Voltando ao século XX, encontramos uma sociedade machista e preconceituosa, onde o homem era quem reinava, excluindo e impondo o silêncio às mulheres. No espaço da poesia popular não foi diferente, especificamente na Literatura de Cordel, que além de não permitir a participação feminina, a mulher era representada de forma preconceituosa, pejorativa, cheia de estereótipos e de imagens distorcidas. Entretanto, a mulher se rebela contra este silenciamento, quando é publicado o primeiro cordel de autoria feminina, de Maria das Neves Batista Pimentel, mesmo recorrendo ao uso de um pseudônimo de Altino Alagoano, nome de seu marido. Este foi um fato determinante para abrir espaços para que outras mulheres pudessem publicar suas poéticas e em particular na Literatura de Cordel. Na contemporaneidade, existe um grande número de Poetisas de Cordel, criando sobre as mais diversas temáticas.
Desde 2007, pesquiso a Literatura de Cordel, Mestres e Mestras que encantam com suas poéticas, mas surpreendentemente encontrei a Mestra Janete Lainha, com uma vasta produção de folhetos de cordel e xilogravuras. Vamos conhecer essa “Colecionadora de Palavras”, como se autodenomina.

Imagem de Mestra Lainha – arquivo pessoal
Janete Lainha Coelho[1] nasceu em Ilhéus-Ba, em 1960. Casada com o servidor público Paulo Cezar Cabral e mãe de Jamille e Paulo. Graduada em Pedagogia, pela Faculdade Montenegro.

Tem Especialização em “Produção Textual” e em “Gestão Cultural”, pela Universidade Estadual de Santa Cruz, especialista em “Língua Portuguesa Formação para o Magistério”, em “Metodologia de Ensino”, em “Psicopedagogia” e em Ciências Sociais: História e Geografia, pela Faculdade de Ciências e Letras Plínio Augusto do Amaral, de São Paulo. Recebeu o título de “Mestra da Cultura Popular”, em 2012, pela Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura e o título de “Doutora Honoris Causa”, em 2022, pela Ordem dos Capelães do Brasil. Recebeu o prêmio de “Melhor Atriz”, do Troféu Jupará, por cinco vezes, o Prêmio Braskem de “Melhor Atriz”, com a peça “Mar Morto”, de George Wladimir e o Prêmio SEBRAE “Mulher de Negócios”, em 2013. No VII Festival de Inverno da Bahia obteve o 2° lugar na modalidade “Conto” e o 2° lugar a modalidade “Cordel” e no VIII Festival de Inverno da Bahia, obteve o 1° lugar na modalidade “Crônicas” e o 2° lugar na modalidade “Literatura de Cordel”. Produziu 1.040 títulos de folhetos de cordel e mais de 300 xilogravuras. É membro da Academia de Letras de Cordel de Salvador -Bahia e da Ordem Brasileira dos Poetas da Literatura de Cordel, na qual ocupa a cadeira 98. É Representante Territorial de Cultura no Território Litoral Sul, pela Secretaria de Cultura da Bahia. Fundadora Casa da Cultura Popular de Ilhéus e do Ponto de Cultura Literatura de Cordel para Todos. Membro do Fórum de Agentes, Gestores e Empreendedores Culturais do Litoral Sul da Bahia. É membro do Círculo Raiz (movimento cidadanista de Ilhéus). Membro da Câmara Temática de Cultura do Território Litoral Sul da Bahia. Diretora Cultural do Ilê Axé Guiania de Oiá e colaboradora junto ao Ilê Axé Ballomi, em Ilhéus. Por diversos anos, foi Conselheira Municipal de Cultura em Ilhéus e Membro do Colegiado Setorial de Livro, Leitura e Literatura. Enquanto atriz, atuou nos filmes: “O Quadro da Transformação”, de Jota Melo, em 2019; “A última Estação”, de Márcio Curi, em 2010, dentre outros. É filiada ao Partido Comunista do Brasil e Diretora da Secretaria de Combate ao Racismo em Ilhéus. Na Academia Grapiúna de Artes e Letras, ocupa a Cadeira 38, cuja patronesse é a professora e poetisa Valdelice Pinheiro (1929-1993).

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 04/06/2026″
É Mulher Tambor “YÁ LLÚ”, no Candomblé Angola:
“É muito mais do que tocar um instrumento — é ser ponte entre o mundo visível e o invisível. É carregar no corpo o ritmo ancestral que chama, firma e sustenta a energia do terreiro. Cada batida é reza, é fundamento, é respeito aos mais velhos e aos Nkises. A Mulher Tambor rompe silêncios históricos, ocupa seu espaço com força, coragem e axé, mostrando que o sagrado também pulsa nas mãos femininas. Ser YÁ LLÚ é ouvir com o coração, tocar com a alma e honrar a tradição com responsabilidade e amor”.

Imagem de Mestra Lainha – arquivo pessoal
A produção da Mestra Lainha em Literatura de Cordel, iniciou em 1970 e é composta por 1.040 títulos de folhetos de cordel e mais de 300 xilogravuras, Mestra Lainha afirma:
“Nos meus trabalhos estão temáticas como Afrocentrados, comunitários, Contos, Diversidade, Diversos, Educação Ambiental, Educacional, Erótico, Gastronomia, Humor, Infantil, Jurídicos, Mulheres empoderadas, Municipais (Nau do Cordel), Patrimônio Imaterial, Pelejas, Povos Tradicionais, Profissões, Saúde, Seres Fantásticos, Signos e Turismo”.
Abaixo algumas capas de seus folhetos de cordel, com destaque para as xilogravuras de sua autoria:
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Destacamos a temática “ancestralidade”, que tem sido um tema recorrente na literatura de cordel como forma de explorar as conexões entre passado e presente, identidades culturais e memórias coletivas. Na perspectiva literária, a ancestralidade é utilizada para construir narrativas que resgatam tradições, valores e experiências de gerações anteriores, influenciando a identidade dos personagens e a construção das tramas. A Mestra Lainha aborda a ancestralidade para refletir sobre questões de pertença, herança cultural e o impacto das histórias familiares na formação do indivíduo.

Imagem de Mestra Lainha – arquivo pessoal
“Sou Mestra Lainha, mulher da arte popular nascida em Ilhéus, na Bahia, e é na madeira que eu encontro minha voz e minha história. Cada pedaço que talho carrega sentimentos, memórias e a força do meu povo. A xilogravura, que aprendi junto com a Literatura de Cordel, é mais do que uma técnica pra mim: é resistência, é identidade, é vida. Quando eu desenho e entalho, estou contando histórias de mulheres fortes, da fé, do cotidiano e das tradições que não podem se perder. A arte talhada em madeira tem esse poder de atravessar o tempo, de manter viva a cultura popular mesmo em um mundo tão moderno. E enquanto eu tiver minhas mãos e minha inspiração, vou continuar fazendo da madeira um grito de cultura e liberdade”.
Como xilógrafa, sua primeira exposição de xilogravura, foi em 2014, intitulada “Sangrando”, como explica a Mestra:
“Eu me feria muito, mas também tinha o prazer de ver a obra nascendo. Nela eu transportava sempre esse retrato da mulher que sofre, mas também que goza de suas conquistas”
No início desta arte, usava restos de metais para fazer as goivas, instrumento para talhar a madeira, partes de guarda-chuva e um martelo. Entalhar a madeira, imprimir, secar é um trabalho que leva cerca de oito dias, mas a Mestra Lainha nunca abriu mão de sua realização.
“Eu me orgulho de dizer que sou uma das poucas de minha cidade que vive de arte. Desenvolvi um trabalho de larga escala para dar conta de me sustentar. Vendo minhas obras no ponto de cultura que tenho e nas feiras em que declamo”.
“As mulheres estão cada vez mais em evidência. Hoje tratamos das especificidades de mulheres negras, reafirmamos nossas conquistas no mercado de trabalho e debatemos o lugar de fala”
AS MULHERES DO CORDEL COM: JANETE LAINHA
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Da vida de nossa Ilhéus
Eu só posso falar bem
Pois foi onde me criei
Minha família também
Passando nesta ponte
No vai e volta vira e vem
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Com o Cordel e a cultura
Eu duplico esta fonte
É tamanha indecência
A existência deste afronte
Ver toda a nossa paciência
Ser torrada nesta ponte
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Hoje a população cresceu
Vivemos outra realidade
O controle do trafego
Só nos traz dificuldade
A segurança da população
Virou uma banalidade.
[1] Fonte: https://academiagrapiunadeletras.wordpress.com/janete-lainha-coelho/
Por BETH BALTAR
