CONTOS – O Café Passagem – Capítulo 4: O Segundo Domingo por J.B Wolf

CONTOS – O Café Passagem – Capítulo 4: O Segundo Domingo por J.B Wolf

Recapitulação

Capítulo 3: A Caminhada

Daniel acompanha Luísa até sua casa na Rua das Flores. Durante o percurso, ela testa os conhecimentos impossíveis dele, questionando sobre seu medo de trovões, a coleção secreta de faróis em miniatura e o ponto de nascença atrás da orelha. Cada detalhe se confirma, deixando-a simultaneamente fascinada e aterrorizada. Eles marcam um novo encontro para quarta-feira às três da tarde. Naquela noite, ambos passam em claro: Luísa verificando obsessivamente seus faróis em miniatura, Daniel descobrindo que não consegue mais escrever sobre ela — as páginas permanecem em branco, como se conhecê-la pessoalmente tivesse quebrado sua conexão com o futuro.

 

Capítulo 4: O Segundo Domingo

Luísa chegou ao Café Passagem às 10h10, dois minutos antes do horário habitual de Daniel. Escolheu a mesa do canto — a mesa deles, como já pensava — e colocou sobre a superfície de madeira escura um exemplar gasto de “Mensagem”, de Fernando Pessoa.

Havia passado a semana inteira em estado de suspensão, como se vivesse entre dois mundos. No trabalho, traduzia textos técnicos com a mesma competência de sempre, mas sua mente vagava constantemente para Daniel e suas impossibilidades. À noite, reorganizava compulsivamente a coleção de faróis, como se pudesse encontrar alguma pista sobre como ele sabia de sua existência.

Quarta-feira havia sido cancelada. Daniel ligara na terça à noite, voz tensa, dizendo apenas que “algo estava errado” e que precisava entender o que estava acontecendo antes de vê-la novamente. Luísa ficou dividida entre alívio e decepção.

Agora, observando a porta do café, sentia o coração acelerar a cada cliente que entrava.

10h12. Daniel apareceu na porta, pontual como sempre, mas algo havia mudado. Seus cabelos estavam mais desalinhados, havia olheiras profundas sob os olhos castanhos, e ele carregava o caderno como se fosse um fardo pesado.

Quando a viu, parou por um momento, como se não esperasse encontrá-la ali.

— Oi — disse Luísa, tentando soar casual.

— Oi — ele respondeu, aproximando-se hesitante. — Você veio.

— Você duvidou?

Daniel sentou-se à frente dela, mas não abriu o caderno. Em vez disso, fixou os olhos no livro de Pessoa.

— “Mensagem” — ele murmurou. — Não estava nas minhas…

— Nas suas visões? — Luísa completou.

Ele assentiu, parecendo perturbado.

— Daniel, o que aconteceu esta semana? Por que cancelou quarta-feira?

O garçom trouxe o café sem açúcar e o copo d’água, seguindo o ritual estabelecido. Para Luísa, chá de jasmim. Quando se afastou, Daniel finalmente falou:

— Não consigo mais escrever sobre você.

— Como assim?

— Desde domingo passado, quando te conheci pessoalmente, as páginas ficam em branco. É como se… como se você tivesse saído do futuro e entrado no presente.

Luísa sentiu um arrepio estranho, uma mistura de medo e excitação.

— E isso é ruim?

— Não sei — Daniel admitiu. — Nunca aconteceu antes. Durante três anos, eu via você claramente. Agora, quando tento escrever, só vejo… nada.

— Talvez seja porque agora sou real. Não mais uma visão, mas uma pessoa de verdade, com escolhas próprias.

Daniel ergueu os olhos para ela, e Luísa viu algo que não havia notado antes: vulnerabilidade pura.

— Você trouxe o livro por algum motivo específico? — ele perguntou.

— Você disse que queria ouvir minha voz contando uma história que não fosse a nossa — Luísa sorriu. — Pessoa sempre foi meu poeta favorito. Pensei em ler algo para você.

— Qual poema?

Luísa abriu o livro numa página marcada com um guardanapo do próprio café.

— “Autopsicografia”. Sempre me identifiquei com ele.

Ela começou a ler, sua voz baixa e melodiosa cortando o murmúrio do café:

“O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.”

Daniel a observava intensamente, como se cada palavra fosse uma revelação.

“E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.”

Quando ela terminou, o silêncio se estendeu entre eles como uma ponte invisível.

— Por que esse poema? — Daniel perguntou.

— Porque fala sobre a diferença entre sentir e escrever sobre o sentimento. Entre viver e descrever a vida — Luísa fechou o livro. — Você passou três anos escrevendo sobre mim, sobre nós. Mas agora estamos aqui, vivendo de verdade. Talvez seja por isso que não consegue mais escrever.

Daniel pegou o caderno e o abriu numa página em branco.

— Posso tentar algo?

— Claro.

Ele começou a escrever, mas não sobre o futuro. Escrevia sobre o presente: a forma como a luz da manhã iluminava o rosto de Luísa, o vapor subindo de sua xícara de chá, o jeito como ela mordia levemente o lábio inferior quando estava concentrada.

— Está funcionando — ele disse, surpreso.

— O quê?

— Consigo escrever sobre você. Mas só sobre agora, sobre este momento.

Luísa se inclinou para ver o que ele escrevia. As palavras fluíam naturalmente, descrevendo não uma visão do futuro, mas a realidade do presente.

— Talvez seja isso — ela disse. — Talvez você não precise ver o futuro. Talvez precise apenas viver o presente.

Daniel parou de escrever e a encarou.

— Mas e se eu perder completamente a capacidade? E se não conseguir mais ver nada?

— Seria tão ruim assim?

A pergunta o pegou desprevenido. Ele nunca havia considerado a possibilidade de que perder o dom pudesse ser uma libertação.

— Não sei — admitiu. — É a única coisa que me define há tanto tempo.

— Não é verdade — Luísa disse suavemente. — Você é muito mais do que suas visões, Daniel. É gentil, observador, tem uma forma única de ver o mundo. Essas qualidades não vêm do dom.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Finalmente, Luísa perguntou:

— Posso fazer um experimento?

— Que tipo de experimento?

— Feche os olhos e tente escrever sobre amanhã. Não sobre mim, sobre qualquer coisa. O tempo, as notícias, qualquer evento futuro.

Daniel fechou os olhos e posicionou a caneta sobre o papel. Ficou assim por um longo momento, concentrado. Quando abriu os olhos, havia escrito apenas uma linha:

“Amanhã será segunda-feira, e o mundo continuará girando.”

— Só isso? — Luísa perguntou.

— Só isso. Antes, eu conseguia ver detalhes específicos: quem ganharia jogos de futebol, que tempo faria, pequenos eventos cotidianos. Agora… nada.

— E como se sente?

Daniel considerou a pergunta cuidadosamente.

— Assustado — ele admitiu. — Mas também… livre? É estranho. Como se eu tivesse vivido a vida inteira olhando para frente e agora, finalmente, pudesse olhar ao redor.

Luísa estendeu a mão sobre a mesa e tocou levemente os dedos dele.

— Talvez seja um presente, não uma perda.

— Você realmente acredita nisso?

— Acredito que algumas coisas são mais importantes que conhecer o futuro. Como construir o presente com alguém especial.

Daniel virou a mão e entrelaçou os dedos com os dela. Era o primeiro toque físico deliberado entre eles, e ambos sentiram uma corrente elétrica percorrer a conexão.

— Luísa?

— Sim?

— Posso te fazer uma pergunta que não tem nada a ver com visões ou futuros?

— Pode.

— Você gostaria de jantar comigo amanhã? Como duas pessoas normais que se conheceram num café e querem se conhecer melhor?

Luísa sorriu, e pela primeira vez desde que se conheceram, o sorriso não carregava peso de mistério ou impossibilidade. Era apenas alegria pura.

— Adoraria.

— Ótimo. Porque eu não faço ideia de como vai ser, e isso é a coisa mais emocionante que me aconteceu em anos.

Eles riram juntos, e o som ecoou pelo Café Passagem como uma música nova, uma melodia que não estava escrita em nenhum caderno, mas que nascia espontaneamente do encontro de duas almas que haviam decidido trocar a certeza do futuro pela aventura do presente.

Quando saíram do café naquela manhã, Daniel deixou o caderno fechado. Pela primeira vez em três anos, não havia escrito sobre visões ou destinos. Havia apenas documentado um momento real, vivido, compartilhado.

E isso, descobriram ambos, era muito mais valioso que qualquer futuro que pudesse ser previsto.

Por J. B WOLF

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