CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Crônica: A sacola e a mulher

CRÔNICAS TONS DO COTIDIANO – Crônica: A sacola e a mulher

Quando ligamos o botão “modo robô ativado”, raramente nos damos conta de olhar o que acontece a nossa volta. Podemos até olhar, mas enxergar… nem sempre. “Se podes ver, repara. ” já diz o adágio popular.

A questão é essa: o quanto ficamos desatentos ao que ocorre em nosso entorno e até que ponto essa cegueira funcional nos desconecta de nós e dos outros.

Nas próximas páginas, compartilho uma experiência que me marcou profundamente e, embora singela e pontual, tomara que chegue ao seu coração.

Drummond já enunciou: veja:

 

No meio do caminho 

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 09/12/2025″

 

Observe, a pedra pode ser exatamente o material de que você precisa para construir o passo seguinte… a pedra – em si – não é ruim… ser ruim ou não é interpretação nossa. Pode ser um obstáculo assim como pode ser uma bênção… Afinal, o que fazemos com o que nos acontece? Atente!

 

 

A sacola e a mulher

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 09/12/2025″

 

Quase sempre, vivemos em estado defensivo e nem nos damos conta.  Aconteceu há muitos anos, quando eu era adolescente, na época em que minha avó estava doente.

Voltava da feira num sol escaldante, com sacolas pesadas, repletas de frutas, legumes e alguns pastéis. Tinha um imenso e extenuante desafio: subir a ladeira que daria acesso à rua onde eu morava.

Pois bem: ia eu, num esforço só, carregando todo aquele peso e de mau humor. Até já estava resignada e havia avançado alguns metros. De repente, o inesperado.

Uma mulher desconhecida, sem anúncio prévio, simplesmente tirou as sacolas da minha mão e, como se nada de estranho houvesse acontecido, prosseguiu andando ao meu lado inabalavelmente. Susto e medo: ladra? Louca? Corro atrás dela? E se me bater?

Nada disso: quando indaguei o motivo daquela atitude impetuosa, falou apenas que queria ajudar, porque as sacolas pareciam pesadas… Nunca me esqueço da cena e nem do meu espanto e, sempre que relembro da ocorrência inusitada, surgem desdobramentos em mim.

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Inicialmente, considerei a atitude da mulher interessante porque não nos damos conta de que somos observados: os outros estão atentos e, algumas vezes, dispostos a minimizar nosso sofrimento. É raro, convenhamos, especialmente nas grandes cidades, que nos detenhamos para olhar o outro. Ainda mais para nos dispor a ajudá-lo sem expectativas. Então, fui presenteada! Você reconhece os presentes que a vida lhe oferta?

Aliás, nesse contexto, expectativa parece uma palavra-chave: ela, às vezes, nos rouba a espontaneidade, nos paralisa diante de um suposto – e quase sempre – fantasioso “o que vai pensar de mim? ”.

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Singular foi o modo como a senhora resolveu ser gentil: com ímpeto e determinação. Definitivamente, tal gesto não é comum. Destemida, ela me ensinou o valor da liberdade, pois, se tivesse ficado preocupada com minha condenação nada teria ocorrido.

Condenação é diferente de julgamento. Concorda? O julgamento faz parte de nosso funcionamento cognitivo, pois pressupõe nossa capacidade de discernir sobre os fatos e sentimentos da vida. A partir daí, podemos ou não apelar para a condenação. Com frequência, é o medo da condenação que nos paralisa porque, seres de conexão que somos e, por isso mesmo, sociais, a condenação equivale à exclusão de nossos grupos de afeto.

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Sob diversas abordagens que estudam a questão do pertencimento, uma delas – a abordagem sistêmica – propõe que, para pertencer, somos capazes das maiores proezas e quase sempre agimos de modo inconsciente. Na verdade, sem pertencimento, equivalemos a seres desgarrados perambulando pela vida em busca de um porto seguro: um clã que nos dê senso de identidade e de pertença.

Sob a inspiração dos recentes estudos do trauma, Ediane Ribeiro diz: “Se vínculo é nossa primeira necessidade essencial, desamparo é nosso medo primordial. Por isso, facilmente negociamos nossas outras necessidades por medo do desamparo, inclusive nossa necessidade de autenticidade. ”

Pertencer nos dá um lugar no mundo e um chão para aonde voltar.

Você tem clareza a quais territórios/chãos você pertence? De onde veio e para onde deseja ir?

Em relação ao pertencimento, há também – verdade seja dita – aqueles que sofrem exatamente por não conseguirem pertencer: simplesmente transitam pelas experiências, mas não se sentem vinculados a nada nem ninguém. São andarilhos humanos e não me refiro a uma situação material de pobreza ou mendicância: falo de um não-lugar existencial. Você já pensou nisso? Ou, ainda, será um funcionamento diferente de existência?

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O gesto da mulher corajosa também me fez olhar para minha (in) disponibilidade para os encontros. Como reajo diante do inesperado? Sinto-me curiosa e disponível para que a interação ocorra ou me retraio? Em outras palavras, qual é meu grau de rigidez? Como estrutura saudável, a rigidez é desejável e necessária, mas como constituição disfuncional, promove enrijecimento e paralisia, tornando-se um entrave que promove sofrimento e desconexão. Você sente-se receptivo (a) às surpresas do cotidiano? Como canta Marisa Monte, em Infinito particular, “Eis o melhor e o pior de mim/no meu termômetro o meu quilate/ (…) só não se perca ao entrar/ no meu infinito particular/ em alguns instantes sou pequenina e também gigante” Fiquei curiosa: como você reagiria à atitude da mulher desconhecida? A metáfora do inusitado é inerente à vida: isso conforta ou desestabiliza sua rotina?

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 09/12/2025″

 

Neste novo ano, desejo que você se disponha a viver a vida com todos as dores e delícias que ela apresenta! Que você se permita fluir e receber todos (se você souber enxergar, serão muitos…) os presentes que, certamente, chegarão a você! E que, diante do inesperado, você consiga relaxar, receber e sentir a vida sorrindo para você e sussurrando (mas, se você insistir em não ouvir, ela gritará…) – “Hey, confia, é só a vida trazendo um convite para você se reinventar mais uma vez. “ Até logo e que seja muito abençoada a nova jornada para nós!

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 09/12/2025″

 

Por ADRIANA MOURA SALLES

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