“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” [João 8:32]
Nunca me senti tão presa quanto atualmente… aprisionada pelo verniz social imposto sutilmente pela nova ordem mundial que sedimenta a brandura como regra.
Qual o preço da verdade? Será que estamos preparados para ouvir certas verdades, mesmo que sejam duras? Certamente a resposta é não. Percebo cada vez mais que as pessoas evitam as verdades, principalmente quando elas ameaçam suas convicções e escancaram realidades difíceis de digerir. Talvez por isso a ideia de suavizar a verdade esteja tão em alta e “camuflar” a crueza dos fatos abrace emocionalmente as pessoas já exaustas de tantas mazelas.

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Vivemos sob uma maquiagem cada dia mais tatuada na pele, daquelas que desenvolvem crosta profunda, difícil demais de arrancar porque já cristalizou nas camadas superficiais da cútis. O mais engraçado, porque virou piada gramatical, é que a estilística emergiu e com ela vieram as figuras de linguagem. Na carruagem, ostentado pelos louros das redes sociais, vem todo senhor de si, o eufemismo.
O que antes era objeto de estudo dos docentes e recurso explorado pelos escrevedores da língua-mãe, hoje perambula pela sociedade com ares de entidade divina. Somos uma raça que adora ostentar e mostrar o luxo, nem que seja fantasia, e o exibir-se está nas entranhas humana. Denota superioridade e poder que sempre esteve em alta. Por conta disso, esse jogo de palavras torna-se tão sutil que as pessoas nem percebem a vulnerabilidade a que estão expostas. Absorvem as novas expressões fantasiando que o mundo pode ter a cor desejada sem nem compreender a distorção da realidade.

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A sutileza ganha ares de importância suavizada já que as pessoas não desejam ouvir verdades duras. Mascaram-se realidades a um ponto que quando fica perceptível, é impossível o retorno.
O mais triste é que a verdade tornou-se agressiva. É quase uma inquisição onde não há lado vencedor, apenas vítimas da erudição gramatical. Pobres coitados que não se dão conta do jogo social. Vivem à beira do tratado de Tordesilhas. Ficaram do lado ingênuo, onde as letras suavizadas pela doçura da voz modulada gera sensação de conforto eloquente. Aceitam e caminham passos cadenciados rumo ao abatedouro. Sequer compreendem a dimensão a que estão expostos. São manobrados e deixam-se ir, acreditando que têm direito à palavra sem dela conseguir extrair as entrelinhas do sentido.
E essa avalanche de construções esparrama por todo lado expressões potencialmente menos desagradáveis criando uma cultura de bem-estar emocional, onde o acolhimento ganhou destaque.
A fala direta, considerada sincera demais por alguns, cedeu lugar ao respeito pelo efeito que ela irá produzir naquele que a ouve. O que ratifica essa ideia é a generosidade ao lidar com o outro para não incorrer em mais e/ou maiores problemas além dos que já existem. A experiência do ouvinte ganhou status de relevância. É um novo olhar para lidar com as diferenças sociais sem fragilizar ou expor ainda mais aqueles que estão na base da pirâmide. É como se fosse possível escolher as palavras para blindar situações complexas do ponto de vista social/ econômico.

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A Psicologia e a Sociologia mergulharam nessa questão e trouxeram importantes colaborações: a primeira trazendo experiências centradas em acolhimento emocional derrubando muros dolorosos e a segunda atenta ao fenômeno sociocultural onde sociedades contemporâneas têm dificuldade em lidar com limites existenciais.
Essas duas áreas captaram a fragilidade do mundo contemporâneo ao lidar com questões relacionadas à existência humana e os eufemismos vêm florescendo onde cresce o desconforto diante de certas verdades. É como se eles se tornassem amortecedores simbólicos da realidade.
Outro fator importante a mencionar é o cuidado com as redes sociais. As pessoas, ou pelo menos a maioria, têm relativo cuidado ao posicionar-se publicamente entendendo que a publicidade pode ter efeitos positivos ou desastrosos. O polimento da palavra pode dar o recado, atestar um ponto de vista ou declarar apoio, enfim qualquer que seja a situação exposta aos milhões de usuários da rede, se ela estiver sob o verniz do vocabulário bem colocado, os danos são minimizados e no final o número de seguidores aumenta. A regra é clara: todo cuidado ao fazer uso da palavra, principalmente numa era onde todo mundo tem um celular à mão e tudo é exposto na rede.
Fico pensando, entretanto, no fato de que suavizar demais a realidade pode distorcer a gravidade dos fatos. Parece-me uma fuga, uma vontade de fechar os olhos para as cruezas da vida. Conheço pessoas que preferem se manter alheias aos estigmas desbotados daqueles que vivem à margem social e, não são poucas, pelo contrário, o número aumenta consideravelmente a cada retaliação.

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Será que banir da vista as feridas sociais, a infelicidade alheia, as dores humanas também não nos torna insensíveis? A postura do “não quero saber para não sofrer” blinda a visão, mas enrijece a empatia e desencoraja a caridade. Aquele que não se compadece da dor do outro é incapaz de estender a mão; por isso a questão é muito mais complexa já que uma sociedade onde a fragmentação de valores perpassa pelo status social, a compaixão deixa de ser uma virtude e passa a ser um privilégio seletivo.
Vivemos sobre uma espécie de esteira de eufemismos. Termo, aliás, popularizado pelo linguista e psicólogo cognitivo Steven Pinker, especialmente em seu livro The Blank Slate (2002). Nele, o autor menciona que os eufemismos acabam, com o tempo, adquirindo a mesma conotação dos termos que substitui criando um ciclo contínuo de imagens e valores, daí a ideia de esteira rolante. A análise feita é que quando as ideias deixam de ser compreendidas, a transformação perde força e altera a realidade. O problema em si não é o uso de tantos eufemismos, é o mecanismo de ocultação que ele tem desenvolvido. O que era para criar uma ideia de gentileza e cortesia, de acolhimento e respeito, passa a ser filtro da realidade dificultando a visão real da vida e não enxergá-la é que tem se tornado o novo problema social. Quando enxergamos os problemas e somos tocados pelo sofrimento do outro, escolhemos descruzar os braços e agir tornando as soluções plausíveis.

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Esse mecanismo tem enfraquecido à medida que nos distanciamos da realidade e concentramos nosso olhar na bela semântica das palavras.
O mundo carece de ações concretas, de pessoas envolvidas, de atitudes reais. E a gramática que me perdoe, mas nem sempre a preservação crescente estimula o gesto concreto. As artes, a música e a literatura que abusem desse recurso. Que reinventem a linguagem por meio de palavras, símbolos, formas e cores com o objetivo de despertar a imaginação e ampliar a beleza do mundo. Afinal o mundo precisa de menos palavras cuidadosamente escolhidas e mais mãos estendidas.

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Talvez esteja aí o preço que a verdade cobre. Ela insiste em revelar aquilo que a maioria prefere não ver. Ela mostra que muitos problemas sociais persistem por falta de disposição para enfrentá-los. A vontade política ainda é tímida diante do cenário mundial e a população também demonstra atitudes discretas de efetivo empenho. Uma minoria se mostra engajada em projetos de relevância. No Brasil temos: Pastoral da Criança, Cruz Vermelha, Gerando Falcões, AACD, APAE além de milhares de projetos comunitários locais. No mundo temos: Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha, Habitat for Humanity, Save the Children, World Central Kitchen e UNICEF entre outros.
O que todas essas ações revelam é que o ser humano pode ser tocado pela verdade e principalmente pela empatia. É nos gestos corriqueiros, simples e diários que a verdade se reveste de amor em prol do próximo. Essa virtude divina ganha ares humanos toda vez que uma pessoa age pensando no coletivo e não apenas em si mesma.

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Vale lembrar que a verdade por si só não transforma o mundo. É o conhecimento, agora tão disponível num mundo digital, que impulsiona a ação; a disposição de permitir que a verdade modifique nossas ações tornando-nos agentes de transformação. Isso sim cria uma atmosfera de benevolência e engajamento onde todos são chamados ao serviço. É nesse ponto que a humanidade mostra mais emoção, menos razão. Não apenas como um amontoado de pessoas desconectadas do mundo físico, mas como uma raça disposta a fazer valer a perpetuação da vida vivida com dignidade. Vida onde famílias possam respirar respeito, onde possam transformar suas histórias e onde se sintam acolhidas estejam onde estiverem.

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Utópico esse pensamento, não acha? Permito-me viajar na fé que me move a aceitar o fardo de imutável condição. Você decide de qual lado ficará. Decide também se vai continuar com os braços cruzados rodeado de eufemismos bonitos e distante da realidade que o cerca.
Entenda, porém, que todas as ações têm consequências. A passividade como escolha também cobra o preço, não é somente a verdade que o faz. O maravilhoso em tudo é que a vida tem memória e nada passa despercebido. Nada!
E voltando à Gramática, mais precisamente ao eufemismo, vejo aqui uma das maiores limitações atuais: podemos suavizar a realidade, mas ela existe. Ignorar a fome, a pobreza, as guerras, a luta pelo poder, mas ainda assim os fatos nos revelam a existência dessas situações concretas. As palavras têm poder, porém não alteram os fatos.

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É justamente por isso que a chamada “esteira dos eufemismos”, descrita por Steven Pinker, revela algo tão significativo sobre nosso tempo: mudamos os nomes, mas os problemas insistem em permanecer. Estão aí quer queiramos ou não. A verdade não se impressiona com a sutileza das palavras, ela aguarda a tomada de atitude, a ação propriamente dita.
Cabe a mim e a você decidirmos qual será nossa atitude daqui para frente.

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Desejando que tenha aproveitado essas palavras para uma reflexão e que á partir dela você se sinta impulsionado a movimentar-se rumo à ação concreta, despeço-me com um abraço afetuoso e deixo algumas sugestões para que mergulhe ainda mais na temática que desenvolvi:
Livros:
– Steven Pinker – Tábula Rasa (The Blank Slate)
– George Orwell – 1984
– Viktor Frankl – Em Busca de Sentido
– Hannah Arendt – Eichmann em Jerusalém
– Zygmunt Bauman – Modernidade Líquida

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Filmes:
– O Show de Truman (The Truman Show, 1998)
– 1984 (1984)
– Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society, 1989)
– A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993)

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Documentários:
– O Dilema das Redes (The Social Dilemma)
– Human (2015)
– 13ª Emenda (13th)
– Uma Verdade Inconveniente (An Inconvenient Truth)

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Até breve.
Por CRIS GOMES
