RAÍZES DO BRASIL – A maternidade no Brasil colonial:  Herança do abandono

RAÍZES DO BRASIL – A maternidade no Brasil colonial: Herança do abandono

Muito se tem discutido sobre o protagonismo feminino no nascimento das crianças e sobre a questão do aborto. A intensidade desses debates revela um movimento histórico importante: o avanço do direito feminino de autonomia sobre o próprio corpo. Ao mesmo tempo, esse avanço continua a se confrontar com ideologias conservadoras profundamente enraizadas, especialmente em contextos religiosos. Não se pretende aqui tomar partido nesse debate contemporâneo, mas ampliar a perspectiva histórica a partir de um dado frequentemente esquecido: a maternidade nem sempre foi vivida como escolha, nem como experiência protegida pela sociedade.

O período colonial, que se estende de 1500 até 1808, foi marcado por uma realidade social extremamente desigual. A maioria da população vivia em condições de pobreza, e as mulheres ocupavam uma posição particularmente vulnerável nesse sistema. Longe da imagem idealizada da maternidade, os documentos do século XVIII revelam uma realidade marcada pelo medo, pela precariedade e pela impossibilidade material de sustentar um filho. Em muitos casos, abandonar uma criança não significava ausência de afeto, mas uma tentativa desesperada de garantir a sobrevivência dela.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 06/06/2026″

 

O aumento populacional nas regiões portuárias, sobretudo ao longo do século XVIII, fez crescer de forma significativa o número de crianças abandonadas em locais públicos. A Igreja Católica, que exercia forte controle moral sobre a sociedade, condenava duramente a morte de crianças sem o sacramento do batismo, pois se acreditava que suas almas não seriam salvas. Para evitar esse destino considerado trágico, consolidou-se uma espécie de convenção social: as crianças deveriam ser deixadas nas Santas Casas de Misericórdia, instituições religiosas responsáveis pela assistência aos mais pobres.

Foi nesse contexto que surgiu a chamada Roda dos Expostos. O mecanismo, de origem italiana, consistia em um cilindro de madeira instalado no muro da instituição. A mãe depositava o bebê na parte externa, tocava o sino e girava o cilindro, que levava a criança para o interior do prédio. Assim, o anonimato de quem entregava a criança era preservado. A existência desse dispositivo revela uma contradição profunda: ao mesmo tempo em que a sociedade condenava o abandono, criava um sistema institucional para torná-lo possível.

Imagem de DW.com por Google

 

Os registros das Santas Casas mostram números que impressionam pela dimensão social do fenômeno. Apenas na cidade de Salvador, entre 1758 e 1762, mais de quatrocentas crianças foram deixadas na Roda. Entre 1790 e 1796, o número ultrapassou seiscentas. Considerando que a população da cidade girava em torno de 65 mil habitantes, trata-se de um índice extremamente elevado. Esses dados indicam que o abandono não era exceção, mas parte estrutural da organização social do período.

O procedimento de acolhimento seguia regras rígidas. Ao ser depositado na Roda, o bebê era recolhido pelas freiras responsáveis, lavado, alimentado e identificado por meio dos chamados “sinais”. Esses sinais podiam ser marcas físicas, como cicatrizes ou manchas de nascença, mas também pequenos objetos deixados junto à criança: correntinhas, pedaços de tecido, alfinetes, moedas. Em alguns casos, havia também um bilhete. Mesmo em uma sociedade com baixos índices de alfabetização, muitos pais deixavam pequenas mensagens com o nome da criança, a data de nascimento e, sobretudo, a promessa de que voltariam para buscá-la.

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Esses bilhetes, estudados em profundidade filológica por minha parceira de pesquisas, Elizangela Dias, constituem documentos de enorme valor histórico e humano. Na obra “As crianças das rodas dos expostos: escritos do século XVIII ao XX” Elizangela Dias mostra o contrário da ideia de abandono como gesto frio e impessoal. Isso porque muitos textos revelam sofrimento, culpa e desespero. Em alguns casos, os pais rasgavam o papel ao meio e guardavam uma parte, como se estivessem criando uma espécie de prova para um reencontro futuro. O abandono, nesse contexto, aparece como consequência da pobreza e da marginalização feminina, não como ausência de amor.

A situação tornava-se ainda mais dramática quando os bebês chegavam à Roda já doentes ou mesmo mortos. O alto custo dos enterros fazia com que muitas famílias recorressem à instituição religiosa para garantir ao filho uma sepultura cristã. Esse gesto, que pode parecer contraditório à primeira vista, revela a complexidade emocional da maternidade no Brasil colonial. A mãe que não conseguia sustentar o filho era, ao mesmo tempo, aquela que buscava garantir a ele alguma forma de dignidade.

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A sobrevivência das crianças abandonadas era extremamente baixa. Muitas eram entregues às chamadas mães de leite, mulheres que amamentavam vários bebês ao mesmo tempo em troca de pagamento. As condições sanitárias eram precárias e as contaminações frequentes. Estima-se que, de cada três crianças abandonadas, apenas uma sobrevivia até os sete anos de idade. A maternidade, nesse contexto, não pode ser compreendida apenas como experiência individual, mas como parte de uma estrutura social que colocava a vida feminina e a vida infantil em permanente situação de risco.

A imagem da mulher colonial também foi construída a partir de um olhar profundamente marcado por preconceitos. Autoridades da época descrevem as mulheres brasileiras como excessivamente livres, moralmente frágeis ou responsáveis pela desordem social. Essa visão, baseada em padrões europeus que pouco tinham a ver com a realidade brasileira, contribuiu para transformar a mulher em principal culpada pelo abandono das crianças. Pouco se consideravam as condições concretas de vida dessas mulheres, muitas vezes pobres, solteiras, abandonadas ou vítimas de relações socialmente proibidas.

O destino feminino no Brasil colonial estava fortemente ligado ao casamento e à maternidade. Mulheres que não conseguiam casar-se ou que engravidavam fora das normas sociais enfrentavam marginalização, pobreza e exclusão. Em muitos casos, o abandono de uma criança não era uma escolha, mas a única possibilidade de sobrevivência. A sociedade, entretanto, preferia interpretar esse gesto como falha moral, reforçando a imagem da mulher como responsável pelo problema.

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A análise histórica permite perceber que a maternidade, no Brasil colonial, foi marcada por uma contradição profunda. Ao mesmo tempo em que a sociedade exaltava o ideal da mulher mãe, criava condições que tornavam essa maternidade inviável para grande parte da população feminina. A Roda dos Expostos surge, assim, como um símbolo dessa contradição: ao mesmo tempo em que representa abandono, revela também uma tentativa de preservar a vida em meio à pobreza e à desigualdade.

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Compreender essa realidade histórica é fundamental para ampliar o debate contemporâneo sobre o papel da mulher e sobre o direito à autonomia do corpo feminino. Muitas discussões atuais não são novas. Elas fazem parte de uma longa história em que a maternidade sempre esteve atravessada por questões sociais, econômicas e culturais. A herança desse abandono, longe de pertencer apenas ao passado, continua a marcar profundamente a formação da sociedade brasileira.

 

Fontes:

História das Mulheres do Brasil. Mary Del Priore (org.). Editora Contexto, 2012.

As crianças das rodas dos expostos: escritos do século XVIII ao XX. Elizangela Dias. Editora Labrador, 2023.

Por RENATA MUNHOZ

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