PROSA POÉTICA – O Fio Invisível por J.B Wolf

PROSA POÉTICA – O Fio Invisível por J.B Wolf

A memória popular, a imaterial, não reside em pedra ou papel. É um sopro invisível, um fio que tece o tempo, e seu tear são as festividades. Ela vive no aroma da receita que a avó de nossa avó já preparava, cujo segredo não está escrito, mas sentido no paladar. Mora na melodia que surge sem autor, cantada em coro por bocas que nunca se conheceram, mas que partilham o mesmo refrão ancestral.

Nas festividades, ela se encarna. As gerações mais novas aprendem a dança não porque leem as instruções, mas porque veem os corpos dos mais velhos se moverem. Repetem o gesto, o canto, o rito. O porquê original pode ter se perdido na névoa dos séculos, mas o como sobrevive, sagrado e vibrante. A razão da fogueira ou o significado daquela flor no altar podem ser desconhecidos, mas o ato de acender e de ofertar se torna a própria razão.

Cada vez que a comunidade se reúne, que a canção é entoada em uníssono, o fio invisível nos conecta ao primeiro que celebrou. Não possuímos essa memória; somos possuídos por ela. Somos o elo vivo, a matéria quente que dá corpo ao fantasma feliz da continuidade. A festa é o seu coração pulsante, e a alegria, o sangue que a mantém viva.

Por J.B WOLF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *