Imagino que bibliotecas sejam encantadoras até para aqueles que não apreciam a leitura. Por mais simples e pequenas que possam parecer, não adianta, elas têm o seu charme, e, claro, o seu cheiro muito próprio. Talvez eu me lembre menos da arquitetura e da dimensão das bibliotecas que já visitei, e bem mais do cheiro, sabem, aquele cheiro de papel acumulado, das prateleiras empoeiradas, dos volumes ali envelhecidos, do peso da história e da tradição. São lugares, por natureza, sagrados, porque acolhem de bom grado preocupações, fantasias e dores humanas.
Também são lugares antiquíssimos, que respondem bem às urgências dos povos e suas culturas: provocam recolhimento, instigam a criatividade, reúnem estudiosos, curiosos e diletantes, promovem encontros fortuitos e intensos, entre os vivos e os mortos. Desde quando existem, afinal, o que chamamos aqui nesta edição da The Bard de páginas de pedra?

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A mais antiga biblioteca do mundo está localizada em continente africano. Fundada em 859, a Biblioteca al-Qarawiyyin, em Fez, atual Marrocos, guarda manuscritos com mais de 12 séculos. Sua estrutura física sofreu evidentemente, ao longo dos anos, danos substanciais, e provavelmente não tenha recebido a atenção mais que merecida, até que, recentemente, em 2012, o Ministério da Cultura marroquino decidiu investir na restauração para poder reabri-la ao público, sob a coordenação da arquiteta Aziza Chaouni. O projeto logrou seu intento, para o bem de todos os seus frequentadores e visitantes.

Imagem de Revista Haus por Google – Pátio da universidade al-Qarawiyyin, fundada no século 9 e restaurada mais de um milênio depois de sua fundação. Foto: Samia Errazouki/AP Images
De posse dessa informação, passei a ficar ainda mais curiosa a respeito da história desses monumentos arquitetônicos e culturais imprescindíveis à nossa existência (por mais que haja milhares de pessoas que não tenham essa percepção e que provavelmente jamais tenham pisado numa biblioteca). Onde fica, aliás, a maior biblioteca do mundo? Nos Estados Unidos, em Washington. A Biblioteca do Congresso (Library of Congress) é a maior em espaço físico e em quantidade de obras no acervo, sendo cerca de 155 milhões de exemplares em mais de 400 idiomas distintos. Uma biblioteca e tanto, esplêndida, imponente.

Imagem de Viajonarios por Google – Washington DC: Biblioteca do Congresso – a maior do mundo
Porém, a maior biblioteca particular não está na América, e sim em Poona, na Índia. Trata-se da coleção de Osho, líder espiritual indiano falecido em 1990, com cerca de 100 mil volumes. Sua biblioteca de Lao Tzu ocupa uma série de corredores em sua antiga residência – e eu, vejam só, que pensava que o acervo monumental de 30 mil obras do autor italiano Umberto Eco, cujos registros em vídeo vi há poucos meses, já fosse uma tara intelectual das mais escandalosas.
Em sentido oposto, segui com minhas pesquisas para descobrir qual a menor biblioteca pública do mundo. Titica mesmo. Uma pequena estrutura amarela instalada em Nova York permite que uma única pessoa ali entre para retirar ou deixar um livro. Com jeitinho, talvez caibam duas pessoas, e no máximo 40 livros em sua estante. A Little Free Library foi montada com resíduos reciclados, assemelha-se a uma cabine telefônica que se destaca por seu amarelo chamativo, resistindo às intervenções climáticas.

Imagem de JornalNota por Google – Little Free Library
Será, então, que o espaço físico realmente importa para a criação e a preservação de uma biblioteca? Porque elas brotam espontaneamente de algumas prateleiras que temos em nossas casas ou em cantinhos de praças, comércios e cafeterias, em esquema colaborativo de leve-um-traga-um, e, de repente, muito vivas, exigem mais acomodações, em escrivaninhas e mochilas, vitrinas protegidas por vidros duplos e cadeados, ou sobre os tapetes do escritório de um poeta um tanto atormentado. As nossas casas possuem bibliotecas, grandes ou pequenas, e as nossas casas inteiras são a biblioteca, muitas das vezes (tais como as residências de escritores renomados da nossa literatura, agora abertas a visitação). Ou, projetadas para grandes públicos como polos turístico-culturais, são as bibliotecas que viram a nossa casa.

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Conheçamos algumas dessas, com ajuda da mais recente seleção realizada pela Casa Cor no Brasil, das “12 bibliotecas com arquitetura impressionante ao redor do mundo”, de agosto do ano passado. A proposta parece justamente querer destacar os desenhos mais criativos e as soluções mais inovadoras no mundo da arquitetura de bibliotecas, em relação, inclusive, aos materiais, à iluminação, à estética, ao conforto e, óbvio, à acessibilidade. A seleção me surpreendeu, já confesso. À primeira vista, poderíamos supor que tais atrações estivessem concentradas na Europa e nos Estados Unidos, regiões conhecidas por sua longeva valorização da literatura e das artes em geral, incluindo museus e galerias. Dentre as 12, no entanto, 6 bibliotecas são asiáticas, incluindo China, Coreia do Sul, Vietnã, Índia e Japão. Uma ultracolorida, outra quase toda transparente, uma terceira com cara de cabaninha na floresta, são todas elas muito convidativas.
A brasileira (sim, estamos na lista!) é a Biblioteca Nacional do Brasil, que tem por nome oficial institucional Fundação Biblioteca Nacional, depositária de um patrimônio bibliográfico e documental considerado pela UNESCO um dos maiores e mais importantes da América Latina. A Fundação vale, e muito, a visita, dada a sua imponência tão deslumbrante. Inaugurada em 1910 com o propósito de substituir a Livraria Real Portuguesa, perdida num incêndio em Lisboa, abriga cerca de dez milhões de itens que não param de se multiplicar, visto que ao menos um exemplar de todas as publicações produzidas em território nacional deva ser enviado para lá.

Imagem de Biblioteca Nacional do Brasil por Wikipédia
Eu a conheci há cerca de 2 anos. Assim tenho na vida colecionado bibliotecas. Desde a minha biblioteca municipal de infância, para onde corria quando precisava me reunir com colegas e buscar informações para trabalhos escolares, escritos à mão, preservada até hoje, até as inúmeras bibliotecas das tantas faculdades da Unicamp, em Campinas, onde me encontrei sentimentalmente com minha profissão, somando aquelas das muitas viagens que fiz, aqui e fora do Brasil. São um tanto minhas essas bibliotecas, assim como vocês têm as suas. Todos, acho, deveríamos colecionar bibliotecas. Estar dentro delas, senti-las, cheirá-las. Porque esse cheiro, para quem ama livros como nós, não nos abandona nunca. Ele fica, persiste. Nos protege contra a aspereza de uma vida sem alma e sem cultura.
Ótima leitura para vocês, e até a próxima!
Por VANINA SIGRIST
