MATÉRIA DE CAPA – Quando falar já não é dizer: o esvaziamento da palavra no século da hiperconexão

MATÉRIA DE CAPA – Quando falar já não é dizer: o esvaziamento da palavra no século da hiperconexão

Temos vivido assombreados pela carência desenfreada de companhias vazias de alma. Nunca se esteve tão junto e, ao mesmo tempo, tão distante. Quando a escrita real se confunde à artificial, algo indizível está atrelado a essa condição.

Há tempos me pergunto o que aconteceu com as palavras. Não com aquelas registradas nos dicionários, intactas em sua definição, mas com as que habitam as relações humanas. As que carregam afeto, memória, desacordo, desejo, indignação e pertencimento. As que, durante séculos, permitiram que pessoas atravessassem abismos invisíveis para alcançar umas às outras.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 16/06/2026″

 

Vivemos cercados por elas. Talvez nunca tenham circulado tanto. A qualquer instante alguém publica uma opinião, compartilha uma experiência, relata uma perda, declara um amor ou anuncia uma revolta. A linguagem tornou-se presença constante em nossas rotinas. Ainda assim, há uma estranha sensação de esvaziamento que atravessa o nosso tempo. Como explicar que, em meio a tantas possibilidades de comunicação, o sentimento de incompreensão continue crescendo?

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A hiperconexão prometeu encurtar distâncias. Em muitos aspectos, cumpriu o que prometeu. Hoje acompanhamos acontecimentos em tempo real, conversamos com pessoas do outro lado do mundo e acessamos uma quantidade de conhecimento inimaginável para gerações anteriores. No entanto, enquanto as barreiras geográficas diminuíram, outras formas de afastamento parecem ter ganhado terreno. Não raramente encontramos pessoas que sabem tudo sobre a rotina umas das outras e quase nada sobre suas dores mais profundas.

Talvez porque informação e encontro não sejam sinônimos. A lógica das plataformas digitais favorece a circulação rápida de conteúdos, mas a experiência humana raramente acontece na velocidade dos algoritmos. Há sentimentos que exigem demora. Há compreensões que nascem apenas depois de longos silêncios.

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Há palavras que necessitam amadurecer antes de serem ditas. No entanto, a urgência tornou-se uma espécie de idioma coletivo. Espera-se uma resposta imediata, uma opinião imediata, uma reação imediata. Pensar, que deveria anteceder a fala, muitas vezes passa a ser uma etapa dispensável.

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Não é difícil perceber os efeitos desse processo. Discussões transformam-se em disputas de visibilidade. Escutar torna-se mais raro do que responder. O diálogo cede espaço ao monólogo simultâneo de milhares de vozes que se cruzam sem necessariamente se encontrarem. Cada pessoa fala a partir de sua própria janela, mas poucas parecem dispostas a contemplar a paisagem do outro.

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O filósofo Byung-Chul Han observa que a sociedade contemporânea sofre com o excesso. Excesso de estímulos, de informação e de exposição. A reflexão parece pertinente porque o problema do nosso tempo talvez não seja a escassez de palavras, mas a dificuldade de atribuir sentido a elas. O excesso produz ruído. E o ruído, quando constante, torna-se uma forma de silêncio.

Essa percepção ganha contornos ainda mais complexos diante da popularização das inteligências artificiais. Pela primeira vez, convivemos com sistemas capazes de produzir textos, imagens e discursos com impressionante fluidez. O debate costuma concentrar-se na capacidade técnica dessas ferramentas, mas talvez a questão mais inquietante esteja em outro lugar. Quando a escrita humana passa a se parecer com a escrita das máquinas, não porque a tecnologia evoluiu, mas porque os próprios sujeitos passaram a reproduzir fórmulas previsíveis, algo merece ser observado com atenção.

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Afinal, escrever nunca foi apenas organizar palavras de maneira eficiente. A escrita nasce do encontro entre linguagem e experiência. Ela carrega marcas de quem viveu, sofreu, sonhou, fracassou e insistiu. Há uma dimensão humana que não reside apenas no resultado final do texto, mas no percurso que o tornou possível. Talvez por isso algumas obras atravessem décadas sem perder a capacidade de nos tocar. Elas não nos oferecem apenas frases bem construídas. Oferecem presença.

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Conceição Evaristo nos lembra disso ao propor a escrevivência como um gesto em que vida e escrita se entrelaçam. Escrever, sob essa perspectiva, não é reproduzir discursos prontos, mas inscrever a própria existência na linguagem. Em tempos marcados pela velocidade e pela repetição, essa ideia adquire uma força particular. Recorda-nos que a palavra não é um objeto neutro. Ela carrega histórias, silenciamentos, memórias e identidades.

Talvez seja justamente essa densidade que esteja se tornando rara. Muitas palavras continuam sendo pronunciadas, compartilhadas e reproduzidas. Entretanto, nem sempre conseguem ultrapassar a superfície. Como sementes lançadas sobre o asfalto, encontram dificuldade para criar raízes.

Não se trata de defender um retorno impossível ao passado nem de rejeitar os avanços tecnológicos que transformaram o mundo. O desafio parece ser outro. Trata-se de recuperar a capacidade de habitar a linguagem com mais consciência, permitindo que ela volte a ser espaço de encontro e não apenas instrumento de circulação.

Em uma época que valoriza a velocidade, talvez seja necessário reaprender a demora. Em uma cultura que recompensa a exposição constante, talvez seja necessário reaprender a escuta. Em um tempo que multiplica discursos, talvez seja necessário resgatar o peso específico das palavras.

Porque falar sempre foi fácil. Difícil é dizer. Dizer algo que carregue verdade, ainda que provisória. Dizer algo que revele uma experiência e não apenas uma performance. Dizer algo que permaneça quando o fluxo incessante das telas já tiver seguido adiante.

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Entre a abundância de vozes e a escassez de sentido, talvez resida uma das maiores contradições do nosso século. E talvez seja justamente nela que a palavra, ferida, mas ainda viva, continue procurando um lugar para existir.

Por JEANE TERTULIANO

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