras excluídas do registro hegemônico.

 Peter Burke aponta que as festas populares são espaços de negociação entre práticas eruditas e populares; a Congada exemplifica esse encontro entre o catolicismo oficial e a religiosidade afro-brasileira.

Roger Chartier acrescentaria que as formas de apropriação variam conforme os grupos, e isso se verifica na diversidade das Congadas brasileiras — em Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Paraná e outros estados, cada Congada possui variações próprias de canto, vestuário e narrativa, revelando adaptações locais.

No campo da psicanálise e da estética, a Congada pode ser lida como processo de elaboração coletiva. Freud afirma que certos rituais operam como repetição transformadora, mecanismo pelo qual a comunidade reelabora traumas históricos.

 A Congada contém, em sua estrutura simbólica, uma narrativa de perda, dor e resgate — a coroação dos reis negros, o conflito teatralizado entre grupos, a evocação dos antepassados — elementos que funcionam como elaboração de um passado marcado pela violência da escravidão.

Lacan, ao enfatizar que o simbólico ordena a subjetividade, permite entender que a Congada estrutura para os congadeiros um lugar no campo do simbólico: participar da festa significa ocupar uma posição de pertencimento e reconhecimento. Paul Ricoeur, em “A Memória, a História, o Esquecimento”, ajuda a compreender que a Congada é um dispositivo de narrativa coletiva, no qual a comunidade dá sentido ao passado e reafirma sua identidade.

A Congada também dialoga com a literatura e com o cinema. Em “Grande Sertão: Veredas”, João Guimarães Rosa evoca imagens de cortejos e festas que remetem às Congadas do interior de Minas Gerais.

 De forma mais direta, autores como Conceição Evaristo, Maria Firmina dos Reis e Ana Maria Gonçalves exploram memórias afro-brasileiras que dialogam com a performatividade da Congada.

Na música, grupos como o congado mineiro do Rosário, o Moçambique e o Candombe influenciam artistas contemporâneos que resgatam ritmos tradicionais.

No cinema, documentários como “Congado – Reinado de Nossa Senhora do Rosário” e registros de congadeiros mostram como a cultura pop e a indústria audiovisual ajudam a divulgar a Congada, inserindo-a em circuitos mais amplos de memória e representação.

A Congada também dialoga com o pensamento de Néstor García Canclini acerca da hibridez. Canclini explica que não existe tradição pura, pois a modernidade atualiza continuamente as práticas culturais.

A Congada é exemplo vivo dessa dinâmica: embora mantenha elementos seculares, incorpora instrumentos modernos, cores contemporâneas, microfones e caixas de som, criando uma estética híbrida que não dilui, mas fortalece sua identidade.

Martín-Barbero acrescenta que as mediações culturais — rádio, televisão, internet — contribuem para transformações nas formas de celebração da Congada, permitindo que grupos distintos troquem repertórios, preservando a tradição enquanto a reinventam.

 A partir do pensamento de Stuart Hall, pode-se compreender a Congada como afirmação identitária de matriz negra, pois Hall lembra que as identidades culturais são formadas no entrecruzamento entre diáspora, resistência e reinterpretação.

Do ponto de vista filosófico, Jacques Derrida oferece contribuições essenciais ao propor o conceito de hauntologia em textos como “Espectros de Marx”. A Congada é, de certa forma, uma prática hauntológica: nela, o passado retorna como espectro, presença ausente que insiste em se manifestar no corpo da comunidade.

Derrida afirma que o espectro não é fantasma, mas memória que ainda não foi inteiramente resolvida.

A Congada corporifica essa memória irresoluta da diáspora africana, tornando visível aquilo que muitas vezes é silenciado nos discursos oficiais.

 Jean-Luc Nancy, ao discutir a ideia de comunidade, diria que a Congada é forma de “partilha do sensível”, ecoando também o pensamento de Jacques Rancière, para quem a estética é sempre política. A Congada distribui e reorganiza o sensível: sons, cores, ritmos, coroações, gestos — tudo produz uma política da memória que afirma a existência negra no Brasil.

Por fim, a Congada sintetiza de maneira exemplar a força da memória imaterial. Ela é simultaneamente história viva, rito, espetáculo, arquivo, performance, resistência e celebração.

Se a memória material precisa de monumentos, a Congada é ela própria monumento vivo, que respira, dança e canta.

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Seu valor cultural está justamente no fato de que não depende de pedras ou arquivos, mas de corpos que se movimentam, vozes que ecoam, gestos que se repetem e significados que se renovam.

A Congada exemplifica, como poucas manifestações, aquilo que Leda Martins chama de “corpo-arquivo”: o corpo como lugar onde a memória se deposita, se reinventa e se transmite.

Já os galos balineses, tal como magistralmente interpretados por Clifford Geertz em seu célebre ensaio “Deep Play: Notes on the Balinese Cockfight”, constituem um dos exemplos mais ricos da antropologia interpretativa contemporânea e ocupam posição central no debate sobre memória imaterial, performance ritual, simbolismo e representação coletiva.

Para Geertz, o combate de galos — longe de ser mero entretenimento — funciona como um “texto cultural”, uma narrativa densa na qual a sociedade balinesa se lê, se representa e se interpreta. O que está em jogo não são apenas animais lutando, mas cosmogonias sociais, reputações, afetos, hierarquias, emoções e estruturas profundas de significação., como a Congada, o maracatu ou as festas de reis africanas no Brasil, o combate de galos balinês é um modo de inscrição da memória imaterial em performances corporais.

Geertz argumenta que o combate de galos é um “jogo profundo” porque envolve apostas simbólicas intensas: o que se arrisca não é dinheiro, e sim prestígio, honra, pertencimento e identidade.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 09/12/2025″

 

A memória imaterial da comunidade balinesa é ativada a cada combate, pois o galo é extensão do próprio homem — um “duplo metafórico”, como diria Lévi-Strauss ao falar da função simbólica dos animais para os grupos humanos.

O animal é signo; o combate é narração; a aposta é ritual de sociabilidade.   Cada família, cada aldeia, cada linhagem projeta no animal sua própria memória coletiva. Assim, quando dois galos se enfrentam, enfrentam-se duas histórias, duas constelações afetivas, duas tradições. O galo é o arquivo vivo de sua linhagem, simbolizando ao mesmo tempo virilidade, honra e continuidade.

A dimensão da memória imaterial aparece com clareza quando Geertz mostra que o combate de galos expressa códigos sociais que não estão explicitados verbalmente, mas que são compreendidos intuitivamente pela comunidade.

Isso se aproxima de Marcel Mauss e de sua teoria das “técnicas do corpo”, pois toda a preparação do galo — o modo como é alimentado, treinado, massageado, acariciado ou exibido — funciona como transmissão tácita de um saber ancestral que se perpetua através da prática. Victor Turner contribuiria indicando que o combate funciona como “drama social”, uma encenação na qual se atualizam tensões comunitárias, tal como ocorre nos rituais de passagem e nas festas populares.

A psicanálise também ajuda a compreender por que a luta de galos é tão carregada de significados.

 Freud, ao discutir a sublimação e a transferência de energia pulsional para objetos simbólicos, permite interpretar a identificação entre homens e galos como processo de investimento libidinal.

O galo encarna a virilidade idealizada, a energia vital e o desafio ao destino.           

Lacan, ao enfatizar o papel do olhar e do imaginário, sugere que o galo funciona como “imagem especular” do sujeito balinês: ao observar a luta, o homem vê a si mesmo — sua coragem, sua agressividade, seu medo, sua honra. O combate, portanto, é arena de projeções, onde o inconsciente coletivo se manifesta.

A análise de Geertz dialoga ainda com Lévi-Strauss, que afirma em “O Pensamento Selvagem” que os rituais funcionam como mecanismos de classificação simbólica. A luta de galos classifica, organiza e hierarquiza a sociedade balinesa, tornando visíveis as distinções sociais que, no cotidiano, são vividas de forma mais difusa.

A memória imaterial opera justamente nessa camada, onde práticas aparentemente simples codificam estruturas mentais profundas.

Pierre Bourdieu complementaria essa visão ao falar do habitus: participar do combate de galos — seja como apostador, como treinador, como espectador ou como criador — forma parte de um conjunto de disposições corporais e mentais que constroem a identidade prática dos indivíduos.

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A estética do combate também revela seu caráter de arquivo imaterial. O galo, com penas coloridas, crista ereta, movimentos rápidos e ritmados, compõe uma coreografia que se aproxima daquilo que Paul Zumthor chamaria de “performance poética”.

A luta é espetáculo, mas é também narrativa estética. O som das apostas, o tamborilar dos pés, o murmúrio da multidão — tudo isso constitui um ambiente sonoro que funciona como memória auditiva da comunidade.

O combate de galos é, nesse sentido, performance total, na qual corpo, som e olhar se entrelaçam. A poética da luta — sua velocidade, seu drama, sua imprevisibilidade — lembra as descrições que García Márquez faz do real maravilhoso latino-americano, nas quais o ritual e a vida cotidiana se misturam.

Do ponto de vista da sociologia contemporânea, Zygmunt Bauman, ao analisar a dissolução dos vínculos tradicionais na modernidade líquida, permitiria ler o combate de galos como prática que resiste à fluidez contemporânea, ancorando a comunidade em símbolos duráveis.

Anthony Giddens, ao discutir a reflexividade, indicaria que a luta de galos é espaço de autorrepresentação: o balinês se reconhece naquilo que celebra.

 Stuart Hall, ao tratar de identidades diaspóricas, sugere que tradições culturais não são estáticas, mas resultado de hibridizações; o combate de galos, embora antigo, se reinventa no turismo, nas mídias e na reinterpretação antropológica.

No campo da filosofia, Nietzsche via no combate e no risco uma forma de afirmação da vida, e essa perspectiva ecoa no modo como a comunidade balinesa vivencia a luta de galos como exaltação do vigor vital.

Heidegger, ao falar do “ser-no-mundo”, mostraria que a luta insere o sujeito em uma temporalidade compartilhada, na qual a repetição ritual cria continuidade histórica.    Derrida, com sua “hauntologia”, ajuda a perceber que a luta de galos é ritual espectral: a memória dos antepassados e dos galos antigos assombra cada novo confronto, como se cada animal carregasse consigo espectros de lutas passadas.

A cultura pop contemporânea também se apropria da estética dos galos balineses.

Filmes e animações representam lutas de animais como metáforas de honra e destino — de “Kung Fu Panda” a certas cenas de “Mulher-Gato” ou “Kill Bill”, onde a estética coreográfica remete à luta ritualizada.

 Em muitos videogames, personagens e criaturas inspiradas em galos guerreiros retomam, inconscientemente, essa tradição simbólica de masculinidade ritualizada, reforçando a tese de Umberto Eco de que símbolos antigos reaparecem transfigurados na cultura pop.

Assim, os galos balineses exemplificam de maneira extraordinária como a memória imaterial se manifesta em uma prática que é ao mesmo tempo espetáculo, ritual, narrativa identitária, arquivo corporal e metáfora social.

O combate de galos é lugar onde passado e presente se encontram, onde a comunidade lê a si mesma e onde se atualiza um patrimônio simbólico que não precisa de museus ou documentos para continuar vivo.

 Como na Congada, no maracatu, nas festas afro-brasileiras e nas procissões católicas, o que se vê é um tipo de memória que pulsa, respira, luta — e permanece apesar das transformações históricas.

Por CLAYTON ZOCARATO

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