Penso que nunca vou me cansar de falar sobre fantasia e coisas fantásticas sobre livros, filmes e jogos com histórias incomuns. Então, trago, nesta edição da revista, uma história que fala sobre contar histórias. Chama-se “A história sem fim”, do autor Michael Ende (1929–1995), que certamente gostava de imagens incomuns, pois seu pai era um pintor surrealista (cuja arte era considerada degenerada pelo regime nazista). Um livro maravilhoso, com um protagonista gordinho de cerca de 11 anos e várias criaturas divertidas, como um gigante de pedra, um elegante homenzinho que corre em um caracol, duendes e muitos recursos maravilhosos. Como eu disse, uma meta-história com contos e outros textos, tudo entrelaçado. A intenção aqui não é fazer o melhor resumo do mundo sobre um livro de 430 páginas, então vamos ao que nos interessa.

Imagem do Livro “História sem fim”por Google
Atreyu procura um menino humano
Começamos o livro com Bastian Balthazar Bux (e haja letra B no meio do mundo) entrando aperreado numa livraria, fugindo de moleques que faziam com ele toda sorte de malvadezas. O livreiro, Carl Conrad Coreander (BBB depois CCC… imagino que deva haver um sentido nisso), a princípio diz não gostar de crianças, mas, ao perceber que Bastian gosta de livros e está fugindo, acaba permitindo que Bastian fique lá um pouco mais.
Bastian é um menino que perdeu a mãe havia pouco tempo e o pai andava com poucas interações afetivas com o filho. Os livros são a companhia do menino. Foi quando ele viu, na mesa do senhor Coreander, o livro chamado “A história sem fim”, com a imagem de duas cobras dispostas em oval, mordendo a cauda uma da outra. Bastian se aproveitou de um descuido do senhor Coreander e subtraiu da livraria o exemplar, levando-o para a escola, onde se escondeu para ler. E foi lá que a coisa ficou estranha.

IMAGEM GERADA POR IA “usando FREEPIK, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 24/01/2026″
Já vi muitos livros de fantasia, onde a protagonista dá uma fugida do mundo comum e vive aventuras esdrúxulas, como em “Alice no País das Maravilhas”. Na verdade, segundo Joseph Campbell (2007), em “O herói de mil faces”, sair do mundo comum, seja para um mundo imaginário, paralelo ou uma grande viagem, é o estopim de toda boa história. Eu poderia falar longamente sobre essa estrutura de texto “canibalesca” e um zilhão de possibilidades que transgridam essa estrutura, mas como diria o Michael Ende (2022), isso é outra história. Então vamos ver como acontece essa transgressão em “A história sem fim”.

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Bastian era agredido e humilhado pelos colegas da escola por ser o tipo de criança que inventa suas próprias histórias e acaba, por vezes, contando-as a si mesmo. Histórias cheias de palavras inventadas e personagens incomuns, como os que aparecem no texto que ele estava lendo. Isso o prendia cada vez mais na leitura. O livro fala sobre uma terra chamada Fantasia e a leitura funcionou como um “chamado para a aventura” de Bastian.
A princípio, o livro nas mãos de Bastian mostrava um gigante que se alimentava de pedras, um duende que voava em um morcego, um homenzinho pequeno em um caracol de corrida e um fogo-fátuo. Todos com a missão de chegar à Torre de Marfim e encontrar a “Imperatriz Criança”, que estava doente e nenhum médico de Fantasia conseguia curá-la. Em redor de uma fogueira, os quatro viajantes falavam sobre um assustador fenômeno que se espalhou em Fantasia: um nada que consumia tudo que o tocava. Onde havia o lago, agora não tinha nada, onde havia uma montanha, agora não tinha nada. E não era como se o lago secasse. Se houvesse um lago seco, haveria alguma coisa. Tudo que o nada tocava se tornava, desconcertantemente, nada, e isso parecia estar ligado à doença da Imperatriz.

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Já na Torre de Marfim, um centauro recebeu a missão de encontrar Atreyu, um menino de um povo de pele verde que vivia da caça de búfalos, e entregar-lhe um amuleto chamado Auryn, que tinha a mesma imagem da capa do livro, duas cobras dispostas em oval, mordendo a cauda uma da outra. Atreyu montou em seu cavalo falante e saiu desarmado, portando o Auryn, em busca de uma criança humana.

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A partir desse ponto, segue-se a aventura de Atreyu e, estranhamente, coisas que aconteciam com Bastian, aconteciam também com o herói do livro que ele estava lendo. Bastian pegou um sanduíche e Atreyu fez uma pausa para comer. Bastian teve um susto e Atreyu se assustou também. Quando Artax, o cavalo falante, morreu em um pântano, Bastian chorou como Atreyu.
Mais adiante, Atreyu conheceu o dragão da sorte, chamado Fuchur, sendo perseguidos por um lobisomem (que comeria qualquer lobo mau da história de Chapeuzinho Vermelho) chamado Gmork. Atreyu conversou com o Gmork e conheceu outras criaturas encantadoras como: pequenos duendes, uma criatura formada por um enxame de insetos, chamada Ygramul, e uma tartaruga gigante não tão encantadora assim, chamada Morla. As coisas não aconteceram exatamente nessa ordem. Por informação de Morla, Atreyo soube que a Imperatriz seria curada se ela recebesse um novo nome, mas apenas uma criança humana poderia fazer isso.

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Só até esse ponto da história existem muitas metáforas, como o pântano da tristeza, onde a pessoa se afundava quando perdia as esperanças, como o Bastian, afundando em saudade da mãe; o nada, que consumia tudo com seu vazio; e o pai de Bastian, que trabalhava o dia todo e, mesmo quando estava perto do filho, parecia longe. Esse “nada”, quanto mais perto, mais se tornava intenso e acabava atraindo as coisas para si. Era como na depressão: quanto mais para baixo o indivíduo se sente, mais difícil é para melhorar.

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No fim das contas, a grande missão de Atreyu era levar um garoto humano até Fantasia, e o menino humano, Bastian, acompanhou Atreyu durante toda a leitura. No final da primeira parte do livro, a Imperatriz Criança pediu, através do texto, que Bastian lhe desse um novo nome. E Bastian questionou a própria sanidade mental. A Imperatriz só tinha aparência de menina, mas era velha como o tempo do mundo. Quando enfim Bastian aceita que o livro, ou a Imperatriz Criança, estava de fato falando com ele, o jovem falou o nome que escolheu para ela: “Filha da Lua”.
Bastian foi parar no livro “Filha da Lua”, que lhe deu o Auryn, para ele refazer Fantasia. Ele era um menino bem criativo e, quando começou a fantasiar, o lugar todo voltou a ser o que já foi um dia e muito mais.
A história sem fim tem um fim. Mais ou menos…
Com o amuleto no pescoço, Bastian caminhou por um deserto colorido e conheceu um leão chamado Graugamar, a morte multicolorida. Se esse livro é, de alguma forma, a fantasia de quem lê, está justificado por que o leão é colorido, afinal, o Bastian tem uns 11 anos? Segundo Graugamar, tudo que entra no deserto colorido morre queimado, e o deserto é o próprio Graugamar. Assim, onde for o leão, o deserto vai junto. Durante o período de sol, é um deserto colorido e, durante o período da noite, o leão se petrifica e uma floresta surge. Muita gente vê isso como uma indecisão (muitas cores, vida, morte…) de quem tem uma liberdade gigante e não sabe o que fazer com isso. Bacana que o leão tinha um castelo e todo tipo de comida, mas nenhum funcionário. Possivelmente, se o Bastian pensasse nisso, iria acordar de um sonho. Mas, deixando essas questões de lado, eu adoro esse livro! No fim dessa parte, o leão dá a Bastian uma espada que só poderá ser portada por quem souber o nome dela. E é claro que Bastian sabia que o nome dela era Sikanda… E a espada só poderia ser usada em combate se ela mesma se saltasse da bainha e fosse para a mão do usuário. Sikanda escolhia as batalhas que lutaria.

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Para Bastian, aquele tempo de criação sem limites era maravilhoso. Ele poderia viver e criar o que ele quisesse. No começo, Bastian era contra a violência, a ponto de não revidar contra os moleques que o agrediam, e Atreyu saía em busca dele absolutamente desarmado. Mas agora, a fantasia consciente de Bastian envolvia uma espada mágica e ele queria aventuras e batalhas.
O amuleto Auryn era a fonte dos desejos, e isso era viciante. Mas a cada desejo, o amuleto tomava de Bastian uma memória. Assim, desejar muita bobagem era bem perigoso, já que ele deveria ir de desejo em desejo, até encontrar um desejo que o levasse de volta para o mundo real.
É preciso aqui fazer algumas distinções: o desejo consciente, aquele superficial, onde “Seu Fulaninho” ou “Dona Fulaninha” quer pizza, chocolate ou fazer sexo com determinada pessoa porque é bonita; o desejo inconsciente, na concepção psicanalítica, que tem muito mais a ver com direcionar-se ao que é intenso, independentemente de ser um objeto bom ou ruim, como um bebê que brinca com um ursinho de pelúcia ou com cocô; e a necessidade, aquilo que você realmente precisa, como um remédio, mesmo que seja amargo. Aqui vemos Bastian afundando na fuga da realidade. Ele sai de um mundo onde ele é perseguido por outros meninos, onde ele não tem mãe, onde o pai está distante e vai para um mundo mágico, onde ele pode ter, ser e fazer o que quiser. Conscientemente, ele deseja criar e viver aventuras, como uma compensação das amarguras da vida real; inconscientemente, ele repete os desejos, como num vício, entregando cada vez mais de si, o que não tem como dar certo; e, finalmente, a necessidade dele de tomar o remédio amargo, ou retornar ao mundo real e enfrentar a realidade dura e crua e crescer, isso, Bastian procrastinou, chegando a dizer com todas as letras, “vou ficar para sempre em fantasia”.
De desejo em desejo, Bastian fez amizade com Atreyu e Fuchur, viveu algumas aventuras e, quando estava em uma cidade de prata, construída em bascos sobre um lago corrosivo, Bastian contou a história de como aquela cidade foi criada: uma raça de seres feios e tristes chorou até criar o lago, e estas lágrimas também purificaram a prata no subsolo, que depois foi minerada e usada para criar a cidade. A partir dessa contação, a história se tornou real e foi assim que a cidade surgiu. Atreyo e Fuchur perceberam que Bastiane estava diferente, que o Auryn estava drenando algo dele. Antes, Bastian era um menino rechonchudo, agora era um tipo de fortão de histórias de espada e magia dos anos 70 e 80, e não tinha nada para dizer quando lhe perguntavam sobre a escola onde estudou ou seu mundo de origem. Quando Atreyu e Fuchur tentaram, para o bem de Bastian, roubar o Auryn, eles foram pegos e Bastian não os matou porque já foram amigos, embora tenha desejado nunca mais os ver. Nesse meio tempo, Bastian foi seduzido por uma feiticeira bonitona que o fez guerrear contra a “Torre de Marfim” e querer se coroar e se autodeclarar a “Polícia do Mundo”, digo, “Imperador de Fantasia”.

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Tomada a Torre de Marfim, Bastian vê que Filha da Lua não está lá, e se lembra de uma coisa que ouvira antes: humanos não podem ver a imperatriz mais de uma vez. Mas ele, agora um grande guerreiro com o ego inflado, imaginava estar livre dessa regra.

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Bastian adiou a própria coroação e, num passeio que fez, conheceu um macaquinho irreverente chamado Argax. O danado mostrou a Bastian um lugar assustador, chamado Cidade dos Antigos Imperadores, onde viviam todos os humanos que foram à fantasia antes de Bastian e que haviam desejado ser Imperadores de fantasia. Um deles cavou um buraco e lá colocou uma vela acesa, para logo em seguida, jogar terra no buraco; outro levava um carrinho de bebê com um objeto sem sentido dentro… e coisas assim. E Bastian percebeu ser bom fugir um pouco da realidade, mas viver num mundo de fantasia não era saudável.

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A superação e o retorno pela fantasia
Nesse ponto da história, restavam poucas memórias para Bastian usar, assim, poucos desejos também. Talvez pelo medo de ir morar na Cidade dos Antigos Imperadores ou por finalmente aceitar a necessidade do remédio amargo, Bastian foi parar em um lugar chamado Casa Mutante (que ficava criando e desfazendo salas por vontade própria) onde morava a Dama Aiuola, uma gentil senhora que morria durante a noite e renascia durante o dia. Dela nasciam frutas deliciosas. A princípio, Bastian questionou a ideia de comer algo que saísse de outra pessoa, mas a senhora lhe explicou que os bebês tomavam leite da mãe e isso não era um problema. Não é preciso ser um gênio para saber que Bastian queria rever a mãe, mas ela estava morta, então ele recriou a brincadeira de vai e volta (fort-da) que Freud cita em “Além do princípio do prazer” (1996). Alguns dias se passaram com Bastian na casa mutante, até que ele foi à busca do próximo desejo. O luto de Bastian foi vivido e superado.

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O desejo de crescimento e retorno ao mundo real levou Bastian a um minerador chamado Yor, que era cego e escavava as entranhas de fantasia em busca de imagens perdidas. Uma dessas imagens deveria trazer alguma memória a Bastian. Como nenhuma das imagens já mineradas por Yor deu resultado, Bastian foi escavar sozinho no escuro e, após dias de trabalho, encontrou uma imagem do próprio pai. O pai, o porto seguro, o que sobrou do mundo de Bastian, destruído pelo nada e pela tristeza. Agora Bastian tinha novamente para onde poder voltar. Isso me lembra “O nome do Pai”, como diria Lacan, como regra regente do entendimento das coisas. Bastian estava diante de seu último desejo: a saída da depressão do nada, a capacidade de amar, representada no livro como uma “água da vida”. Ele amava a memória da mãe, que, mesmo dolorosa, era tudo que restara do amor dela; o pai, seu porto seguro; e a sua própria criatividade para contar histórias.

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Enfim, após anos de aventura, Bastian saiu da fantasia e, no mundo real, havia passado apenas um dia. Ele retorna para casa em um dia feriado e precisou pular a janela, o que para um menino rechonchudo era um obstáculo. Mas um obstáculo pequeno para quem cavalgou um leão e um dragão! Ele fez as pazes com o senhor Coreander (que lhe disse já ter ido à fantasia também), reencontrou o pai e seu luto estava vivido, lamentado e superado.
E chegamos ao fim de mais uma fantasia belíssima. Tenho certeza de que, depois dessa leitura, todos aqui vão inventar muitas aventuras e jornadas fantasiosas para curarem seus traumas e realizarem seus sonhos, “mas isso é outra história e será contada em outra ocasião”. Quem sabe, né?
Bibliografia
ENDE, Michael. A história sem fim. São Paulo: Martins Fontes, 2022.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2007.
LACAN, Jacques. Seminário 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Por RENATO MOTA
