INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – Quando a palavra esconde, humilha e exclui!

INCLUSÃO E ACESSIBILIDADE EM FOCO – Quando a palavra esconde, humilha e exclui!

A vida humana habita a terra há muitos milênios, e pelo que se sabe os homens primitivos viveram por muito tempo em bandos, em busca do próprio alimento, obrigados a recolher somente o que era comestível, sem dispor de habitação ou outros utensílios que tornassem sua vida mais segura e tranquila. É somente a partir do paleolítico que a vida desses indivíduos começa a ser facilitada pela invenção de instrumentos rudimentares que vão permitindo avançar na luta pela sobrevivência.

Tais desafios de algum modo pode ter motivado a necessidade de se viver coletivamente. Juntos há de haver mais chances de sobrevivência do que numa vida solitária, especialmente em contexto tão adverso. Mas, estar junto motivou a necessidade de comunicação. As diferentes linguagens possibilitaram estabelecer trocas, disseminar valores e construir práticas. Assim, pode se dizer que nossas necessidades emergem da convivência. As fragilidades de uns podem ser amenizadas pelas habilidades de outras. Mas, nada fica perdido quando é possível “estar junto”.

A evolução humana evidencia o quanto necessitamos uns dos outros e de como nossas diferenças podem ser benéficas ao bom funcionamento do grupo. Contudo, por vezes, são elas que usamos para nos afastar, para oprimir e para excluir. A história atesta isso! O diferente assusta e para neutralizar sua ação criamos estigmas sobre ele. Nomeá-lo como perigoso, incapaz ou inferior são algumas estratégias usuais.

Em pequena escala, patologizamos e laudamos. Em grande escola, escravizamos, destruímos. Destituímos de direitos e de humanidade. As invasões, as guerras, a escravização são alguns exemplos nessa direção. Mas, numa análise foucaultiana, os hospitais, as prisões e até as escolas podem ser instituições de correção e negação das diferenças. De alguma forma, as diferenças humanas são colocadas numa balança e os mecanismos de controle do Estado estabelece regras para validar/invalidar, aceitar/negar, incluir/excluir.

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Em diferentes épocas e contextos, ora guiados pela mitologia, ora pelo misticismo e ora com o aval científico, tendemos à categorização, à classificação, à hierarquização dos sujeitos, com base nos comportamentos aceitáveis e inaceitáveis. Desse modo, surgem os desviantes, os doentes ou deficientes, mas, são todos considerados marginais, portanto, não cabem na sociedade normalizada, capaz, eficiente.

Nos primórdios, as narrativas orais eram suficientes para assegurar a disseminação dessas práticas. Mas, pouco a pouco, em grande parte das civilizações, o registro gráfico passa a desempenhar um papel decisivo, dando legitimidade às normas sociais, seja em pedras, tabletes, papiros, papel ou mais recentemente, nas mídias digitais. No registro gráfico as ideias puderam ser perpetuadas, mais facilmente aceitas com tom de verdade. No passado ou no presente, nestes veículos, se imprimem marcas potentes sobre os diferentes sujeitos, que variam da invisibilidade ao sucesso, do estigmatiza à aceitação, ou mesmo da vida à morte.

Na Antiguidade, os registros de Aristóteles sobre a deficiência humana marcaram profundamente o olhar sobre as pessoas acometidas por tal condição. Ele é identificado como o criador da lógica, além de autor do primeiro tratado de uma psicologia científica e certamente o primeiro escritor de história da filosofia. Por muitos, é considerado também o patriarca das ciências naturais, sendo ainda, metafísico, moralista, político. Suas contribuições ainda hoje estão presentes em meio às diferentes ciências. Mas, no presente, é a opinião do influencer que nada sabe de deficiência, mas que sente-se à vontade para destilar seu preconceito e encontra ressonância nos egos dos seus seguidores.

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No que diz respeito à deficiência as idéias aristotélicas recomendava o extermínio ou a expulsão das pessoas com deficiência do convívio social. E, “em nome do equilíbrio demográfico e numa posição coerente com as linhas mestras aristocráticas e elitistas” da sua Política, ele defendia que filhos nascidos com deficiência poderiam ser eliminados sempre que implicasse em dependência econômica. E hoje são os olhares, julgamentos e deserviços que são disseminados sem nenhum cuidado e respeito. De um modo ou de outro, as atitudes destroem vidas e sonhos.

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De tal modo, se a palavra de um filósofo teve um peso gigantesco para o pensamento da época e de séculos subsequentes, o impacto de hoje ocorre em maior velocidade, só que são pessoas ignorantes que postam suas sandices sem nenhum pudor. Assim, seja nos hieróglifos, do Egito, na escrita cuneiforme dos Sumérios, nos papiros romanos, ou nos memes capacitistas, as palavras tem poder e são capazes de impactar vidas, dando-lhes direitos ou retirando-os.

De um modo ou de outro, os escritos são as expressões de uma realidade pensada e manifesta a partir de um grupo. No caso, o grupo que detém o domínio do conhecimento, da técnica e do poder. Por isso, podem anunciar sua visão de mundo para os demais e definir as regras do jogo. Mas, e o que acontece com os demais, com destaque para aqueles que não tem conhecimento nem poder, nem lugar de fala?

 A literatura revela que desde épocas mais remotas é possível identificar registros de ordenamentos, orientações ou leis que descrevem as pessoas com deficiência como possuidoras de inúmeros motivos para serem banidas do convívio social. Cabe destacar que não são elas que falam sobre si. Quem lhes descreve, relata suas condições e suas necessidades não vivem a deficiência. Por que elas não foram autorizadas a falar?

Na Antiguidade e época medieval, por orientação do Estado, as crianças nascidas com deficiência eram sacrificadas, os indivíduos escravizados que tinham alguma deficiência eram dizimados. Na modernidade, era legítimo e bastante estimulada a prática da segregação destas pessoas em asilos, hospitais ou manicômios, apartando-as do convívio social. E hoje, se questiona o direito ao trabalho e à educação.

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Com o advento da ciência continuou se buscando métodos mais “civilizados” para desqualificar as diferenças humanas e conformar a todos a um padrão imposto, uma forma de controle, portanto, de poder. Nesse sentido, a classificação das deficiências, bem como do que lhe é mais adequado em termos sociais é a tônica dos paradigmas da integração social e, mais recentemente, da inclusão social. Mas, é notório que o estabelecimento de um rótulo continua sendo necessário aos olhos da contemporaneidade. E ainda evidenciamos os sem deficiência discutindo a respeito dos que tem deficiência, sem lhes dar o devido espaço de fala.

Nesse processo, pessoas com deficiência reclamam o direito de ser como são, opinando sobre o que precisam que seja modificado na sociedade, e não nelas. O movimento “nada sobre nós sem nós”, desde sempre, tenta dar um basta à percepção preconceituosa e capacitista que ainda perdura socialmente. Terminologias de cunho eufemista são sempre combatidas. De pessoas “excepcionais” à “especiais” e mais recentemente de “atípicas” à “neurodivergentes”, são uma tentativa desesperada da sociedade de suavizar o preconceito estrutural, mas, na prática nada muda. A mudança de termos não altera o preconceito, pelo contrário, denuncia a dificuldade em convivermos e valorizamos nossas diferenças. Portanto, é preciso estar atento ao que dizemos sobre aqueles a quem proibimos de falar.

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Não é possível negar que as palavras são poderosos instrumentos de expressão e de poder e se vinculam aos contextos onde são cunhadas. Negar o direito de usá-las ou invalidar a produção de alguns sujeitos é exclusão. Usá-las inadvertidamente também exclusão. O uso das palavras nesse campo exige cuidado e respeito. Antes, porém, ouça o que as pessoas com deficiência têm a dizer. “Nada para nós sem nós” é tema de uma luta histórica e, talvez o germe desse movimento esteja em 1981, quando foi instituído o Ano Internacional das pessoas com deficiências. Mas, de lá para cá, apesar dos avanços, ainda se constata que há um longo caminho a percorrer até que a ideia vire prática, onde as pessoas com deficiência participem das decisões políticas e sejam elas mesmas, protagonistas e não meras receptoras. Nesse processo, a palavra pode ser um importante recurso de libertação.

Por SANDRA SANTIAGO

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