Olá, querido leitor.
Nesta edição, faremos uma viagem por terras antigas, banhadas por lendas, profecias e histórias capazes de atravessar séculos. Um mundo onde heróis enfrentavam criaturas monstruosas, reis ouviam sussurros divinos no silêncio dos desertos e o fogo sagrado jamais podia se apagar.
Hoje, cruzaremos os portões da fascinante Pérsia.
Uma terra de palácios grandiosos, oásis dignos dos contos das mil e uma noites, templos tomados pelo perfume do incenso queimado e guerreiros marcados tanto pela honra quanto pela tragédia.

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A mitologia persa é uma das mais ricas e simbólicas da antiguidade. Muito além de deuses e monstros, ela carrega reflexões sobre moralidade, espiritualidade, destino e a eterna batalha entre luz e trevas.
E acredite: muitas ideias presentes em histórias modernas talvez tenham nascido muito antes, sob o céu estrelado dos desertos persas.
Então, prepare sua bebida favorita, encontre um lugar confortável e venha comigo embarcar nessa jornada.
Nosso tapete mágico está prestes a partir.
Boa leitura.
Criaturas do Folclore Persa
“Enquanto o Brasil cresceu ouvindo sobre o Saci, Cuca, Mula sem cabeça, os antigos persas temiam criaturas capazes de enlouquecer qualquer viajante nas áreas do deserto”
As histórias giravam em torno de demônios do deserto que assombravam viajantes desavisados, espíritos de luz, aves que antecedem a rara fênix e antes mesmo antes dos repteis alados sobrevoarem e queimarem castelos na idade média, eles já percorriam os céus estrelados da Pérsia.
A Pérsia nos entrega uma cultura riquíssima, cheia de anuncia, que te faz mergulhar e imaginar como rica pode ser um povo e sua cultura.

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Os Div — Os Demônios da Antiga Pérsia

Imagem de The Public Domain Review
Entre desertos, montanhas e ruínas consumidas pelo tempo, os antigos persas acreditavam na existência dos temidos Div – criaturas associadas ao caos, à corrupção espiritual e às forças que ameaçavam a ordem do mundo.
Na mitologia persa, os Div não eram apenas monstros violentos escondidos nas sombras. Eram a representação dos 7 pecados capitais, ou quase os 7, a mentira, crueldade, a ganância, luxuria e a destruição moral da humanidade.
Em muitas histórias, essas criaturas surgem como seres gigantescos, deformados e assustadores, habitando cavernas, desertos e regiões proibidas. Algumas possuíam forma colossal; outros eram capazes de manipular a mente humana, espalhando medo, ódio e desespero.

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Para os persas, os Div raramente simbolizavam o horror físico. O verdadeiro perigo estava na corrupção da alma.
Os antigos acreditavam que o universo vivia uma batalha constante entre a ordem e o caos. Entre a verdade e a mentira. Luz e trevas. Dentro dessa visão, os Div serviam às forças destrutivas ligadas a Ahriman, o grande adversário da luz e da sabedoria.
Algumas lendas descrevem esses seres devorando homens, enlouquecendo viajantes perdidos no deserto ou tentando destruir reis e heróis. Outras histórias os apresentam quase como manifestações vivas dos piores impulsos humanos.
Toda cultura cria monstros para dar rosto aos próprios medos. E os persas sabiam muito bem que alguns dos deles nascem dentro da própria humanidade.
Os Divs na Poesia Persa
Com o passar dos séculos, os Divs deixaram de habitar o “realismo”, para também existirem na literatura das poesias persas. Tornando ainda mais forte seu símbolo de escuridão do interior humano.

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Na poesia clássica da antiga Pérsia, os Divs frequentemente representavam o caos, a tentação, os pecados da humanidade. Representando os conflitos espirituais enfrentados pelo ser humano.
O Épido Shahnameh, escrito por Ferdowasi no século XI, os Divs aparecem como antagonistas aterrorizantes enfrentados por grandes heróis. Derrotar esses demônios não significavam apenas derrotar gigantes, também significava manter a ordem sobre o caos.
Séculos depois, o poeta Hafez daria aos Divs um significado ainda mais simbólico. Em seus poemas líricos, essas criaturas surgem como metáforas para os desejos que afastam o homem da iluminação espiritual.
Trecho do Poema de Shams al-Din Muhammad Hafez-e Shirazi, ou Hafez:
https://blog.editoratabla.com.br/hafiz-de-chiraz-traduzindo-a-poesia-persa/?utm_source=copilot.com
***
Ontem fui ter com um sábio e o que ele disse reproduzo
e os segredos do taberneiro não te serão mais ocultos.
Disse: Procura o fácil em tudo! Advém da natureza
do próprio mundo ser duro com quem consigo é duro.
Então me passou uma copa de tamanha radiância
que Vênus se pôs a dançar e o jogral bradou: Saúde!
A este peito tão sofrido, traz o sorriso da taça.
Não chores com o menor toque, como faz o alaúde.
Até que sejas iniciado, não penetrarás o véu.
O verbo de Sorush não cabe no ouvido do inculto.
Afirmo: no templo do amor, não tem ingresso a bazófia
mas tem ouvidos e tem olhos sempre em escuta e em busca.
Quando na reunião dos sábios, põe de lado a presunção.
Sê sensato, fala o que sabes ou cala-te em absoluto.
Traz agora o vinho, copeiro! A devassidão de Hafez
não é segredo para Asef, que minhas falhas escusas.
***
Se o tal turco de Shiraz meu coração na mão tomar
por sua pinta hindu daria eu Samarcanda e Bucara.
Até a borra traz, copeiro! No céu não encontrarás nem ribeira de
Roknabad, nem rosal da Mossalá.
E os ciganos, atrevidos, fazem muito rebuliço.
Tal os turcos em banquete, saquearam minha paz!
Amor falho o meu, é indigno da beleza do amado.
De que servem pó e lápis à face de graça inata?
Com a beleza que José tinha, entendi o poder
da paixão que despe até Zuleica que antes era casta.
Maldizes, e eu sou grato, Deus te guarde, falas bem.
Falas acres vão mescladas com a doçura dos lábios.
Ao bom conselho dá ouvido: os jovens e afortunados
preferem o saber do velho aos pleitos incertos da alma.
Dize de vinho e de bardos, e não do enigma do cosmos.
A razão não resolveu, nem jamais resolverá.
Já fiaste o teu poema, Hafez, perfurando a pérola.
Que o céu seu colar de Plêiades espalhe no teu cantar
***
Não renuncio ao vinho e às belas figuras jamais
Já fiz cem contrições, não farei mais juras jamais
O jardim do paraíso, as huris e os palácios
não se igualam nem ao pó da sua rua jamais
Mesmo os ditames dos sábios não passam de alusões.
Metáforas usei, não repito a figura jamais
Não conhecerei nem minha própria cabeça
se na taverna eu não a erguer na busca jamais
Disse um mulá zombeteiro: Vinho é coisa haram.
Eu disse: Claro! Mas eu não escuto mulas jamais
Ímpio ao menos eu não sou a ponto de flertar com
as jovens beldades lá do alto da tribuna jamais
Hafez, atina: a corte do mago é casa da fortuna.
Não tiro meus lábios do pó da sua rua jamais
***
As rosas rubras florescem, o rouxinol se embebeda.
Ouvi a embriaguez, sufis que o instante veneram!
A base da contrição parecia rocha firme
e foi quebrada por cristal de taça fina e terna.
Traz o vinho! Nesta corte do contento, não importa
se és abstêmio ou beberrão, se és sultão ou sentinela.
Deste albergue de duas portas um dia hás de partir.
Que diferença a portada ser rica ou ser austera?
Não se tem a vida fácil sem que tenha havido dor.
Com a firmação do pacto, afirmou-se essa tragédia.
O ser e o não ser… que isso não te aflija, só sê feliz.
Não ser enfim é o fim até da mais perfeita matéria.
A linguagem dos pássaros, o alto Asef, o corcel-vento
tudo isso o vento levou, a Salomão nada mais resta.
Ao ganhares asa e pluma, não vás longe do caminho.
Mesmo a flecha bem lançada não tarda a voltar à terra.
Que gratidão mostrará teu cálamo, Hafez, àqueles
que passam de mão em mão os aforismos que versas?
***
Fala da nossa união, que da alma minha me levanto
sou ave celeste, da terra e seus ardis me levanto
Por teu amor posso jurar: se me chamares me levanto
até do trono da criação, ó amigo me levanto
Faz chover tua nuvem-guia, ó Senhor, sobre meu ser
que, tal o pó que é soprado pela brisa me levanto
Com vinho e um jogral senta-te ao pé da minha tumba
dançando, teu perfume sendo meu guia me levanto
Levanta e mostra teu talhe, belo de doce dançar
que eu, batendo as palmas, da terra e da vida me levanto
Ainda que eu seja velho, abraça-me forte em teu seio
que na aurora de amanhã eu redivivo me levanto
Quando da minha morte, dá-me o vislumbre do teu rosto
que eu, tal como Hafez, da terra e da vida me levanto

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Peri — Os Espíritos de Luz da Mitologia Persa

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Entre jardins celestiais, montanhas sagradas e os ventos suaves que atravessam os desertos persas, surgiram os encantadores Peri ou Spenta Mainyu – seres associados à beleza, à luz e à pureza espiritual.
Descritos em antigas lendas como criaturas de aparência extremamente bela, os Peri eram frequentemente retratados com traços delicados, vestes luminosas e uma presença quase etérea. Em algumas histórias, possuíam asas; em outras eram espíritos capazes de atravessar o céu como estrelas errantes.
Nas tradições mais antigas da Persa, acreditava-se que esses seres haviam sido expulsos do paraíso por erros cometidos no passado. Condenados a vagar entre o céu e a terra. Buscavam redenção através da bondade, da pureza e da aproximação com a luz divina.
Na poesia clássica persa, especialmente nas obras de Hafez e outros grandes escritores, os Peri passara a simbolizar beleza espiritual, amor idealizado e iluminação da alma. Muitas vezes apareciam ligados ao desejo humano de alcançar algo puro em meio às imperfeições do mundo terreno.

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Os Spenta Mainyu na mitologia Persa, simbolizavam a busca humana pela luz, pela esperança e pela bondade em meio as trevas. Eles refletem o caráter dualista dessa tradição, onde cada batalha entre o bem e o mal.
Curiosidades…
Entre a Pérsia e o Brasil: Dois “Peri” Muito Diferentes
Ao ouvir o nome Peri, muitos de vocês, talvez se lembrem do outro personagem bastante conhecido da nossa literatura: o indígena Peri, protagonista do romance O Guarani, escrito por José de Alencar no século XIX.
Enquanto os Peri da mitologia persa eram espíritos celestiais associados à luz, à beleza e à espiritualidade, o Peri brasileiro foi criado como o ideal do herói indígena romântico: forte, leal, corajoso e profundamente conectado à natureza.
Dessa forma, ambos carregam a ideia de pureza.
Os Peri persas buscavam redenção espiritual entre o céu e a terra. Já o Peri de O Guarani simbolizava, dentro do romantismo brasileiro, uma figura quase mítica do homem nativo idealizado.
De um lado, espíritos luminosos cruzando desertos antigos da Pérsia. Do outro, um guerreiro indígena atravessando as matas brasileiras.

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Dois Peri.
Dois mundos completamente diferentes.
Mas ambos eternizados através das histórias.
Martiya-khvara — A Devoradora de Homens
Antes de receber o nome pelo qual ficou conhecida no Ocidente, a Manticora era chamada pelos antigos persas de Martiya-khvara — junção de martiya (“homem”) e khvara (“devorar”) — podendo ser traduzida como “Devoradora de Homens”.
Entre as criaturas mais aterrorizantes do da antiga Pérsia, poucos despertavam tanto medo quanto a temida Manticora.
Descrita por viajantes e escritores da antiguidade como uma criatura monstruosas, a Manticora possuía corpo de leão, rosto humano e uma cauda mortal semelhante à de um escorpião, capaz de lançar ferrões. Venenosos contra suas vítimas.

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Algumas versões das lendas afirmavam que sua boca escondia várias fileiras de dentes afiados, tornando impossível escapar uma vez capturado pela criatura.
Nas narrativas Persas, a Manticora habitava regiões selvagens e desérticas, lugares considerados perigosos demais para homens comuns. Ela surgia como um símbolo do desconhecido, da morte violenta e das forças indomáveis da natureza.
Séculos depois, a criatura atravessaria fronteiras culturais, sendo incorporada ao imaginário medieval europeu, onde passou a aparecer em bestiários, manuscritos e histórias fantásticas.
Monstros Que Atravessam Civilizações
A Manticora não foi a única criatura híbrida a surgir nas antigas civilizações.
Ao observar os monstros da Pérsia e da Grécia, torna-se impossível ignorar certas semelhanças entre seus seres mais aterrorizantes.
A Manticora e a Quimera possuem diferenças importantes em suas origens e narrativas. Ainda assim, ambas carregam a mesma essência simbólica: o medo humano daquilo que rompe padrões conhecidos.
A Quimera combinava leão, cabra e serpente em um único ser capaz de cuspir fogo. Já a Manticora surgia como uma devoradora de homens, unindo corpo de leão, traços humanos e uma cauda venenosa mortal.
Criaturas híbridas.
Misturas consideradas “antinaturais”.
Seres vistos como ameaça à ordem do mundo.
Talvez seja justamente por isso que monstros semelhantes apareçam em tantas culturas antigas.
A humanidade sempre teve dificuldade em lidar com aquilo que desafia suas ideias de normalidade.
Durante séculos, tudo o que fugia do padrão imposto como “natural” foi transformado em ameaça, desordem ou monstruosidade. Povos diferentes, religiões diferentes, corpos diferentes, amores diferentes.
O desconhecido quase sempre assusta antes de ser compreendido.
E talvez seja essa a parte mais inquietante dos monstros antigos:
muitas vezes eles revelam menos sobre criaturas sobrenaturais… e mais sobre os próprios medos humanos.
Azhdaha — Os Dragões da Antiga Pérsia
Muito antes de “Coração de Dragão”; “Game Of Thrones” e “Senhor Dos Anéis”, os antigos povos persas já temiam os seres serpenteantes associados ao caos, à destruição e às forças demoníacas.
Essas criaturas ficaram conhecidas como Azhadaha.

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O nome possui origem extremamente antiga, derivado do termo avéstico Aži Dahāka, presente nos textos sagrados do Avesta. Na língua avéstica, Aži significa “serpente”, enquanto Dahāka tornou-se associado a uma entidade monstruosa e destrutiva.
Com o passar dos séculos, o termo evoluiria linguisticamente até dar origem à palavra “Azhdaha”, utilizada em tradições persas posteriores para designar dragões e criaturas serpentinas gigantescas.
Diferente das tradições asiáticas em que os dragões eram vistos como símbolos de sabedoria, sorte, proteção. Os dragões persas raramente eram benevolentes.
Na cosmologia zoroastrista, criaturas serpentinas apareciam ligadas ao caos, à corrupção e às forças malignas associadas a Ahriman – entidade que representava destruição, mentira e desordem no universo.
Entre essas figuras, uma das mais importantes era Zahhak, personagem lendário profundamente conectado ao mito do Aži Dahāka.
Na tradição persa, Zahhak tornou´se um rei tirânico, frio e possuidor de poderes sobrenaturais. Reza a lenda que serpentes nasceram de seus ombros após ser corrompido por foças malignas.
Dessas lendas surgiram as histórias de dragões reptilianos. Representando uma fusão entre criaturas demoníacas, dragões serpentinos e a tirania humana. Dando essa mistura um símbolo perfeito de caos, política e opressão.
Simurgh — A Ave Que Carregava a Sabedoria do Mundo
Entre demônios, dragões e criaturas nascidas do caos, a Pérsia também nos abrilhanta com uma das criaturas mais belas e simbólica de toda a mitologia oriental: A Majestosa Simurgh.
Essa bela criatura, que em algumas representações possuía traços de pavão, águia e cão formando uma criatura grandiosa e que representa a sabedoria.

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Seu lar ficava no alto da árvore da Vida – uma árvore sagrada ligada ao conhecimento e à renovação do mundo.
Para a cultura persa Simurgh representa o poder da sabedoria, no cuidado e na transcendência.
Uma das lendas mais difundidas envolvendo essa criatura é a Lenda do Bebê Zal.
Reza a lenda que por nascer com cabelos completamente brancos, Zal foi rejeitado pelo seu pai, que interpretou sua aparência como mal agouro. Ele ordenou que a criança fosse levada para as montanhas e lá a deixassem para morrer. Simurgh em um de seus voos encontra o bebê aos prantos e o acolhe.

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Passa a cria-lo como filho; o alimentando, protegendo e ensinando parte de seus conhecimentos sobre o mundo e universo.
Anos depois, já adulto, Zal retorna ao mundo humano, levando consigo os ensinamentos de Simurgh. Mas antes de partir, preocupado com seu filho, a ave da sabedoria entrega para o jovem uma de suas penas douradas, dizendo que ele deveria queimá-la caso precisasse de ajuda.
Dizem que a pana dourada foi usada em auxílio ao nascimento de Rostam, o maior herói da mitologia Persa.
Por LADYLENE APARECIDA
