A sombra que nos tece
Por Márcia Neves
Um dia,
A vida nos convidou a pertencê-la
E foi nos mostrando como ser.
Apresentou-nos o olhar
E nos despertou à própria natureza.
À natureza das coisas, aguçou nossos sentidos
E nos fez sensíveis.
Ganhamos o universo
E conquistamos o mundo.
Entre uma natureza e outra,
Deixou em nós
Todas as percepções
Para ganharmos o infinito
Naturalmente por ela mesma.
E nos fez criança,
Para a enxergarmos,
Exatamente como ela é
Uma frondosa copa, da qual somos parte,
Sendo folhas e frutos da própria sombra.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 03/12/2025″
Apreciados leitores da Coluna Nossa Literatura, virtudes poéticas
Agradeço imensamente por estarem aqui conosco! Nossa Literatura: virtudes poéticas é uma coluna originalmente voltada ao que faz sentido nas entrelinhas que lemos, àquilo que eleva nossas reflexões, questionamentos e nos submete ao prazer literário pela nossa e pela essência da vida.
É com alegria que iniciamos mais um ano nesta jornada literária, desta vez, nesta edição, celebrando memórias que atravessam gerações e dão sentido aos dias atuais. Cada verso, poema, texto que aqui compartilhamos são fragmentos de um passado rico, que nos conecta com o presente e nos ensina sobre quem somos.

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Todo início é como um recomeço, um processo vital e abundante no ciclo da vida. Iniciar 2026 apresentando a vocês mais uma edição desta coluna na revista internacional The Bard é como respirar despropositadamente a vida, querendo-a sensata, só e simplesmente, pelo belo que as palavras nos inserem e a leveza que nos é exigida para termos a memória real “das coisas”. Afinal, para que razão diante do que é?
É singular e cativante o modo como a revista The Bard nos envolve nas raízes de nossa história, para nos devolver de forma completamente tecida, nas memórias que se eternizam ao longo do tempo, e que formam a identidade de nossas culturas, de nossa nação.
Entre todas as idas, o recomeço é uma delas. Nenhum recomeço se esvazia, e nenhum deles parte do zero. Sempre há espaço em nossas bagagens para aquilo que confronta nossas viagens, convidando-nos a retroceder para reparar e seguir construindo narrativas que nunca se esgotam, ou nunca deveriam se esgotar. Sigamos, portanto, juntos em 2026, esvaziando e preenchendo nossas bagagens daquilo, somente daquilo que nos leva adiante e que a história e a literatura dão conta de sua vivacidade.

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Aqui, nesta edição, Nossa Literatura: virtudes poéticas tratou de refletir uma das memórias mais bonitas de nossa existência que, assim como muitas outras, fica camuflada, às vezes até esquecida, em meio à explosão capitalista que determina, desafortunadamente, o rumo de nossas comemorações: brincadeiras da infância. Se você nunca ouviu a frase: “Na minha época, não era assim…” essa leitura também é para você.
E como se brincássemos, leiamos!
O Brincar e a Literatura na construção da identidade de um povo
Brincadeiras da infância

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Para além do entretenimento, brincadeiras são parte das tradições culturais, reflexos da história de um povo e valores de uma sociedade que se constroem ao longo do tempo. E é interessante o quanto essas tradições, reflexões e valores culturais traçam identidades que delimitam regiões e desaguam no mesmo rio, carregando a história de nossa nação.
Certa vez, ao ouvir um cidadão indígena, em uma entrevista concedida a um documentário, em que dizia: “hoje as brincadeiras são diferentes, já não são mais como na minha infância”, fez-me pensar no quanto a vida é cíclica e na forma com que todas as gerações são responsáveis pelo tecer de nossa identidade cultural.
Brincar é parte fundamental da infância e desempenha um papel indispensável e intransponível nessa fase de cognição e desenvolvimento humano. Outrossim, brincadeiras se desenvolvem naturalmente, seja pela imitação do real nas experiências sociais, pela criatividade ou por incentivos de tudo e todos em torno do universo da criança. E, como a vida não para, tudo o que lhe compõe torna-se algo em constante mutação. Ocorre que, em meio a todas as mudanças que vão surgindo, advindas de novas gerações e realidades sociais, existem as memórias culturais que precisam ser reavivadas e mantidas ao longo do tempo para a preservação e fortalecimento da identidade de um povo.
Muitas brincadeiras acabam sendo universais, tidas como tradicionais; mas todas traçam elementos únicos que refletem a história e a cultura de uma comunidade. A exemplo, temos as cirandas (brincadeiras de roda), queimada, amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, passa o anel, e brincadeiras que incorporam histórias e personagens da literatura popular, como lendas, fábulas e contos que ajudam a reforçar valores e lições de vida.
Diante da necessidade do brincar e sua eficiência em fazer a criança aprender naturalmente, muitas brincadeiras surgem intencionalmente da interação com adultos que, ao envolver elementos da vida cotidiana, oferecem ensinamentos que favorecem o bem-estar social, por meio da cooperação, criatividade e competitividade, unindo-os no exercício necessário de equilíbrio para a construção única de sua história na história de todos. Surge, então, a responsabilidade dos adultos por atuar conscientemente no mundo das infâncias, permitindo que as crianças, além da diversão, explorem ideias e mundos possíveis a partir do que já existe, sendo apresentado a elas.

O que a literatura e a poesia têm a ver com isso?
É comum que histórias literárias ofereçam temas centrais na identificação de um povo, por meio de suas crenças e costumes, bem como de sua relação familiar e conexão com a natureza, o que já é próprio da contação de histórias. Não há outra forma de tornar viva a história de uma comunidade, senão por meio da reflexão-prática de seus próprios hábitos, crenças e costumes.
Perder de vista a identidade de uma comunidade é como perder-se do universo inteiro. Os pés do homem que pisa a terra que o sustenta carregam em si a essência do que lhe atribui sentido ao ato de viver.
Nesse sentido, a literatura se encarrega de nutrir o homem, por meio de suas narrativas orais e escritas, de experiências coletivas que fazem de cada um universo completo. É preciso valorizar práticas que mantêm o homem conectado com a natureza que o mantém vivo na história de um povo, a começar pelas brincadeiras que o formam.

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É na infância que está o mundo completo de um adulto. A infância é o mundo mais cuidadoso por onde um adulto deve andar. A infância não é um espaço para qualquer um adentrar. Não é um espaço para caber comparações. Não é à toa que a infância é nosso lugar da saudade. Todos lembramos da infância com saudade, embora nem sempre a saudade faça notícia boa para todos. Mas é para onde todos voltaríamos sem medo, se fosse uma viagem de volta possível.
“No meu tempo, não era assim”. Que bom que no nosso tempo não era assim! Isso reforça a percepção de que não ficamos parados no tempo. E que as crianças de hoje podem entender a história que as insere em sua própria história. Que elas possuem um repertório muito maior que o nosso. Que são a continuação da sensibilidade de uma geração que precisa ter sensibilidade para inseri-las num contexto social divertido e confiável, para terem capacidade de seguir moldando histórias, mantendo e aprimorando identidades culturais. Para a vida continuar fazendo sentido e sendo boa também para elas.

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A infância é a poesia mais vívida de um ser humano. O que vemos em uma criança não é ingenuidade, é fidelidade à vida, é a tal simplicidade que perdemos diante dos moldes sociais inventados. E por que não celebrar a infância? Festividades marcam memórias, por isso, memórias nunca se perdem nas lembranças. Comemorar o dia das crianças é celebrar a vida pela abundância da poesia. E quem tem dúvidas disso, leia todas as obras de Manoel de Barros. O que me incomoda, atualmente, no Dia das Crianças é não poder celebrar a infância, é não poder brincar. É ver a sociedade reforçar mais e mais o luxo do lixo que destruirá, feito bomba atômica, a infância de todos nós. Quando deveríamos consumir a vida, deixamos o mundo nos consumir e, tão ligeiramente, perdemos a poesia mais bonita da vida, sem direito à volta. Por que não celebramos a infância? Já que festividades são memórias vivas da história de um povo, por que não celebramos a fase que nos conecta com todas as gerações?

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O fato é que o “mundo globalizado” apresenta “vaidades” que desafiam todas as identidades. É inegável que a homogeneização cultural, que se forma constantemente por conta da indústria, faz com que briguemos por manter a diversidade cultural para além de nosso próprio contexto. Nesse cenário, VIVA À LITERATURA, À ARTE E À POESIA que nos permitem olhar a vida com discernimento, empatia e amor, ampliando nossos horizontes e compreensão do que foge do nosso alcance.
Brincadeiras, em um contexto formal ou informal, são cruciais para fomentar o desenvolvimento humano, inclusive cognitivamente. A literatura, portanto, possui ferramentas que nos garantem expandir e eternizar vivências dessa natureza. Assim, entre o antes e o depois, a vida acontece; e ao explorarmos a coluna Nossa Literatura: virtudes poéticas, fica o convite, imaterial do que não cabe em monumentos, à reflexão e celebração do que nos diverte lembrar e transmitir incansavelmente: a infância e suas brincadeiras.

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Escritora, professora, poeta, haijin e colunista das Revistas The Bard e Strophe.
Por MÁRCIA NEVES
