Vamos mais uma vez de fantasia. A história que trago nesta Edição da Revista chama-se “Labirinto – A Magia do Tempo” (1986), filme dirigido pelo deus dos fantoches, Jim Henson (1936 – 1990) e produzido por Eric Rattaray e George Lucas. Um filme cheio de monstrinhos e referências a M. C. Escher. O antagonista, Rei Duende, é encarnado pelo grande David Bowie (1947-2016 – que descanse em paz, Star Man!) e a primeira que sofre, ou a primeira que agoniza, ou a protagonista é Sarah, encarnada por Jennifer Connelly. Tendo um dedo do George Lucas, é quase impossível não passar pelo menos por alguns passos da “jornada do herói”, descrita por Campbell (2007), mas essa é apenas uma das camadas da apresentação da obra. De antemão, aviso que vai ter spoiler. Dito isto, vamos à aventura!
LABIRINTO – ADOLESCÊNCIA, CRESCIMENTO E FANTOCHES DIVERTIDAMENTE ESTRANHOS
Uma menina brinca de faz de conta ou “Mundo comum”
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Cartaz do filme “Labirinth”, de 1986.
O filme é de 1986 e, nos créditos iniciais, uma coruja é apresentada em computação gráfica, ao som de Underground (David Bowie-1986). Começamos com a jovem Sarah (Jennifer Connelly), brincando de faz de conta, com um cachorro cabeludo. Ela esquece a última fala da personagem que interpreta. Quando percebe que já é tarde, ela corre para casa. Há uma coruja que a segue, observando-a na brincadeira e indo até a janela. De alguma forma, o final da história já estava escrito na fala que Sarah se esquece durante a encenação.
Em casa, Sarah se desentende com a madrasta. A jovem sente falta da mãe e sente seu espaço sendo invadido pela presença de um bebê, que toma a atenção das pessoas da cada. Ela elege o bebê como bode expiatório. Em seu quarto, Sarah tem muitos brinquedos, álbuns de família de antes da madrasta, livros de fantasia (“o mágico de Oz” e outro chamado “O Labirinto”), e um quadro com a ilustração de escadas confusas de M. C. Escher.
A única “coisa de adulto” no quarto de Sarah é um batom que ela não usa. Entre seus brinquedos, Sarah dá por falta de um ursinho chamado Lancelot. Até aqui o urso tem nome, mas o bebê não. O urso está no quarto do bebê que está chorando. Ela quer continuar brincando, mas crescer é inevitável.
Dezenas de monstrinhos e um bebê perdido ou “Chamado à aventura”
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Sarah está triste por ter de cuidar do bebê e uma coruja observa pela janela.
IMAGEM GERADA POR IA “usando GEMINI, sob a direção de Renato Mota Arrais de Lima, Criada em 06/04/2026″
Sarah fica em casa sozinha com o bebê e, zangada com o choro da criança, diz que o Rei Duende está apaixonado por ela e ameaça recitar palavras mágicas para que o Rei venha levar o bebê. É importante falar que, mesmo pensando em se livrar do bebê, ela reluta em recitar as palavras mágicas, mas acaba recitando e bum! Aparece meio mundo de criaturas risonhas se escondendo pelos cantos da casa, e a coruja se revela o Rei Duende disfarçado, que entra pela janela. Nesse momento, ficamos sabendo o nome da criança: Toby. Separando as sílabas, fica muito próximo de “to be”. Temos o homem mais velho (Rei Duende), seduzindo a garota mais jovem, Sarah, inclusive oferecendo um presente, uma bola de cristal que mostra os sonhos.
A semente da maturidade está em Sarah, pois ela recusa o presente e insiste em ter de volta o irmão. Para isso, ela deverá passar pelo labirinto, pela Cidade dos Duendes, e enfrentar o Rei Duende no prazo de 13 horas. Ou seja, esse percurso pode ser interpretado como cresça e assuma responsabilidades. Quando Sarah pede “me devolva o Toby”, é como se ela dissesse “me devolva o meu ser” ou “meu to be”. O Rei Duende apresenta-se como um símbolo de sabedoria (coruja) e oferece a esfera de cristal, mas representa o homem mais velho seduzindo a mocinha. Interessante aqui também é a trilha sonora (Underground, cantada pelo David Bowie), falando sobre rejeição (como ela se sentia) e fuga (quando ela fugiu da responsabilidade, invocando os duendes).
Não é justo! Ou “Recusa do chamado”
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O Rei Duende oferece um presente a Sarah.
IMAGEM GERADA POR IA “usando GEMINI, sob a direção de Renato Mota Arrais
de Lima, Criada em 06/04/2026″
Sempre que algo não sai de acordo com os planos de Sarah, ela sempre diz “não é justo”. A porta da casa da jovem dá para um ambiente avermelhado. Como num sonho, ela não questiona, apenas vai em direção à aventura. Esse “não é justo” vai render…
O pequeno Hoggle ou “Encontro com o mentor”
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Sarah encontra Hoggle matando fadinhas.
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Ao sair de casa, Sarah encontra um homenzinho de cabeça grande. Seu nome é Hoggle. Ao perceber que uma senhorita se aproxima, o pequenino, que fazia xixi em uma poça d’água, se recompõe, para logo em seguida munir-se de um spray de veneno e pôr-se a caçar fadinhas.
De acordo com Nelly Novaes Coelho (2000, p 173), a palavra fada “vem do latim ‘fatum’, que significa destino”. Colocar Hoggle envenenando fadinhas (ou destinos) nos diz que talvez esse mentor não seja confiável. Com dó das fadas, Sarah pega uma delas, mas é mordida. “Pensei que elas fizessem coisas boas, como realizar desejos”, disse Sarah, e Hoggle complementou “Isso mostra o quanto você sabe das coisas”. Essa foi a forma de ele dizer que o destino reserva dores, na maioria dos casos.
Nessa história, os duendes são representações da infantilidade. Hoggle, como veremos mais à frente, trabalha para o Rei Duende e tenta, por mais de uma vez, atrapalhar o caminho da jovem. Quando ele diz “Mesmo se chegar ao centro, nunca vai conseguir sair” é como se a resistência dela estivesse falando. Considerando o labirinto como a travessia do amadurecimento, de fato, não é possível sair, não pelo mesmo caminho. O labirinto também é uma forma de dizer que o adolescente muitas vezes se perde por não saber o que quer, o que deve encontrar, ou o que deve se tornar.
Nessa jornada, Sarah se verá cercada de duendes, afinal, não é possível fugir da própria mente, e ela deverá vencer essas resistências.
De porta adentro ou “Cruzamento do primeiro limiar”
Tendo por desejo resgatar o irmão, Sarah encontra a entrada do labirinto. O lado de dentro é um corredor que se estende para a esquerda e para a direita. Depois de muito andar, Sarah é interrompida por um verme falante, que mostra uma passagem escondida. É irônico que um verme saiba mais que uma adolescente. A passagem indicada tem mais uma saída pela direita e outra pela esquerda, e o verme indica a direita, pois a outra tem um caminho curto para o castelo do Rei Duende e é preciso que o caminho seja longo o bastante para que as modificações internas de Sarah aconteçam. Ou ele disse o caminho errado porque é um verme.
Nesse momento, temos uma cena cheia de monstrinhos, e o Rei Duende cantando (Magic Dance – 1986) com o bebê chorando nos braços. O verso “And left my baby blue” e a câmera mostrando o choro do bebê merece destaque. Em certo momento da dança, o cantor joga Toby para cima, a uns três metros de altura, e quem pega o menino é um dos fantoches. Até percebermos que nesse momento o bebê havia sido trocado por um boneco, o coração já estava perto de sair pela boca.
Quanto mais a pessoa reza, mais o cão mostra o chifre ou “provas, aliados e inimigos”
Sarah usa o batom para marcar setas no chão e se orientar no labirinto. Mas ela não é adulta, e coisas de adulto não funcionaram. Um monstrinho de um palmo de altura põe-se a sabotar as marcações da jovem. “Não é justo!” Essa fala vai se repetir…
Depois de decifrar um enigma sobre verdades e mentiras, Sarah cai em um buraco vertical, cheio de mãos, que ora seguram-na ora acariciam-na. Algumas mãos se unem e formam rostos que se identificam como “Mãos Amigas”. Enfim, as mãos soltam a mocinha que cai nos calabouços da cidade, o que não agrada ao Rei Duende, afinal, ela não deveria ter chegado tão longe.
Nossa heroína vai encontrar o que quer e o que não quer; vitórias e derrotas; e um começo de entendimento. Hoggle reaparece e fica claro ao espectador que ele trabalha para o Rei Duende. A missão do pequeno guia é levar a jovem ao início do labirinto. Sarah precisa negociar com Hoggle e, vendo que ele tem uma bolsa com joias, oferece-lhe uma pulseira de plástico (coisa que ele nunca tinha visto). Hoggle aceita e decide adiar a traição. Os dois seguem viagem por cavernas de pedras falantes.
Durante a caminhada, encontram o Rei Duende que, vendo a pulseira no braço de Hoggle, questiona se ele está ajudando Sarah. Direcionando-se à jovem, o monarca pergunta o que ela acha do labirinto. “Uma moleza”, ela responde. Enraivecido, o Rei decide aumentar a dificuldade da brincadeira, e Sarah repete: “Isso não é justo!”. O monarca conjura uma furadeira chamada “Cortador”, que passa pelos túneis esmagando tudo no caminho. Uma coisa que fura e penetra um túnel (como um pênis), pilotada por dois monstrinhos (como os testículos).
Sarah e Hoggle escapam do Cortador e sobem por uma escada, saindo em um pote sobre uma mesa em um jardim. Suspeitando do guia, a jovem rouba-lhe o saco de joias (alegoria para a castração). Agora é Hoggle quem diz “Isso não é justo!”, e a moça responde “Mas é assim que é”. Se ele quiser as joias de volta, terá que ajudar.
No jardim, eles encontram um homem com um pássaro na cabeça que, ao de dizer coisas confusas como “parece que não chegamos a lugar algum, quando na verdade, chegamos”, adormece. Apesar de os viajantes não entenderem as palavras do homem, concordamos que metade do labirinto foi vencida.
Apesar de todas as tretas, a protagonista vê o guia como amigo, e o pequeno, que nunca tivera uma amizade, se vê encantado. Mesmo assim, ao menor sinal de perigo, Hoggle foge. É um barulho de batidas, risos debochados e grunhidos. Sozinha, Sarah segue o barulho e vê um grupo de monstrinhos com armadura, atormentando uma fera peluda pendurada em uma árvore. Convenientemente, algumas pedras rolam para perto de Sarah, que as usa para afugentar os monstrinhos. Dessa forma ela salva o bicho peludo e ganha um novo amigo de viagem, chamado Ludo.
Mais adiante, Sarah e Ludo se veem em uma selva onde criaturas fazem uma dança, trocando partes do corpo uns com os outros (braços, cabeças e olhos) e às vezes, criam amálgamas com seus corpos. Eles falam de diversão e querem que Sarah fique igual a eles, ou seja, querem arrancar a cabeça e os membros dela. Na confusão, a jovem arremessa longe algumas cabeças e foge, mas se perde de Ludo.
De longe, Hoggle escuta a voz de Sarah pedindo ajuda. Nesse momento, o guia se arrepende, mas antes de ir até a amiga, é interrompido pelo Rei Duende. Para não receber severas punições, Hoggle deve entregar uma fruta a Sarah. O monarca convence o servo de que uma moça tão bonita nunca seria amiga de uma criatura como Hoggle e ainda jura que, se um dia Sarah o beijasse, o Rei Duende em pessoa o transformaria em um príncipe… do Pântano do Fedor Eterno. Triste, Hoggle parte em sua nova missão.
Sarah se vê diante de um paredão e Hoggle a ajuda a escalá-lo, lançando uma corda. A salvo dos monstrinhos vermelhos, ela o beija como gratidão, e a promessa do Rei Duende quase se cumpre. O chão se abre e, por muito pouco, os dois não caem no Pântano do Fedor Eterno. Enquanto tentam se salvar, o pequeno guia diz que veio apenas para recuperar o saco de joias. Logo em seguida, eles encontram Ludo que, ao rugir, controla pedras e forma uma ponte.
Adiante há um guardião, meio guaxinim caolho, meio Dom Quixote que, muito valente, ataca com seu cetro, mas é pequeno e não causa danos, só chateia. Ludo ataca o Guardião e o derrota. O pequeno reconhece a força de Ludo e propõe que sejam “irmãos para lutarem juntos pelo bem”. Sarah tenta atravessar o caminho do guardião, mas é impedida por ele que diz “Eu jurei pelo meu sangue que não deixaria ninguém passar por aqui sem a minha permissão!”. Sarah pede: “Pode me dar sua permissão?”. O guardião concede, e os viajantes têm como novo amigo o Guardião do Pântano que seguirá o grupo cavalgando seu cachorro.
O buraco fundo dos desejos recalcados ou “Aproximação da caverna oculta”
Hoggle sente a consciência pesada, pois ainda carrega a fruta envenenada e espera uma oportunidade para cumprir sua missão. Caso a moça coma a fruta, perderá a memória. Hoggle entrega a fruta, Sarah come e adormece. Hoggle foge acovardado.
No castelo, o Rei Duende lança bolas de cristal para prender Sarah numa ilusão: ela se vê num magnífico baile de máscaras dançando com o Rei Duende. A princípio, ela dança, mas rapidamente percebe que algo está errado. A jovem lança uma cadeira contra um grande espelho, e isso destrói a ilusão.
Sarah cai em um lixão. Nesse lugar, aparece uma duende com Lancelot, o urso de pelúcia. A senhora leva Sarah para uma cópia do quarto da casa onde a jovem mora com o pai e impede que ela saia ou olhe pela janela. Ao pegar o livro “The Labyrinth”, Sarah percebe que está em um lixão e recupera a memória.
A jovem se reencontra com o Guardião e Ludo, e os três avançam até uma muralha de portões pesados com uma imagem em relevo de um gigante de metal. O gigante é um robô pilotado por um monstrinho. A máquina se desprende da parede e põe-se a atacar Sarah e companhia. Eles tentam fugir, mas grandes lanças fecham o caminho. Hoggle, o arrependido, chega saltando de cima da muralha e derrotando a tabefe o piloto do robô que, danificado, para de funcionar. O herói da vez diz que não merece perdão e que o Rei Duende o obrigara a fazer todas as tramoias. Mesmo assim, Sarah o perdoa.
A grande batalha na Cidade dos Duendes ou “A provação suprema”
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Sarah e seus amigos enfrentam o exército do Rei Duende.
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A cidade está silenciosa até que o Rei Duende manda suas tropas. Sarah e amigos fogem até que o Guardião se perde e fica cercado de inimigos. Ele vence um duelo, bate a cabeça e cai da montaria. Ao mesmo tempo, Sarah e Hoggle entram em uma casa, Ludo alcança o topo de uma torre e ruge. O Guardião está cercado e diz “Larguem suas armas e eu serei misericordioso!”. É quando o rugido de Ludo faz efeito e pedras rolam pela cidade, aniquilando o exército. Para enfrentar o Rei Duende, Sarah quer ir só, mas os amigos ficaram a postos.
O castelo lembra os desenhos de M. C. Escher. “Tudo que eu fiz foi por você, eu movo estrelas para ninguém… Seus olhos podem ser tão cruéis, assim como eu posso ser tão cruel”, diz o monarca. Toby está prestes a cair em um buraco e Sarah se joga de uma grande altura em direção ao bebê para salvá-lo. O cenário se desmonta como um quebra-cabeça, e a jovem aterrissa em um bloco de pedra flutuante, em meio a outros tantos pedaços de parede e teto que flutuam em um céu escuro com nuvens vermelhas.
Sarah e o Rei Duende estão frente a frente, e ele parece decepcionado. O monarca se acha generoso e diz que fez tudo para atender às expectativas dela: levou o bebê, tornou-se assustador, mexeu no tempo e virou o mundo de cabeça para baixo. Sarah recita “Através de perigos indizíveis e inúmeras dificuldades, eu lutei para chegar aqui ao castelo atrás da Cidade dos Duendes. Porque minha vontade é tão forte quanto a sua, e meu reino é tão poderoso quanto o seu. Você não tem poder sobre mim!” O Rei ainda tenta enrolar antes de ela terminar a fala, oferecendo sonhos como quem vende fumaça, mas Sarah venceu e o bebê está salvo.
Um pouco de Campbell, mas não tudo, ou “recompensa; o caminho de volta; ressureição; retorno com o elixir” tudo misturado
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Sarah derrota o Rei Duende.
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O Rei Duende se transforma em coruja e voa para longe. Espera-se que procure alguém da idade dele. Sarah está em casa e ela dá o urso Lancelot para o irmãozinho que está no quarto. O livro “The Labyrinth” vai para a gaveta.
Fato é que, se você termina o filme e volta lá no começo vê que os amigos que ela fez na viagem estavam lá no quarto dela. O guaxinim caolho, Hoggle… E, apesar da maturidade adquirida, ela segue sendo uma menina-moça e precisa da fantasia de vez em quando. O filme termina com Sarah e meio mundo de monstrinhos em seu quarto.
Finda mais um Desvendando a fantasia. “Labirinto” é um filme que fez muita criancinha chorar no cinema por conta dos monstrinhos, mas, ainda assim, um filme lindo. Eu espero que tenham gostado porque eu gostei muito!
Bibliografia
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2007.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise, didática. 1 ed. São Paulo: Moderna, 2000.
THE Labyrinth. Direção de Jim Henson. Inglaterra: Estúdios Elstree, 1986.
Por RENATO MOTA
