CONTOS – O Café Passagem – Capítulo 5: Páginas em Branco por J.B Wolf

CONTOS – O Café Passagem – Capítulo 5: Páginas em Branco por J.B Wolf

Recapitulação

Capítulo 4: O Segundo Domingo

Luísa retorna ao Café Passagem com um livro de Fernando Pessoa. Daniel chega visivelmente perturbado, revelando que não consegue mais escrever sobre ela desde que se conheceram pessoalmente, as páginas ficam em branco quando tenta ver o futuro. Luísa lê “Autopsicografia” para ele, criando uma reflexão sobre a diferença entre viver e escrever sobre a vida. Daniel descobre que consegue escrever apenas sobre o presente, não mais sobre o futuro. Testando suas habilidades, ele percebe que perdeu completamente o dom de prever eventos futuros. Em vez de se desesperar, sente-se estranhamente livre. Eles marcam um jantar para segunda-feira como “duas pessoas normais”, e pela primeira vez, Daniel deixa o café sem ter escrito sobre visões, apenas sobre o momento real que viveram juntos.

 

Capítulo 5: Páginas em Branco

Daniel passou o domingo à tarde caminhando sem destino pelas ruas da cidade. O encontro com Luísa havia deixado uma sensação estranha em seu peito, uma mistura de alívio e pânico que ele não conseguia nomear. Pela primeira vez em quinze anos, o futuro era completamente opaco para ele.

Quando chegou em casa, o apartamento pareceu menor, mais silencioso. Sentou-se à mesa da cozinha e abriu o caderno na primeira página em branco. Pegou a caneta e tentou escrever qualquer coisa sobre o dia seguinte.

Nada.

Tentou se concentrar em eventos específicos: o resultado de jogos, o clima, notícias que poderiam acontecer. A caneta permanecia imóvel sobre o papel, como se tivesse esquecido sua função.

Às sete da noite, o telefone tocou.

— Daniel? — A voz de Miguel soou preocupada. — Você está bem? Tentei te ligar mais cedo.

— Estou — Daniel mentiu. — Só… pensando.

— Sobre a mulher do café?

Daniel hesitou. Miguel era a única pessoa que conhecia seu segredo, mas também era o mais cético em relação ao dom.

— Encontrei com ela de novo hoje.

— E?

— Perdi a capacidade, Miguel. Não consigo mais ver nada.

O silêncio do outro lado da linha se estendeu por longos segundos.

— Talvez seja temporário — Miguel disse finalmente. — Você já passou por períodos de bloqueio antes.

— Não assim. Desta vez é diferente. É como se… como se conhecê-la tivesse quebrado alguma coisa.

— Ou consertado — Miguel sugeriu. — Daniel, você já considerou que talvez isso seja bom? Você passou a vida inteira preso a visões que nem sempre se realizavam. Talvez seja hora de viver sua própria vida.

— Mas e se eu precisar do dom? E se algo terrível for acontecer e eu não conseguir avisar?

— E se algo maravilhoso for acontecer e você puder simplesmente viver?

Daniel não tinha resposta para isso.

***

Na segunda-feira de manhã, Daniel acordou com uma sensação que não experimentava há anos: curiosidade genuína sobre o dia que o esperava. Não sabia o que aconteceria, e isso era simultaneamente aterrorizante e libertador.

Decidiu fazer algo que nunca fizera: sair de casa sem destino específico e ver onde o dia o levaria.

Caminhou até o centro da cidade, observando detalhes que normalmente passavam despercebidos. A forma como a luz da manhã se refletia nas vitrines, o ritmo apressado dos pedestres, o aroma de café que escapava das padarias.

Sem perceber, seus passos o levaram até O Café Passagem.

Através da vitrine, viu Luísa sentada à mesa deles, digitando em um laptop. Ela não deveria estar ali — era segunda-feira de manhã, dia de trabalho. Mas lá estava ela, concentrada, mordendo levemente o lábio inferior como fizera no domingo.

Daniel entrou no café, e ela ergueu os olhos quando o sino da porta tocou.

— Daniel? — Ela pareceu genuinamente surpresa. — O que faz aqui?

— Eu… não sei — ele admitiu, aproximando-se. — Acordei e meus pés me trouxeram aqui. E você? Não deveria estar trabalhando?

— Deveria — Luísa fechou o laptop. — Mas não consegui me concentrar em casa. Vim aqui porque… bem, porque é aqui que as coisas fazem sentido ultimamente.

Daniel sentou-se à frente dela, e o garçom automaticamente trouxe café sem açúcar e chá de jasmim.

— Sobre o que estava escrevendo? — ele perguntou.

— Na verdade, estava pesquisando — Luísa hesitou. — Sobre pessoas que afirmam ter habilidades premonitórias. Queria entender melhor o que você passou.

— E o que descobriu?

— Que é mais comum do que imaginava. Há relatos ao longo da história, estudos científicos, teorias sobre percepção temporal alterada — ela abriu o laptop novamente. — Mas também descobri algo interessante.

— O quê?

— Muitos casos documentados mostram que a habilidade pode desaparecer quando a pessoa encontra estabilidade emocional. Como se o dom fosse uma forma de compensar algum vazio ou necessidade.

Daniel sentiu um aperto no peito.

— Você está sugerindo que eu só tinha visões porque estava… vazio?

— Não vazio — Luísa se apressou a corrigir. — Talvez buscando algo. E agora que encontrou…

— Não preciso mais procurar no futuro — ele completou.

Eles ficaram em silêncio, absorvendo a implicação. Se a teoria estivesse correta, Daniel havia perdido o dom não por acaso, mas porque finalmente havia encontrado o que procurava: conexão real com outra pessoa.

— Como se sente sabendo disso? — Luísa perguntou.

Daniel considerou a pergunta. Durante toda a manhã, havia se sentido perdido, como um navegador sem bússola. Mas agora, olhando para Luísa, percebeu que talvez não precisasse de uma bússola. Talvez precisasse apenas de um destino que valesse a pena.

— Assustado — ele admitiu. — Mas também… esperançoso? É estranho não saber o que vai acontecer, mas ao mesmo tempo é emocionante.

— Quer fazer um teste? — Luísa sugeriu.

— Que tipo de teste?

— Vamos sair daqui e deixar o dia nos levar. Sem planos, sem destino. Vamos ver o que acontece quando duas pessoas simplesmente… vivem.

Daniel sorriu. Era exatamente o tipo de aventura que nunca se permitira antes.

— E o seu trabalho?

— Posso trabalhar à noite. Hoje quero descobrir como é viver sem saber o que vem a seguir.

Eles saíram do café de mãos dadas, e Daniel sentiu uma vertigem estranha. Pela primeira vez em quinze anos, o futuro era um mistério completo. E pela primeira vez na vida, isso não o apavorava.

Passaram o dia explorando a cidade como turistas em sua própria terra. Visitaram um museu que Daniel nunca havia notado, almoçaram em um restaurante escolhido ao acaso, sentaram-se em um parque para observar as pessoas passarem.

A cada momento, Daniel esperava que as visões retornassem, que algum flash do futuro invadisse sua mente. Mas havia apenas o presente: o riso de Luísa quando ele contou uma piada ruim, o sabor do sorvete que dividiram, a sensação de sua mão na dele.

— Daniel? — Luísa disse quando se sentaram em um banco de frente para um lago.

— Sim?

— Posso te contar um segredo?

— Claro.

— Eu sempre tive medo do futuro. Não de forma paranóica, mas… sempre me preocupei tanto com o que poderia acontecer que esquecia de viver o que estava acontecendo.

— E agora?

— Agora, pela primeira vez, o futuro não me assusta. Porque sei que, aconteça o que acontecer, não estarei sozinha.

Daniel se virou para olhá-la. O sol da tarde criava reflexos dourados em seus cabelos, e ele teve vontade de memorizar aquele momento, de guardá-lo como costumava guardar suas visões.

— Luísa?

— Sim?

— Obrigado.

— Pelo quê?

— Por me ensinar que o presente pode ser mais interessante que qualquer futuro.

Ela sorriu e se inclinou para beijá-lo. Foi um beijo suave, sem pressa, como se tivessem todo o tempo do mundo. E talvez tivessem. Afinal, quando se vive apenas o presente, cada momento se torna infinito.

Quando se separaram, Daniel percebeu que não sentia mais falta das visões. Pela primeira vez em quinze anos, estava exatamente onde queria estar: no presente, com a pessoa certa, construindo um futuro que nenhum dom poderia prever.

— E agora? — Luísa perguntou, ecoando a pergunta que se tornara o refrão de seus encontros.

— Agora — Daniel disse, entrelaçando os dedos com os dela — vamos descobrir juntos.

E pela primeira vez na vida, a incerteza do futuro não era uma fonte de ansiedade, mas de infinitas possibilidades.

Por J. B WOLF

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