CRÔNICAS – Check-up por Neri Luiz Cappellari

CRÔNICAS – Check-up por Neri Luiz Cappellari

NERI LUIZ CAPPELLARI

 

Arquiteto, escritor – faz parte da Academia de Escritores do Litoral Norte (AELN) RS; Instituto Cultural Português; Academia Internacional de Artes, Letras e Ciências (ALPAS 21).

 

CHECK-UP

 

Uma vez por ano, quando se aproxima a época de fazer uma série de exames de saúde, de rotina, é que me dou por conta do quanto somos vulneráveis.  Aquela checagem necessária de rotina, a princípio tranquila, pode fazer mudar o rumo dos ventos e transformá-lo subitamente em uma tempestade em alto-mar. De repente, um simples exame de sangue, uma imagem mais detalhada do nosso coração, uma verificação mais apurada sobre nossos órgãos internos podem revelar surpresas que tirarão o sono e o nosso chão.

Essa sensação acontece a cada vez que faço os testes para ver se a saúde está em dia, ou, se porventura, é necessário verificar melhor como está indo o nosso corpo, o nosso bem-estar. A cada vez que vejo o resultado impresso em um envelope ou na tela de um computador, uma batalha é travada dentro de mim, um suor frio desce do meu rosto, um calafrio percorre o meu corpo e digo para mim mesmo – seja lá o que Deus quiser…É claro que o nosso amigo, lá de cima, não tem nenhuma responsabilidade sobre o que nós fazemos aqui na terra, mas o que vale é rezar para que o velhinho de barba branca dê um empurrãozinho celestial, para prorrogarmos nossa estada aqui nesse pontinho azul perdido na Via Láctea.

Entretanto, tirando os apelos espirituais, o que verdadeiramente importa são os cuidados que nós temos a zelar com a nossa parte física. A qualidade dos alimentos que ingerimos, os exercícios físicos necessários, as horas de descanso são alguns desses itens que certamente influenciarão na nossa saúde. Logicamente os casos furtuitos da vida poderão abreviar a nossa permanência nesse planeta, mas isso não impede de caminharmos em busca de um corpo saudável. Todo o ano, quando piso em um laboratório ou hospital para fazer o check-up sempre fica a dúvida. Será que eu fiz o dever de casa devidamente para contribuir com o meu bem-estar físico, ou poderia ter me esforçado mais? Se eu tivesse seguido rigorosamente os conselhos médicos e as recomendações do meu nutricionista, os resultados dos exames teriam sido melhores?

O fato é que, à medida em que os anos passam, vamo-nos familiarizando, mais e mais, com jargões médicos. Hemograma, ergometria, endoscopia, colonoscopia, ecodoppler das carótidas, do abdômen, ecografia, tudo isso passaria despercebido, aos nossos olhos, se não tivessem implicações com a nossa saúde. Todos os cuidados são necessários para mantermos nosso corpo são. No entanto, embora nos esforçamos para ingerir somente alimentos saudáveis – ou, às vezes, nos permitimos alguns excessos que sopram contra os ventos de uma alimentação saudável – o fato é que sempre me dá calafrios, sobressaltos, insegurança a toda vez que abro um envelope que contém os resultados dos exames de saúde.

Um exame de sangue que nos mostra os triglicerídeos altos pode revelar que devemos fazer alguns ajustes na direção do nosso leme. O vento mudou, e aquela vontade louca de comer uma bela massa à carbonara com sobremesa de pudim deverá ser substituída. Devemos deixar a vela a meio mastro com uma alimentação menos gordurosa, mais leve talvez… Com essa mudança, até aquele chope bem geladinho se transformará em uma água mineral – sem gás. O resultado catastrófico de um teste ergométrico será a prova cabal da necessidade de que devemos comer menos, diminuirmos as horas em frente à televisão e sairmos do sofá. O ecodoppler das carótidas nos mostrará ao vivo e a cores o resultado de uma vida pregressa com excessos de muitas gorduras. Correr em um parque, frequentar uma academia, termos aulas de natação, fazer qualquer esporte que nos dê prazer são formas de ajudar a nossa condição física e a nossa alma.

Eu, particularmente, nunca fui adepto aos radicalismos de uma vida plenamente saudável. Gosto de deixar as velas de meu navio, a meio mastro, em fins de semana. Até poderia ajustar o curso para navegar por mares de frutas, legumes, sanduiches veganos, verduras, sucos naturais e aproveitar melhor o vento que sopra do lado dos nutricionistas mais conservadores. Entretanto, minha dieta baseada no verde perdura de segunda a sexta. Aos sábados ou aos domingos, o meu navio dá uma guinada levemente perigosa de proa a popa. Quando avisto, lá longe, no horizonte, um belo prato de frango à parmegiana, uma lasanha, uma pizza napolitana ou um belíssimo hamburguer acompanhado de um chope bem gelado ou uma bela taça de vinho eu grito: terra a vista. Após esse brado de “independência ou morte” aporto – não sem culpa – em um restaurante para degustar essas pecaminosas delícias da gastronomia. Na segunda-feira – talvez agora com alguma culpa ou remorso –, iço as velas e retorno para o alto mar, e, lá, permaneço por alguns tempos. Naqueles lados, os ventos sopram mais fortes, mais puros, mais saudáveis, menos tentadores.

Não vou dizer que, ao parar em algum porto, estarei esquecendo do meu compromisso com a minha saúde, apenas quero conversar com o meu check-up e dizer-lhe, de coração, que amo a vida e a ela prometo amor eterno. Entretanto, como todo bom marujo lhe digo: sempre terei uma amada cheirando à pizza napolitana, frango à parmegiana, lasanha à bolonhesa me esperando em cada porto onde parar. Se porventura, um dia, essas paixões me levarem por mares bravios e meu barco afundar. Direi que – talvez, não sem algum remorso – esforcei-me para seguir o curso das águas calmas, saudáveis e seguras; como também amei o sabor das tempestades.

Por NERI LUIZ CAPPELLARI

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *