Eu tinha oito anos quando descobri, quase por acidente, que o corpo guarda memórias que nenhum livro escolar menciona. Na quadra da escola pública do meu interior litorâneo nordestino, onde o sol parecia medir forças com a nossa disposição infantil, dancei coco de roda pela primeira vez. O instrumento feito do endocarpo do coco, provavelmente ideia da professora, e que utilizei o coco que minha mãe havia utilizado para fazer o peixe do almoço do dia anterior, raspado, polido e pintado por mim e supervisionado pelo meu pai. Esse instrumento é que daria o som, quando batermos uma parte na outra. Não sabia, naquele momento, que estava repetindo um gesto que atravessava séculos. Muito menos que estudiosos como Câmara Cascudo, em Dicionário do Folclore Brasileiro (1954), já haviam descrito essa dança como uma das mais antigas manifestações populares do Nordeste, marcada pela pisada forte e pelo canto responsorial.

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Para mim, era somente diversão e, claro, uma oportunidade de tentar deixar minha mãe mais orgulhosa e a professora feliz com a execução do projeto. Mas, como descobri anos depois, enquanto lia Edison Carneiro, em Folguedos Tradicionais (1967), o coco nunca foi somente brincadeira: nasceu das práticas de trabalho, das comunidades negras, indígenas e mestiças, e das formas de expressão que surgiram como resposta criativa às durezas da vida cotidiana, ou seja, era minha comunidade representada em uma dança, que trabalhava a preservação da memória de um povo.
A memória afetiva dessa experiência comprova que cultura não se aprende somente em livros ou salas de aula. O corpo registra ritmos, cheiros, vozes, olhares e provoca lembranças que se tornam referência para a vida adulta. A quadra da escola, os colegas, a música e a pisada forte permaneceram como uma espécie de diário corporal que me conectava às minhas raízes mais profundas.
Hoje, quando conto isso a meus alunos, eles me olham como quem encontra poesia onde antes só havia suor. O que eles não percebem é que, no Nordeste, suor e poesia sempre andaram de mãos dadas. É essa memória viva, carregada de afetos, que mantém a tradição pulsante, longe de qualquer mistificação ou didatismo acadêmico.
O Nascimento do Ritmo: Entre Poços, Areias e Ancestralidades
Se há algo que aprendi com a cultura popular, e com a bibliografia séria que a acompanha, é que o coco de roda não tem um único berço. Ele foi gestado em múltiplas mãos, pés e vozes. Renato Almeida, em História da Música Brasileira (1942), já destacava que o coco emergiu entre populações litorâneas e rurais, muitas delas envolvidas no extrativismo do coco e em trabalhos de pisadura do barro. O ritmo marcava tanto o labor quanto a convivência comunitária. E era exatamente esse meu mundo. Hoje escrevo essa coluna, com um pouco de minha experiência, memória de um pai extrativista de frutos e frutas para vender e sobreviver e um pescador hábil tanto em instrumentos quanto em técnicas de pescarias. Esse mesmo pai que mencionei anteriormente, que fiscaliza a finalização do meu coco para dançar o coco de roda.

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Câmara Cascudo reforça que o coco tem raízes africanas evidentes, especialmente na estrutura responsorial dos cantos, mas também incorpora elementos indígenas, como a roda e o caráter ritual das danças circulares. A mistura, como sempre acontece no Brasil, não foi pacífica: ela veio das relações complexas e muitas vezes violentas entre povos escravizados, indígenas e camadas pobres da colônia.

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A criação coletiva do coco evidencia também a inventividade popular. Cada região adaptava o ritmo, os instrumentos e as letras às suas realidades, tornando a dança ao mesmo tempo local e universal. Edison Carneiro ressalta que a improvisação do congado não era somente lúdica, mas também um modo de comunicação social: críticas, avisos e histórias do dia a dia eram transmitidos através do canto, garantindo coesão e resistência cultural.
E pensar que tudo isso estava invisível para a criança que eu era, somente mais um dançarino tímido tentando acompanhar o ritmo. Ao mesmo tempo, a experiência me ensinou que a tradição não se constrói somente no passado: ela se renova a cada roda, a cada passo, a cada voz que ecoa pelo chão de barro ou asfalto.

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O Sudeste e o Efeito Colateral da Saudade: A Migração do Coco
Quando me mudei para o Sudeste na vida adulta, reencontrei o coco de roda, mas desta vez com outro figurino. Em vez da quadra da escola, surgia nos palcos universitários, nas praças independentes, nos festivais de cultura tradicional. O que para mim era infância, para muitos era antropologia aplicada, identidade performada.

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Esse fenômeno não é acidental. Como mostram estudos de Durval Muniz de Albuquerque Júnior, especialmente em A Invenção do Nordeste (1999), a presença nordestina no Sudeste se ampliou com as grandes migrações dos anos 1950 em diante. Com as pessoas vieram suas práticas, seus sotaques, sua culinária e, claro, suas danças. O coco se espalhou pela Zona Leste de São Paulo, pelas periferias do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, pelas festas de migrantes e pelas rodas de cultura.
Ao mesmo tempo, pesquisadores e grupos culturais começaram a registrá-lo, estudá-lo, valorizá-lo. Percebe-se que o coco funciona como fio condutor entre regiões: é a memória do Nordeste que se reinventa fora de seu território original, mantendo vivos símbolos, afetos e modos de vida. A migração da dança evidencia que a cultura não é estática; ela se desloca e se adapta, sem perder suas raízes.
O curioso é que aquilo que no Nordeste às vezes é tratado como “coisa simples do povo”, no Sudeste vira “experiência estética ancestral”. Não reclamo. É bonito ver a tradição ganhando novos sentidos. Mas não deixa de ser irônico que a mesma dança que eu praticava com sandália de borracha hoje receba iluminação cênica e debates acadêmicos. O coco sempre soube viajar e talvez viaje melhor do que muitos de nós.

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Entre o Riso, o Ritmo e o Registro: A Teimosia do Imaterial

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Como professor e produtor cultural, sei que o patrimônio imaterial não se preserva por decreto, embora esses ajudem. Ele se mantém vivo porque continua sendo praticado, sentido, dançado. Maria Cecília Londres Fonseca, em O Patrimônio em Processo (1997), é clara ao afirmar que bens imateriais só sobrevivem quando há comunidade ativa os mantendo. E o coco, assim como outras tradições nordestinas, como o maracatu, o reisado, a ciranda, o cavalo-marinho, permanece justamente por causa dessa teimosia coletiva.
Hermilo Borba Filho, com seu olhar teatral sobre o povo, insistia que nas manifestações populares existe uma “força inventiva” indestrutível. E ele tinha razão: basta uma roda, um ganzá improvisado, um canto que puxe o primeiro verso, e a memória volta. Não importa se no terreiro da zona rural ou num centro cultural da Vila Madalena.

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Essa força inventiva evidencia que o patrimônio imaterial não é somente lembrança; é prática, improviso e criação contínua. O coco nos ensina que cultura não é só conhecimento, mas também vivência corporal, social e afetiva. Cada roda reafirma a identidade de quem participa e fortalece o elo entre passado e presente.

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Se hoje lembro dessa apresentação escolar com certo humor de uma criança desengonçada e tímida, é porque rir também é um modo de lembrar. E o coco, com sua pisada forte, me ensinou desde cedo que identidade cultural se aprende com o corpo antes de qualquer diploma. O tambor do coco é o pé e a memória é o chão. Enquanto houver quem dance, o coco continua.

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A Voz que dança: Lia de Itamaracá e o Coco de Roda

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Lia de Itamaracá dançou e dança, fazendo com que o coco de roda continue; é guardiã viva da memória do coco de roda pernambucano. Desde minha infância, ouvi sua voz como um convite para entrar na roda, sentir o ritmo e perceber que cultura não se aprende somente em livros, mas se experimenta com o corpo e o coração. Práticas como o coco se fortalecem na interação comunitária, e Lia encarna essa tradição, transmitindo histórias, afetos, cotidianos e ancestralidade a cada verso que entoa:
“Estava no bar do Hermínio em Ilha de Itamaracá/ Cantando coco de roda” (Pelos olhos do Mar — Pout-porri de cocos — Lia de Itamaracá e Daúde-2025)
É impossível não ser puxado para a roda quando essas palavras ecoam, como se o chão e o corpo lembrassem de tudo que a memória insiste em manter viva. O coco de roda nasceu do trabalho, da convivência comunitária e da resistência cultural de populações diversas. Lia, ao interpretar e conduzir as rodas, mantém viva a improvisação, o canto responsorial e a interação do grupo, mostrando que tradição é prática, invenção e memória em movimento. Cada gesto, cada palma, cada improviso é registro de um passado que se reinventa no presente. São quase uma cartilha para dançar e existir na roda. Sua trajetória também evidencia a circulação da cultura nordestina para além do seu território.

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Ao apresentar-se fora de Pernambuco, Lia transforma o cotidiano em patrimônio reconhecido, sem perder a autenticidade da roda. Há um certo humor irônico nisso: o que no Nordeste é natural, em outras regiões se torna “experiência estética ancestral”, e Lia transita entre esses mundos com simplicidade e firmeza. É impossível não perceber que tradição é alegria compartilhada.
Por fim, Lia de Itamaracá nos ensina que a memória imaterial não se preserva só por decreto, mas por prática e afetividade. Enquanto houver rodas de coco, sua voz e seu canto continuarão vivos, reafirmando que tradição, resistência e alegria andam juntas. O coco, assim como a voz de Lia, permanece, corpo, música e história unidos em uma dança que nunca se encerra.

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Por LUIZ SOLRAK
