Oiê! Nas próximas páginas, você encontrará uma reflexão sobre o tema da mudança. Afinal, por que é tão difícil aceitar que tudo muda e, ainda assim, em certos aspectos, tudo continua? Quais são as travas que dificultam lidar com o ineditismo da vida? Em um cenário atual tão conturbado e acelerado, as mudanças acabam “tirando o nosso chão”. Desejo que, de alguma forma, você saia daqui mais preenchido e, principalmente, mais você!

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Tônia Lavínia, Criada em 03/06/2026″
Ciclo: a mudança e o mesmo
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Luiz Vaz de Camões
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já foi coberto de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soia.
Olá, como você está? A vida, por aí, anda mudando aceleradamente como por aqui? Tempos frenéticos anestesiam e fragmentam, e facilmente nos distanciam do que importa. Sempre que penso em mudança, lembro do poema acima, especialmente dos versos: “Todo o mundo é composto de mudança / tomando sempre novas qualidades”. O velho poeta, que tantos naufrágios viu com os olhos do corpo e tantos outros com os da alma, sabia do que falava: a vida não é uma linha reta que vai do berço ao túmulo em suave declive, mas um redemoinho, um remoinho de folhas secas que ora sobem aos céus, ora se espatifam no chão.

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Temos vivido tempos desafiadores, é verdade. De intensas e significativas transformações. Mas quando não foram difíceis os tempos? Quando é que acordamos e dissemos: “Ah, que bom, hoje o mundo resolveu parar de girar para que eu possa descer sem tontura”?
Para mim, uma imagem possível é a montanha-russa: constante sobe e desce emocional. Há semanas em que somos lançados para o alto, o estômago grudado na espinha, o vento assobiando nos ouvidos da esperança. Na semana seguinte, despencamos de roldão, e aquela mesma velocidade que antes nos parecia vertigem prazerosa agora é puro terror. O problema não é a montanha-russa em si, diga-se de passagem. A questão é que ninguém nos entregou o manual de instruções antes de embarcar. Não sabemos onde estão os freios, não sabemos se o cinto de segurança vai suportar a próxima curva. E essa é a loucura da vida, não é? Uma incerteza permanente!

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Como você lida com a incerteza da vida? Ou, dito de outro modo: qual ilusão você cria e habilmente sustenta para fazer crer a si mesmo(a) que tem o controle da própria vida? Como você lida com a incerteza da vida?
Também tenho pensado bastante na figura do deserto (sim, ando mais filosófica do que o habitual, é verdade). Não aquele das pirâmides e dos camelos de posts instagramáveis, mas o deserto interior, aquele que se instala quando todas as referências se apagam. Em algum momento, será preciso enfrentá-lo em nós. Nas palavras de Alexandre Coimbra Amaral, psicólogo respeitado: “Em muitos momentos, muito mais até do que imaginaríamos ser razoável, a vida perde o sentido. O sentido da vida tem data de validade, mas nunca sabemos ao certo quando ele chegará. Estar vivo é incessantemente reinventar o sentido do próprio viver.”
O deserto não é castigo, como insistem os moralistas de plantão. É, antes, um território de prova, de experimentação, um lugar no qual a alma aprende a andar sem muletas. Às vezes, também é onde aprende a cair e a ficar no chão até recompor as forças. Deserto não é morada; é transição, lembra? Dói, desconforta, parece um erro. Mas, se esse enfrentamento é inevitável, vale recordar o óbvio: os ciclos se alternam. A renovação é a lei imbatível da natureza.

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Por quais desertos você já passou? Olha aí: escrevi “já passou” porque, tenho certeza, você não mora neles. Pode até estar vivendo agora em outro novo deserto, mas até ele se renovará e seguirá sua tarefa exemplar: fazer renascer das próprias cinzas, assim como a fênix.
Nas palavras de Heráclito: “Não há nada permanente a não ser a mudança.” O filósofo grego, que viveu em uma época de guerras e desmoronamentos (tal como a nossa, aliás, somente com roupagens diferentes), percebeu algo que a humanidade insiste em esquecer: o repouso é a exceção, o movimento é a regra. Mas calma: essa ideia não é uma apologia ao produtivismo que nos escraviza dia e noite e nos tira a experiência de viver, OK? Até a montanha, que nos parece tão sólida e definitiva, é feita de lentíssimo desmanche.
E, como as verdades universais são atemporais, revestidas apenas do colorido “local”, também dizem os chineses, com sua delicadeza cortante: “Sempre a primavera, nunca as mesmas flores.” Eis aí um dos mais belos aforismos já produzidos pela inteligência humana. Ele consola e fere ao mesmo tempo. Console-se, porque promete o retorno da estação das flores. Fere porque nos lembra que as flores que amamos no ano passado já se foram para sempre. A primavera volta, sim, mas nunca com o mesmo ramalhete.

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E, já que trouxe as flores, vale lembrar também das belíssimas cerejeiras no Japão: um convite reiterado à contemplação da beleza e da impermanência da natureza. Diante das mudanças inevitáveis, sempre há o convite, imperativo, para a renovação. Simples assim. “Só que não.” Porque entre o convite e a aceitação vai uma distância maior do que a que separa o céu da terra, e é nesse vão que a gente se perde e se encontra.
Negar a impermanência da natureza é sandice. Concordo. Mas sandice também é achar que a razão governa o coração. Acostumados ao convencional, ao perene, ao que já conhecemos e nos dá segurança, temos ainda bastante dificuldade de aceitar o novo: um emprego, um país, uma moradia, uma relação amorosa, uma condição física, enfim, a nova vida que, a cada dia, ressurge veemente à janela do nosso quarto.
E ela está sempre ali, a nova vida. Não precisa bater à porta, porque a porta é ela mesma. Basta abrir os olhos de manhã e perceber que o corpo que ontem doía hoje dói de outro jeito, que o pensamento que ontem nos atormentava hoje deu lugar a outra inquietação. A novidade não é um acontecimento raro. É a matéria-prima de cada segundo.
Há espaço para o inédito em sua vida?
Em geral, quando algo sai do nosso desejo, esperneamos e pensamos que “Deus nos abandonou”. Atitude infantil. Imatura. Mas também profundamente humana. Quem nunca, diante da perda ou da frustração, sentiu um aperto no peito e murmurou um “Por que comigo?” Negamos, choramos, emburramos, adoecemos e, por fim, exaustos, consentimos, meio a contragosto, maldizendo o cruel destino que, impiedoso, nos faz sofrer.

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O grande escritor tcheco Milan Kundera disse certa vez que a vida é uma guerra de todos contra todos, e o inimigo mais traiçoeiro é o passado, que insiste em se apresentar como futuro. Por isso relutamos tanto: porque cada mudança nos confronta com a verdade incômoda de que o tempo não é um rio que corre mansamente para o mar, mas um torvelinho que nos joga para a frente enquanto tentamos olhar para trás.
Nesse contexto, a relutância significa desgaste desnecessário e luta perdida. A vida tem um propósito claro: garantir que o aprendiz ganhe autonomia e dê voos mais altos. Mas ninguém disse que a escola seria um piquenique. A vida é uma professora exigente, dessas que não aceitam atestado médico e que marcam prova surpresa na segunda-feira de carnaval.
Assim, é sinal de maturidade reconhecer que o término de um ciclo indica renovação, não obstante nosso desespero e nossa rejeição diante do inesperado digam o contrário, pois o medo grita alto. Ele sempre gritou. O medo foi a primeira emoção do primeiro animal que espiou para fora da toca e viu a noite cheia de olhos brilhantes. A diferença é que hoje temos uma diversidade de psicopatologias originadas no medo e no desamparo, ansiedade, transtorno de pânico, síndrome do pânico, mas a sensação é a mesma: aquela mão gelada apertando o estômago, aquela voz que sussurra “fica, não sai, é perigoso”.
A mente inquieta e o coração acelerado constroem realidades cruéis, desestimulantes. E, com facilidade, somos engolidos pelo monstro devorador que habita nossas entranhas e mina nossas energias. Mas, a boa notícia é que o medo, esse devorador de sonhos, tem função protetiva importante e pode ser um aliado poderoso diante das novidades que chacoalham nossa vida e nos roubam o chão.
Dessa forma, aceitar as mudanças indica, especialmente, a conquista de um funcionamento emocional mais saudável exatamente porque é mais flexível (a doença mora na rigidez excessiva): maior lucidez e, por isso, mais leveza. A leveza não é futilidade, não é indiferença. Muito menos alienação. É, como ensinou o poeta italiano Ítalo Calvino, um valor a ser perseguido em tempos de peso excessivo. Leveza é a capacidade de não se deixar esmagar pelo que não se pode controlar. É saber que a tempestade vai passar, mas que, enquanto ela dura, podemos dançar na chuva ou ao menos não nos afogar no copo d’água.

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Num clichê, a natureza é sábia e, a exemplo disso, a água consegue contornar toda sorte de obstáculos para atingir o alvo: o aprimoramento incessante. A água não briga com a pedra. Ela a beija repetidas vezes até que a pedra se torne seixo, e o seixo se torne areia, e a areia se torne leito de rio. Não há violência na água. Há paciência e estratégia: não força bruta para derrubar muros, mas constância suave para atravessá-los.
Aceitar os desafios, afinal, pode valer a pena. E, se sobrevierem mais trovoadas, é só abrir o guarda-chuva. Se cair? No dito popular: “Do chão, não passa.” O dito está certo, mas não conta a história inteira. É bem verdade que, às vezes, o tombo nos leva para além do solo, pois mergulhamos nos abismos de onde tentamos frequente e habilmente nos esquivar. Há quedas que não terminam no chão. Há quedas que continuam caindo em nós, abrindo crateras, deslocando placas tectônicas da alma. O chão, nesses casos, é apenas o começo.
A boa nova, porém, é que não há abismo sem fundo. Toda descida, por mais íngreme que seja, encontra um limite. E é nesse limite, nesse ponto mais baixo da espiral, que algo extraordinário acontece: o movimento se inverte. A vida sempre reinicia o movimento da volta, da ascensão. Não há como evitar! Não porque sejamos otimistas incorrigíveis, mas porque a própria estrutura do real é cíclica. O que desce, sobe. O que morre, renasce. O inverno não é o fim da primavera: é sua condição de possibilidade.

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Diante do turbilhão de emoções e de experiências que temos vivenciado, é certo que, quando um ciclo acaba, outro naturalmente surge. Estamos falando da natureza, lembra? Da natureza das coisas, da natureza da vida, da natureza que há em nós e que teima em ser esquecida sob camadas de medo e controle. É condição sine qua non que, para o novo surgir, o antigo deva partir. Não é o “fim do mundo”. Bem ao contrário, é o início de novos tempos, fecundos de possibilidades.

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A palavra “fecundos” vem do latim fecundos, que significa fértil, abundante. E a fertilidade, todos sabem, exige decomposição. O adubo é feito de restos. O novo broto nasce do que apodreceu: essa é a verdade que os agricultores conhecem e os filósofos confirmam.
Que venham, então, novos ares. E que Zéfiro, o vento ocidental que os antigos consideravam o mensageiro da primavera, aquele que trazia o adormecimento depois do rigor do inverno possa trazer uma brisa que nos permita respirar e prosseguir na caminhada. Respirar: é disso que se trata. De inspirar e expirar. De receber o mundo e devolvê-lo transformado. À semelhança do sol que, a cada novo dia, surge vigoroso e renovado, embora continue o mesmo. Eis o grande paradoxo, o mistério que a ciência explica, mas que só a poesia alcança: o sol de hoje não é o de ontem, no entanto, é o mesmo sol.

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Nós também. Não somos mais quem fomos há um ano, há um mês, há uma hora. E, ainda assim, somos. Neste instante, você já não está igual ao momento que principiou a leitura deste texto, percebe? A identidade é essa costura frágil entre o que se foi e o que se está sendo. Afinal, como lembra a canção, aquela que a gente canta no chuveiro ou no trânsito, quando ninguém está ouvindo, “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo”. Mente quieta para não inventar tempestades onde há apenas brisa. Espinha ereta para não se curvar diante do que não merece reverência. Coração tranquilo, enfim, porque o resto, o resto é paisagem. E a paisagem, por mais bela ou aterrorizante que seja, sempre passa. Resta o viajante. Resta você. Resta essa respiração agora, este momento em que o ciclo, silenciosamente, já começou de novo.

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Um beijo!
Por ADRIANA MOURA SALLES
