Em tempos de notificações incessantes, prazos comprimidos e uma urgência que parece não ter fim, ler virou um ato quase subversivo. Não é só entretenimento: a leitura é pausa, profundidade e encontro. É o lugar onde desaceleramos para pensar melhor, sentir com mais precisão e lembrar que somos mais do que a nossa agenda. Num mundo que premia a distração, o livro pede presença. E é na presença que a gente volta a caber em si mesmo.
É por isso que a coluna Momento Resenha nasce aqui. Cada edição vai abrir espaço para obras que nos desafiem a olhar com mais cuidado para o que lemos, para o que vivemos e para o que deixamos passar despercebido. Livros não mudam a vida por mágica. Mudam porque nos oferecem outra lente.
Abrimos esta coluna com “O Poder do Agora”, de Eckhart Tolle.
O livro parte de uma ideia simples e radical: o sofrimento nasce quando vivemos presos ao passado ou ansiosos pelo futuro, ignorando o único lugar onde a vida realmente acontece, o presente. Tolle propõe a iluminação espiritual não como algo distante e místico, mas como um estado acessível quando aprendemos a observar a mente sem nos identificar com ela. Através de reflexões e exercícios práticos, ele guia o leitor a dissolver a voz interna que julga, compara e teme, e a encontrar quietude no agora.
Mais do que um guia espiritual, é um convite para desarmar o piloto automático. Ler Tolle é ser lembrado de que a paz não está lá adiante, em alguma conquista futura. Está aqui, entre uma respiração e outra, quando escolhemos estar inteiros no momento.

Livro: O PODER DO AGORA
AUTOR: ECKHART TOLLE
O poder do agora: um convite radical à presença
Em O Poder do Agora, Eckhart Tolle propõe uma mudança profunda na forma como percebemos a vida, o tempo e a nós mesmos. Longe de ser apenas um livro de autoajuda, a obra apresenta uma reflexão quase filosófica e espiritual sobre o sofrimento humano, defendendo que a raiz da maioria dos nossos problemas está na incapacidade de viver plenamente o momento presente.
Logo no início, Tolle introduz uma ideia central: a mente, embora essencial para a sobrevivência, tornou-se uma ferramenta dominante e muitas vezes tirânica. Em vez de utilizarmos o pensamento de forma consciente, somos frequentemente dominados por ele. Esse fluxo incessante de pensamentos, voltado ao passado ou projetado no futuro, nos desconecta do único ponto em que a vida realmente acontece: o agora.
O autor afirma que o sofrimento psicológico está profundamente ligado ao apego ao tempo. O passado, com suas culpas, arrependimentos e dores, e o futuro, carregado de ansiedade e expectativas, funcionam como mecanismos que afastam o indivíduo da experiência presente. Para Tolle, o “tempo psicológico” é uma construção da mente que nos aprisiona. Já o “tempo do relógio”, necessário para a organização da vida, não é o problema. A dificuldade surge quando transformamos o tempo em identidade.
Um dos conceitos mais impactantes da obra é o de “corpo de dor”. Trata-se de um acúmulo de emoções negativas não resolvidas que carregamos ao longo da vida. Esse corpo de dor pode ser ativado por situações cotidianas e tende a alimentar pensamentos negativos, criando um ciclo de sofrimento. Ao tomar consciência desse processo, o indivíduo passa a ter a possibilidade de interromper esse padrão automático.
Outro ponto fundamental é a distinção entre o “eu verdadeiro” e o “ego”. O ego, segundo Tolle, é uma construção mental baseada em identificações: com histórias, papéis sociais, posses e até mesmo sofrimentos. Quando nos identificamos totalmente com o ego, vivemos em constante comparação, carência e medo. O “eu verdadeiro”, por outro lado, está ligado à consciência pura, à capacidade de observar pensamentos e emoções sem se confundir com eles.
A prática da presença, então, surge como o caminho proposto pelo autor. Estar presente não significa ignorar responsabilidades ou viver de forma passiva, mas sim agir com consciência plena, sem o peso excessivo do passado ou a ansiedade pelo futuro. Tolle sugere exercícios simples, como observar a respiração, prestar atenção ao corpo ou perceber o silêncio entre os pensamentos. Essas práticas ajudam a criar um espaço interno de calma e lucidez.
Um aspecto interessante da obra é a valorização do silêncio e da quietude. Em uma sociedade marcada pela pressa e pelo excesso de estímulos, o silêncio é frequentemente evitado. No entanto, Tolle o apresenta como um portal para a presença. Ao silenciar a mente, mesmo que por instantes, o indivíduo entra em contato com uma dimensão mais profunda de si mesmo.
O livro também aborda os relacionamentos humanos sob essa perspectiva. Muitas relações são construídas a partir da carência e da dependência emocional, reforçando padrões de sofrimento. Quando uma pessoa está presente, ela deixa de buscar no outro a solução para suas dores internas e passa a se relacionar de forma mais livre e consciente. Isso não elimina conflitos, mas transforma a maneira como lidamos com eles.
Outro ponto relevante é a aceitação. Para Tolle, resistir ao momento presente gera sofrimento desnecessário. Aceitar não significa concordar ou se acomodar, mas reconhecer a realidade como ela é antes de agir. Essa postura reduz a reatividade emocional e permite respostas mais equilibradas.
Ao longo da obra, o autor utiliza uma linguagem acessível, frequentemente estruturada em perguntas e respostas, o que aproxima o leitor e facilita a compreensão de conceitos mais abstratos. No entanto, apesar da simplicidade aparente, o conteúdo exige reflexão e prática. Não se trata apenas de entender intelectualmente, mas de experimentar.
Em um contexto contemporâneo marcado por ansiedade, sobrecarga de informações e busca constante por produtividade, O Poder do Agora se apresenta como um contraponto. Ele convida o leitor a desacelerar e a perceber que a vida não está no próximo objetivo, na próxima conquista ou no próximo problema a ser resolvido, mas sim no instante presente.
Por fim, a grande contribuição do livro talvez seja a mudança de perspectiva que ele propõe: sair de uma existência baseada no “fazer” para uma experiência fundamentada no “ser”. Ao aprender a habitar o agora, o indivíduo não elimina os desafios da vida, mas passa a enfrentá-los com mais clareza, equilíbrio e, sobretudo, presença.
Por NATÁLIA CARMO
