A LÍNGUA EM MOVIMENTO – Em Memória, Em Palavra, Em Mim

A LÍNGUA EM MOVIMENTO – Em Memória, Em Palavra, Em Mim

Era uma vez. Talvez toda dor comece assim, ainda que ninguém tenha coragem de admitir. Era uma vez um pai. Era uma vez uma filha. Era uma vez uma língua inteira tentando sustentar aquilo que o coração, sozinho, não consegue dizer.

Foi assim que tudo começou em mim outra vez. Não com o nascimento da língua portuguesa, embora eu tenha pensado muito nela. Não com os romanos, nem com o latim, nem com o galego-português se desprendendo lentamente da antiga forma de falar, como um filho que vai criando a própria voz. Começou com duas palavras pequenas, discretas, quase frias, que apareceram ao lado do nome do meu pai numa página impressa: in memoriam.

Li uma vez. Depois li de novo. E então fiquei parada.

In memoriam.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 28/04/2026″

 

Há expressões que não entram na vida da gente. Elas se instalam. Sentam-se à mesa. Dormem no travesseiro ao lado. Caminham conosco até a cozinha e voltam conosco para o quarto, como se quisessem nos ensinar a respirar dentro de uma ausência.

Eu estava com o livro nas mãos. Um livro lançado em coautoria. Cinquenta mulheres lendo, escrevendo, costurando palavras. Cinquenta mulheres atravessadas pela linguagem, cada uma com seu modo de dizer o mundo. E ali, no meio daquela obra, estava ele. Meu pai. Não com a voz de antes. Não com o corpo de antes. Não com o sorriso de antes. Mas ali. Nomeado. Lembrado. Guardado. In memoriam.

Passei os dedos sobre as letras como quem afaga um rosto.

Lallo me viu parada na sala e perguntou, baixinho:

  • “Você está lendo ou está lembrando?”

Olhei para ele e respondi:

  • “Os dois. Acho que algumas leituras não são feitas com os olhos. São feitas com o que sobra.”

Ele se aproximou sem pressa. Lallo sempre foi assim. Não invade. Encosta. Senta ao lado. Espera. O silêncio dele, em certos dias, parece uma cadeira puxada com delicadeza para que eu possa me sentar dentro de mim mesma.

  • “Posso ver?” ele perguntou.

Entreguei o livro.

Ele leu o nome do meu pai. Leu a expressão em latim. E ficou em silêncio por alguns segundos.

  • “Engraçado”, disse depois. “A gente usa tanto essa expressão e quase nunca para pra pensar nela.”
  • “Eu pensei nisso hoje”, respondi. “Talvez porque agora ela esteja doendo em mim.”

E foi aí que comecei a pensar na língua, como sempre faço quando a vida me ultrapassa. Há quem chore. Há quem reze. Eu procuro etimologias. Cada um se salva como pode.

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In memoriam. Em memória. Na memória. Pela memória. O latim, essa língua antiga que hoje já não vive nas bocas do povo, ainda vive nas margens, nas inscrições, nas fórmulas, nas cerimônias, nas despedidas. E me pareceu, naquele instante, que o latim e os mortos partilham um destino parecido. Ambos não andam mais pelas ruas como antes. Ambos já não pertencem ao uso comum do mundo. Ambos, no entanto, permanecem. Não na carne do cotidiano, mas no fundo das estruturas. Como alicerce. Como herança. Como eco.

  • “É estranho pensar nisso”, eu disse a Lallo. “Chamam o latim de língua morta. Mas morta onde? Porque eu a encontro viva em toda parte. Nos livros, nos nomes, nas expressões, nas raízes das palavras.”
  • “Talvez com as pessoas seja assim também”, ele respondeu. “Talvez chamem de mortos aqueles que mudaram de lugar.”

Fiquei olhando para ele.

  • “Você anda perigoso com essas frases”, eu disse.

Ele sorriu sem mostrar os dentes.

  • “Conviver contigo dá nisso.”

Voltei os olhos para o livro.

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Meu pai havia sido homenageado ali, na contracapa daquele livro, de um jeito que só as palavras poderiam fazer. Não foi uma estátua. Não foi um retrato a óleo. Não foi uma praça com seu nome. Foi um gesto mais íntimo. Mais exato. Cinquenta mulheres lendo as palavras que ele costumava dizer. As palavras dele. As frases que atravessaram anos, almoços, corredores, broncas, afagos, pequenas lições de vida. De repente, percebi: meu pai não estava apenas sendo lembrado. Ele estava sendo pronunciado.

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E talvez seja isso o que as línguas fazem de mais bonito. Elas impedem que a ausência seja muda.

Comecei a pensar na origem do português, essa língua em que ele me ensinou a viver. O português é uma língua românica, neolatina, derivada do latim vulgar, aquela forma falada por soldados e colonos romanos na Península Ibérica. Não veio do latim solene dos discursos impecáveis, mas do latim das estradas, dos mercados, das casas, da vida em movimento. Gosto disso. Gosto de pensar que a nossa língua nasceu não da perfeição, mas do uso. Não do mármore, mas da poeira. Não do altar, mas da caminhada.

Depois da queda do Império Romano, aquela língua foi se transformando. Misturou-se com marcas celtas, germânicas e árabes. Foi criando outra sonoridade, outro ritmo, outra carne. Na região ocidental da Península, formou-se o galego-português. Mais tarde, já a partir do século XII, a língua foi tomando forma própria, reconhecendo-se como idioma. Como se um dia ela tivesse acordado e dito: agora sou eu.

Talvez todo filho faça isso um dia.

Talvez toda filha também.

E ali eu estava, filha de um homem agora nomeado in memoriam, pensando que as línguas e as famílias se parecem mais do que imaginamos. Ambas nos antecedem. Ambas nos formam. Ambas nos escapam. Ambas continuam depois de nós.

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  • “Você acha”, perguntei a Lallo, “que uma palavra pode sobreviver a uma pessoa?”

Ele fechou o livro devagar.

  • “Acho que às vezes a palavra é justamente a forma que a pessoa encontra de continuar.”

Aquilo me bateu fundo.

Porque meu pai sempre foi um homem de muitas conversas. De frases. Daquelas que ficam. Daquelas que voltam anos depois, no meio da rua, quando a gente abre uma gaveta, quando dobra uma camisa, quando erra uma receita, quando quase desiste. Ele tinha esse dom de lançar palavras como quem planta sementes mas fazendo alarde. E eu só agora entendia o tamanho da colheita.

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  • “Eu fico pensando”, continuei, “se o latim é chamado de língua morta porque já não é falado no dia a dia, o que acontece com alguém que morre e continua sendo dito?”
  • “Talvez ele entre para outra gramática”, Lallo respondeu.

Ri e chorei ao mesmo tempo.

  • “Outra gramática?”
  • “É”, ele disse. “Uma gramática da lembrança. Não está mais no presente do indicativo. Mas continua conjugado no coração de alguém.”

Fechei os olhos por um instante.

Havia uma espécie de beleza difícil nisso. Como o latim, meu pai já não estava no uso ordinário dos dias. Já não me ligava. Já não atravessava a sala. Já não me chamava pelo nome de um jeito que só ele sabia (filhinha). Mas continuava na estrutura. Em mim. Naquilo que digo. Naquilo que calo. Na forma como escolho certas palavras e rejeito outras. Na mania de pensar a origem de tudo. Na reverência diante dos livros. Na certeza, quase teimosa, de que as palavras não são enfeite. São casa.

Talvez por isso o luto tenha tanto a ver com linguagem. Quando alguém parte, não perdemos apenas a presença física. Perdemos uma pronúncia do mundo. Perdemos um sotaque de amor. Perdemos um vocabulário compartilhado. Certas piadas deixam de ter graça porque dependiam daquela voz. Certas frases ficam sem resposta porque eram feitas para aquele ouvido. Certos silêncios perdem a moldura.

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Mas, ao mesmo tempo, algo permanece. Uma maneira de dizer. Uma frase herdada. Um modo de chamar o café. Uma repetição. Um conselho. Um nome.

Pensei então em algo que sempre me emociona: atualmente, além do Brasil, outros nove lugares falam oficialmente a língua portuguesa. Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Guiné Equatorial e Macau. É bonito pensar nisso. Tão bonito. Uma língua atravessando oceanos, climas, histórias, tragédias, independências, reinvenções. Uma língua que saiu de um ponto e foi criando moradas múltiplas. E, ainda assim, continua sendo reconhecível. Mutante e fiel. Distante e íntima.

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No dia 5 de maio, a Unesco decidiu proclamar o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Quando soube disso pela primeira vez, achei justo. Mas, naquele dia, com o nome do meu pai ao lado do in memoriam, senti mais do que justiça. Senti ternura. Como se o mundo, de algum modo, reconhecesse que há línguas que merecem um dia porque sustentam séculos de vida, de perda, de amor e de permanência.

A língua portuguesa, pensei, também é uma filha do que já passou. Língua que muitos chamam de morta. No entanto, dela nasceu uma das formas mais vivas que conheço de dizer afeto, saudade, ausência, regresso, lembrança.

Saudade. Olha ela. Não vem do latim como quem copia. Vem como quem transforma. E talvez seja isso que mais me comove nas línguas: elas não apenas herdam. Elas elaboram. Elas atravessam a perda e inventam uma palavra nova para caber o que ficou.

Meu pai, de certo modo, também estava assim. Herdado e elaborado. Já não homem inteiro ao meu lado, mas presença transformada em linguagem. Em dedicatória. Em homenagem. Em frase alheia que de repente era dele de novo. Em cinquenta mulheres lendo as palavras que ele costumava dizer, como se cada uma emprestasse sua voz para que ele continuasse atravessando o mundo.

  • “Você vai falar sobre ele no lançamento?” Lallo me perguntou.

Olhei para o livro. Depois para as minhas mãos.

  • “Não sei se vou conseguir.”
  • “Conseguir o quê?”
  • “Falar sem desmontar.”

Ele pensou um pouco antes de responder.

  • “Quem disse que você precisa falar inteira?”

Essa pergunta ficou em mim.

Talvez ninguém fale inteiro quando ama. Talvez ninguém escreva inteiro quando perde. Talvez a escrita seja justamente esse gesto de reunir cacos e ainda assim oferecer uma tigela.

Na noite antes do lançamento, sentei sozinha com o livro no colo. Fui relendo as páginas. As vozes. Os nomes. E o dele, ali, com aquelas duas palavras latinas ao lado. In memoriam. De repente, elas já não me pareceram frias. Eram antigas, sim. Solenes, talvez. Mas já não frias. Eram um pequeno átrio. Um espaço de passagem entre o que se foi e o que permanece. Como se dissessem: ele não está mais aqui como antes, mas ainda está no território que a memória alcança.

E a memória, eu aprendi, é uma espécie de pátria invisível.

No dia seguinte, antes de sair de casa, parei diante do espelho. Não para me arrumar. Para respirar. Lembrei-me do meu pai. Das palavras dele. Do jeito como eu o corrigia em certas pronúncias, do modo como ele escolhia termos precisos, da forma como tratava a linguagem com seriedade e carinho, sempre querendo aprender mais. Meu pai não sabia, talvez, mas me ensinou a amar a origem das palavras porque me ensinou primeiro a respeitar o peso delas.

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Percebi então que o luto também tem etimologia íntima. Não apenas a dos dicionários, mas a que cada pessoa escreve por dentro. A minha dor vinha acompanhada de uma certeza: ele ainda me alfabetizava.

Quando cheguei ao lançamento, havia gente, abraços, vozes, câmeras, flores, expectativa. Tudo isso que costuma cercar os livros. Mas dentro de mim havia outra coisa. Havia uma filha prestes a pronunciar o pai em público sem poder ouvi-lo responder.

Peguei o microfone.

Minha voz tremeu. Não de fraqueza. De densidade.

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Olhei para o livro uma última vez antes de falar. E entendi, com uma calma nova, que o latim não estava morto. O meu pai não estava morto na única medida que realmente me importava ali. Ambos permaneciam como permanecem as raízes: invisíveis à pressa, indispensáveis à vida.

Talvez seja isso que in memoriam realmente queira dizer. Não apenas “em memória”. Mas “dentro daquilo que a memória ainda faz viver”.

E foi então que compreendi o que a língua portuguesa vinha tentando me ensinar desde o começo. Ela nasceu do latim vulgar, atravessou impérios, quedas, povos, influências, séculos, e ainda assim floresceu. Perdeu formas, ganhou outras, deixou muita coisa para trás, mas não deixou de ser. Meu pai também. Partiu de um modo, permaneceu de outro. Já não corpo, mas traço. Já não presença física, mas sintaxe afetiva.

A língua e o amor têm isso em comum: ambos sobrevivem pela transmissão.

Transmitimos sons. Transmitimos lembranças. Transmitimos frases. Transmitimos modos de ver o mundo.

E talvez seja por isso que escrevo.

Porque um dia Roma caiu, o latim deixou de ser língua do povo e ainda assim continuou fecundando mundos. Porque um dia meu pai partiu, e ainda assim continua fecundando palavras em mim.

Saí do lançamento com a sensação de que alguma coisa havia encontrado lugar. Não a dor. Dor não se acomoda assim tão fácil. Mas talvez o nome dela. E dar nome ao que sentimos já é uma forma de respirar melhor.

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Na volta, Lallo dirigia em silêncio. Eu olhava a cidade pela janela.

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Depois de um tempo, ele perguntou:

  • “Tá mais leve?”

Pensei antes de responder.

  • “Não leve. Mas legível.”

Ele franziu a testa, sem entender de imediato.

Sorri.

  • “Tem coisas que continuam pesadas. Mas quando a gente encontra as palavras certas, pelo menos consegue carregá-las.”

Lallo assentiu, como quem guarda a frase para um dia futuro.

E seguimos.

Eu, com meu pai ao lado do nome, in memoriam.

A língua portuguesa, comigo, viva.

E o latim, esse antigo chão sobre o qual ainda pisamos sem perceber, me lembrando que nem tudo o que chamam de morto deixou de dizer.

 

Por ALINE ABREU SANTANA

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