CONTOS – O Café Passagem – Capítulo 6: A Origem do Dom por J.B Wolf

CONTOS – O Café Passagem – Capítulo 6: A Origem do Dom por J.B Wolf

Recapitulação

Capítulo 5: Páginas em Branco

Daniel passa o domingo atormentado pela perda completa de suas habilidades premonitórias. Conversa com Miguel, seu irmão, que sugere que talvez isso seja positivo. Na segunda-feira, Daniel caminha sem rumo e acaba no Café Passagem, onde encontra Luísa pesquisando sobre habilidades premonitórias. Ela descobre que muitos casos documentados mostram que o dom pode desaparecer quando a pessoa encontra estabilidade emocional. Decidem passar o dia explorando a cidade sem planos, vivendo apenas o presente. Daniel percebe que não sente mais falta das visões e experimenta pela primeira vez a liberdade de não saber o futuro. O capítulo termina com eles se beijando no parque, abraçando a incerteza como uma fonte de possibilidades infinitas.

 

Capítulo 6 – A Origem do Dom

Quinze anos antes

Daniel tinha doze anos quando o mundo mudou para sempre.

Era um sábado chuvoso de abril, e ele estava no sótão da casa do avô Henrique, procurando livros antigos para um trabalho escolar. O velho casarão cheirava a naftalina e memórias, com suas vigas de madeira escura e janelas que filtravam a luz cinzenta da tarde.

Foi atrás de uma pilha de enciclopédias empoeiradas que ele encontrou o baú.

Não era grande — do tamanho de uma caixa de sapatos — mas havia algo nele que chamava atenção. A madeira escura estava entalhada com símbolos que Daniel não reconhecia, e uma fechadura antiga, sem chave, mantinha a tampa selada.

— Vovô! — gritou Daniel, descendo as escadas com o baú nas mãos. — O que é isto?

Henrique estava na cozinha, preparando seu chá da tarde com a precisão ritual de quem havia feito o mesmo gesto milhares de vezes. Quando viu o baú, suas mãos tremeram, e a xícara quase escorregou.

— Onde encontrou isso? — perguntou, a voz subitamente grave.

— No sótão. Estava escondido atrás dos livros.

O avô se sentou pesadamente na cadeira da cozinha, como se o peso dos anos tivesse dobrado em segundos.

— Sente-se, Daniel. Há coisas que preciso te contar.

Daniel obedeceu, colocando o baú sobre a mesa. Henrique o observou por um longo momento, como se estivesse vendo um fantasma.

— Este baú pertenceu ao meu avô, e ao avô dele antes disso. Nossa família… nossa família tem uma peculiaridade, Daniel. Algo que passa de geração em geração, saltando algumas pessoas, escolhendo outras.

— Que tipo de peculiaridade?

— A capacidade de ver além do presente. De escrever sobre coisas que ainda não aconteceram.

Daniel riu, pensando que o avô estava brincando.

— Como nos filmes de ficção científica?

— Não é ficção, menino — Henrique disse seriamente. — Eu tive essa capacidade dos quinze aos quarenta anos. Meu bisavô também. E agora… agora talvez seja sua vez.

— Isso é impossível, vovô.

— É? — Henrique se levantou e foi até uma gaveta, de onde tirou uma chave pequena e antiga. — Vamos descobrir.

A chave se encaixou perfeitamente na fechadura. Quando o baú se abriu, Daniel viu dezenas de cadernos, todos com capas de couro escuro, organizados cronologicamente. Henrique pegou o mais antigo.

— Este é de 1943 — disse, abrindo numa página marcada. — Escrevi sobre o fim da Segunda Guerra, dois anos antes de acontecer. Aqui — virou algumas páginas — sobre a morte do presidente Vargas, em 1954. Escrevi em 1952.

Daniel olhou as páginas amareladas, cobertas pela caligrafia cuidadosa do avô. Os detalhes eram específicos demais para serem coincidência.

— Como?

— Não sei como, Daniel. Só sei que acontece. Você senta, pega uma caneta, e as palavras vêm. Como se você estivesse lembrando de algo que ainda não viveu.

— E por que parou?

Henrique sorriu com melancolia.

— Porque conheci sua avó. No dia em que me apaixonei por ela, as visões pararam. Como se o amor tivesse me ancorado no presente.

Daniel tocou um dos cadernos mais recentes.

— E você acha que eu…?

— Há sinais — Henrique disse. — Você sempre soube quando ia chover, mesmo com o céu limpo. Sempre escolhia o caminho certo quando nos perdíamos. Pequenas coisas, mas sinais.

Era verdade. Daniel sempre tivera uma intuição estranha sobre eventos futuros, mas nunca havia pensado nisso como algo sobrenatural.

— O que devo fazer?

— Nada, por enquanto. Se o dom vier, virá naturalmente. Mas Daniel… — o avô segurou suas mãos — se isso acontecer, lembre-se: é um presente e uma maldição. Você verá coisas maravilhosas e coisas terríveis. E nem sempre poderá mudá-las.

Três dias depois, Henrique morreu dormindo.

Daniel estava na escola quando recebeu a notícia. Voltou para casa em estado de choque, e foi direto para o quarto do avô, onde o baú ainda estava sobre a mesa.

Pegou um caderno em branco e uma caneta, mais por impulso que por intenção. Sentou-se e, sem saber por quê, começou a escrever:

“O funeral será na quinta-feira. Choverá durante o enterro, mas o sol aparecerá quando baixarem o caixão. Tia Carmen usará o vestido azul-marinho e chorará mais que todos. Miguel ficará ao meu lado, segurando minha mão.”

Daniel parou de escrever, assustado com as próprias palavras. De onde haviam vindo? Por que havia escrito sobre chuva quando a previsão era de sol?

Na quinta-feira, tudo aconteceu exatamente como ele havia escrito.

***

Presente

Daniel acordou na terça-feira com a memória do avô vívida na mente, como se tivesse sonhado com ele a noite inteira. Fazia anos que não pensava nos detalhes daquele primeiro dia, quando o dom se manifestara.

Levantou-se e foi até o armário, onde guardava os cadernos antigos do avô junto com os seus próprios. Pegou o primeiro caderno que havia usado, ainda adolescente, e releu as primeiras páginas.

As previsões eram simples no início: resultados de jogos, mudanças no tempo, pequenos eventos familiares. Com o passar dos anos, haviam se tornado mais complexas, mais específicas. E então, três anos atrás, havia começado a escrever sobre Luísa.

Agora, olhando para as páginas em branco de seu caderno atual, Daniel se perguntava se estava seguindo o mesmo caminho do avô. Henrique havia perdido o dom quando se apaixonou. Seria isso que estava acontecendo com ele?

O telefone tocou, interrompendo seus pensamentos.

— Daniel? — Era a voz de Luísa. — Desculpe ligar tão cedo. Sei que marcamos para nos ver só à noite, mas…

— Mas?

— Tive um sonho estranho. Sonhei com um homem idoso que dizia ser seu avô. Ele me mostrava cadernos antigos e dizia que eu precisava entender de onde vinha seu dom.

Daniel sentiu um arrepio percorrer a espinha.

— Como era ele no sonho?

— Alto, cabelos brancos, olhos iguais aos seus. Usava um colete de lã marrom e cheirava a tabaco de cachimbo.

A descrição era perfeita. Henrique sempre usava aquele colete, e o aroma de tabaco era sua marca registrada.

— Luísa — Daniel disse, a voz tremendo — você acabou de descrever meu avô Henrique. Ele morreu quando eu tinha doze anos.

Silêncio do outro lado da linha.

— Isso é impossível — ela sussurrou.

— Você pode vir aqui? Há coisas que preciso te mostrar. Coisas sobre minha família, sobre como tudo começou.

— Estou indo.

***

Uma hora depois, Luísa estava sentada no sofá de Daniel, folheando os cadernos antigos de Henrique. Suas mãos tremiam levemente enquanto lia as previsões que haviam se tornado realidade décadas antes.

— Meu Deus, Daniel. Isso é… isso é real.

— Sempre foi. Meu avô me contou sobre nossa família três dias antes de morrer. Disse que o dom passava de geração em geração, mas nem sempre para todos.

— E você desenvolveu a habilidade depois que ele morreu?

— No mesmo dia. Como se ele tivesse me passado alguma coisa, ou como se a morte dele tivesse despertado algo que já estava lá.

Luísa fechou o caderno e olhou para Daniel.

— Ele disse mais alguma coisa no meu sonho.

— O quê?

— Que o dom não é uma maldição, mas uma preparação. Que você passou quinze anos vendo o futuro para estar pronto quando o presente realmente importasse.

Daniel sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

— Ele sempre dizia que o amor havia o ancorado no presente. Que foi por isso que perdeu as visões quando conheceu minha avó.

— E agora está acontecendo com você.

— Parece que sim.

Luísa se aproximou e segurou as mãos dele.

— Daniel, posso te fazer uma pergunta que talvez seja difícil?

— Claro.

— Você sente falta? Do dom, das visões?

Daniel pensou cuidadosamente antes de responder.

— Sentia. Nos primeiros dias, me sentia perdido, como se tivesse perdido uma parte de mim mesmo. Mas agora… — ele olhou nos olhos dela — agora percebo que talvez tenha ganhado algo muito mais valioso.

— O quê?

— A capacidade de me surpreender. De viver cada momento sem saber o que vem depois. E principalmente… — ele tocou o rosto dela suavemente — a possibilidade de construir um futuro junto com alguém, em vez de simplesmente observá-lo acontecer.

Luísa sorriu, e Daniel viu naquele sorriso algo que nenhuma visão jamais havia lhe mostrado: a promessa de um futuro que eles escreveriam juntos, uma página em branco de cada vez.

— Seu avô estava certo — ela disse. — O amor realmente ancora no presente.

— E você? — Daniel perguntou. — Não tem medo de estar com alguém que vem de uma família tão… estranha?

— Tenho medo de muitas coisas — Luísa admitiu. — Mas de você, não. De nós, não. Porque pela primeira vez na vida, o futuro não me assusta. Ele me emociona.

E naquele momento, Daniel soube que o avô estava certo. O dom havia sido uma preparação, uma forma de esperar pelo momento certo, pela pessoa certa. Agora que havia encontrado Luísa, não precisava mais ver o futuro.

Precisava apenas vivê-lo.

Por J. B WOLF

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