A LÍNGUA EM MOVIMENTO – Amor Panderô em Seul

A LÍNGUA EM MOVIMENTO – Amor Panderô em Seul

Seul nos recebeu como se já soubesse da nossa chegada. Não com alarde, mas com delicadezas quase invisíveis: a água colocada à mesa antes do pedido, o sorriso curto e respeitoso da recepcionista, o som contínuo das lojas, dos passos e das buzinas, compondo uma trilha urbana constante, como se a cidade respirasse ao nosso redor. Estávamos longe de casa, mas não deslocados. Há lugares que não nos estranham. A Coreia do Sul foi assim, um encaixe silencioso entre o que éramos e aquilo que ainda estávamos aprendendo a ser.

IMAGEM GERADA POR IA “usando GROK, sob a direção de J.B Wolf, Criada em 09/01/2026″

 

Acordamos cedo. A luz entrava filtrada pela cortina do hotel, fria e clara. Lallo levantou em silêncio, os olhos ainda pesados de sono, o cabelo desalinhado. Seu silêncio habitual, que em São Paulo às vezes me machucava por parecer distância, ali ganhava outro sentido. Em Seul, o silêncio parecia parte da paisagem. Não era ausência. Era respeito.

Descemos caminhando em direção ao Bukchon Hanok Village. As casas tradicionais, com seus telhados curvos e madeira antiga, pareciam suspensas no tempo. Entre uma rua e outra, mulheres vestidas com hanboks coloridos passavam lentamente, tecidos amplos dançando ao vento, como flores em movimento. Eu caminhava devagar, sentindo que aquela cena me atravessava. Como se, por algum motivo que eu não sabia explicar, tudo aquilo coubesse dentro de mim.

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Foi ali que escutamos a primeira palavra curiosa do dia. Um grupo de estudantes correu pela viela estreita, rindo alto. Um deles virou o rosto e gritou:

Panderô torayô!

Lallo parou, confuso, com a sobrancelha levemente arqueada.

— Já estão ensaiando para o carnaval?

Ri.

— Calma. Aqui “Panderô” não tem nada a ver com pandeiro. Parece, mas significa “ao contrário”. E “torayô” é algo como “vire”. Ele estava avisando alguém para mudar de direção. Nada de samba.

Lallo riu daquele jeito contido, como quem gosta, mas não faz alarde.

— É por isso que eu gosto de viajar contigo — disse. — Tu traduz as placas, as palavras e até o que não é dito.

Seguimos até a Namsan Tower. A subida foi lenta, quase cerimonial. À medida que avançávamos, a cidade ia se abrindo abaixo de nós. Do alto, Seul parecia um organismo vivo: prédios alinhados, avenidas iluminadas, o rio cortando tudo com paciência. O vento era frio, mas não hostil.

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Os cadeados do amor estavam por toda parte. Milhares. Coloridos, metálicos, gastos pelo tempo e pelo toque de tantas mãos. Presos em grades, correntes, árvores artificiais. De longe, pareciam pétalas duras brilhando sob o céu. De perto, cada um carregava uma promessa silenciosa.

Eu quis um.

— Vamos colocar o nosso?

Lallo demorou a responder. Não era recusa. Era pensamento mesmo.

— Eu escrevo — disse eu.
— Eu fico com a chave — respondeu ele.

Fechei o cadeado com as mãos frias. O som do metal se encontrando foi seco, definitivo. Guardei a chave no bolso interno da jaqueta, junto ao peito. Algumas coisas não pedem plateia. Mas tirei uma foto, claro.

À noite, a cidade mudou de tom. As luzes acenderam uma a uma, como se alguém tivesse decidido acordá-la outra vez. Do alto, Seul parecia um cenário de série: intensa, organizada, distante e íntima ao mesmo tempo.

No dia seguinte, caminhamos à beira do Rio Han. A água refletia o céu cinza, e os barcos passavam lentamente, como se o tempo ali tivesse outro ritmo. Paramos para beber chá gelado. Um senhor se aproximou e nos ofereceu figos secos. Lallo agradeceu com uma leve inclinação de cabeça, um gesto simples que parecia atravessar idiomas.

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Foi quando ouvi outra palavra estranha e familiar.

Xingô.

Inclinei a cabeça.

Xingô? Isso não é briga?

Peguei o dicionário de bolso, aquele que já começava a se dobrar nas bordas.

— Aqui não. “Xingô” quer dizer “denunciar”. Parece com “xingar”, mas é outra coisa. Mais formal.

Lallo franziu o cenho, pensativo.

— Então denunciar é um tipo de xingamento educado?

— Talvez — sorri. — Ou só mais direto.

Ele segurou minha mão. Ficamos ali, sem pressa, observando o movimento da água. Ao longe, uma criança apontou para a trilha e gritou com convicção:

Tôkpárô casêyo!

Lallo abriu um sorriso quase vitorioso.

— Essa eu sei. Quer dizer “vá reto”.

— Isso mesmo — respondi. — E olha que curioso: “Tôkpárô” soa como “toparam”, não soa? A palavra parece até um acordo. Mas é só um simples “siga em frente”.

Ele apertou minha mão.

— Como a gente.

— Como a gente — repeti.

Seul seguia ao nosso redor com seus contrastes bem marcados: vidro e madeira antiga, mercados barulhentos e ruas silenciosas, palavras que parecem uma coisa e significam outra. Como nós dois. Às vezes desencontrados, às vezes próximos demais. Mas sempre caminhando lado a lado.

Ali, entre traduções imperfeitas, passos lentos e promessas guardadas no bolso, entendemos que amor também é linguagem. E que, às vezes, ele só pede tempo, cuidado e a disposição de seguir em frente.

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PARA SABER MAIS:

Vocabulário Coreano – Português

 

Coreano (transliteração)

Português

Bandaero / Pandeoro (반대로)

Ao contrário; em sentido oposto

Torayô / Dorayô (돌아요 / 돌아요)

Gire; vire; dê a volta

Panderô torayô (반대로 돌아요)

Vire ao contrário; mude de direção

Hanbok (한복)

Traje tradicional coreano

Xingô (신고)

Denúncia; registro formal

Tôkpárô / Tteokbaro (똑바로)

Reto; diretamente; corretamente

Casêyo / Gaseyo (가세요)

Vá; siga

Tôkpárô casêyo (똑바로 가세요)

Siga em frente; vá reto

Namsan Tower / N Seoul Tower (남산타워 / N서울타워)

Torre no Monte Namsan, ponto turístico de Seul

Rio Han / Hangang (한강)

Rio Han, principal rio de Seul

 

HOMENAGEM AO SERGIO RODRIGUES DE ABREU

 

O MENINO QUE CARREGAVA O MUNDO NO BOLSO

Sergio Rodrigues de Abreu nunca perdeu o olhar do menino. Mesmo quando o corpo cresceu, quando os cabelos escureceram e depois embranqueceram, quando a vida lhe exigiu ser homem antes da hora, o olhar permaneceu ali, intacto, com aquela mistura de curiosidade, espanto e coragem que só as crianças muito pobres e muito vivas carregam.

Aos oito anos, Sergio já sabia o caminho do centro de São Paulo. Sabia o peso do saco de biscoito de polvilho, o barulho dos passos apressados na calçada, o cuidado para não derramar o pouco que tinha. Sabia também o nome da mãe, Gonçalina, e sabia que tinha irmãos demais para contar sem errar. Dez. Um de cada pai. Sabia ainda que tinha tido três padrastos. Mas pai mesmo, aquele nome que a gente diz com segurança, aquele que responde quando alguém pergunta “quem é seu pai?”, ele não tinha. Existia apenas um boato, um nome solto no ar: Melo. Um homem que nunca chegou, nunca ficou, nunca foi visto pelo menino.

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Houve um dia em que um rapaz o enganou. Sergio lembraria desse dia mesmo sem querer. O sujeito pegou todos os biscoitos, sorriu com a confiança falsa dos adultos e disse que o pai dele compraria tudo. Apontou para um dono de bar qualquer, desses que vivem atrás do balcão, cercados de copos e histórias alheias e disse: “olha ali, meu pai”. Sergio acreditou por segundos. Talvez menos. O suficiente para o mundo escurecer um pouco quando percebeu que não havia pai nenhum ali. Voltou para casa com as mãos vazias e um choro parado na garganta. Não chorou alto. Crianças como ele aprendem cedo que chorar alto chama atenção demais para quem já não tem nada.

Com a mesma idade, pegava ônibus sozinho e ia até o Belenzinho. Descia perto da Vila Operária Maria Zélia, aquele conjunto antigo, de 1917, feito para trabalhadores da indústria de juta. Um lugar com escola, biblioteca, armazém, quadra. Não havia estádio grande, desses que aparecem em fotografia aérea. Havia uma quadra. E era ali que o Guarani jogava. Era ali que o menino Sergio vendia seus biscoitos.

Em todo jogo tinha o seu João que vendia lanches. Sergio nunca esqueceu do cheiro. Carne picadinha, salsinha, cebolinha, tudo dentro do pão. O dia inteiro aquele aroma atravessava o ar, misturado ao grito da torcida, ao barulho da bola batendo, ao pó levantado pelos pés. Sergio vendia biscoito para os jogadores, para quem assistia, para quem passava. No fim do dia, separava o dinheiro da matéria-prima, o dinheiro que precisava devolver para a mãe. O que sobrava eram moedas tímidas. Não dava para o lanche completo. Só dava para o pão com salsinha. A carne ficava para depois. “Depois” sempre foi uma palavra frequente na vida dele.

Ainda assim, o menino voltava feliz. Ele acreditava que ia ganhar o mundo vendendo biscoitos. Não era uma metáfora. Era um plano.

O mundo veio de outro jeito, mas veio. Sergio cresceu, virou gráfico. Aprendeu a amar o papel, a tinta, o desenho que nasce do nada e vira coisa. Casou-se com dona Jane. Jane tinha treze anos quando ele começou a paquerar aquela menina de voz levada, cheia de travessura nos olhos. Sergio se apaixonou com a mesma inteireza com que fazia tudo. Chegou para a mãe dela e disse, sem rodeios: “nós nos amamos”. E assim foi.

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Vinte anos se passaram. Vieram dois filhos. E veio também uma casa. Sergio construiu uma casa grande, daquelas que nascem mais do desejo do que do dinheiro. Dois andares, churrasqueira, escadas largas, paredes pensadas para durar. No alto, um mirante. Não era vaidade, era contemplação. Sergio amava ver a chuva cair devagar. Gostava de subir ali quando o céu escurecia, apoiar os braços no parapeito e acompanhar o tempo escorrendo, gota por gota, como se pudesse entender o mundo observando a água encontrar o chão. Ele também amava as estrelas. Iria comprar um telescópio. Não deu tempo. A casa era abrigo, era ponto de encontro, era promessa silenciosa de permanência. Ali, ele fincou raízes, como quem diz, sem palavras: “daqui, eu fico”.

Depois, outra mudança. Sergio foi para o ramo da energia elétrica. Mas o orgulho de ter sido gráfico nunca saiu do peito. Ele falava disso como quem fala de um primeiro amor. E havia nele uma qualidade rara: ele amava qualquer coisa que fazia. Amava fazer filtro de linha elétrica como se fosse obra de arte. Amava acordar e tomar café demorado conversando na mesa. Amava resolver problemas. Amava estar inteiro no que estava fazendo.

E então, Sergio conheceu uma alegria nova, destas que não se explicam, apenas tomam conta: a de ser avô. Vô do Theodoro. Com ele, Sergio voltou a correr, voltou a suar, voltou a cair no chão sem medo. Jogava bola, brincava de lutinha, ria alto, ria fácil. Levava Theo para a natação com um orgulho barulhento, daqueles que enchem o peito anunciando. Ensinou o neto a andar de bicicleta, segurando firme no começo e soltando aos poucos, como quem entende que amar também é saber a hora de soltar. No batente da porta da casa, marcou a altura do menino, risco após risco, acompanhando o crescimento com atenção quase solene, por 10 anos. Theo seria grande. Sergio tinha certeza. Ele queria mais netos. Imaginava a casa cheia outra vez, os corredores ocupados por risadas pequenas. Eles não vieram. Mas aquele que veio bastou para que Sergio experimentasse um amor inteiro, destes que mudam a forma como a gente olha o tempo – THEO.

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Sergio nunca foi rico. Mas foi viajado. Levou Jane para conhecer quatro continentes, dez países, cidades e estados inumeráveis: Paris, Buenos Aires, Las Vegas, Harare, África do Sul, Califórnia, Istambul, Montevidéu, Lisboa. O Brasil inteiro. O Brasilzão. Prometeu Veneza. Não levou. Prometeu ficar velhinho segurando a mão de Jane. E segurou, de certa forma. Até o fim.

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Aliás, Sergio era desses homens que seguram todas as pontas. Ele ilhava as pessoas. Cuidava por todos os lados. Protegia sem alarde. Amava tirar fotos. Muitas fotos. Às vezes irritava. Mas é dele a maior coleção de sorrisos do mundo. Tem fotos dele sorrindo em tudo quanto é lugar. Tem uma diante da Monalisa. Sergio pirou na Monalisa. Leonardo da Vinci teria inveja daquele encantamento inteiro, daquele menino de oito anos que ainda morava dentro do homem.

Ele amava tudo, como quem não economiza sentimento. Amou vender biscoitos quando o mundo ainda era pequeno demais. Amou o papel, a tinta e o ofício de ser gráfico. Amou o trabalho no ramo elétrico, os fios, as soluções, o fazer diário. Não importava o nome da tarefa, ele a vestia com amor. Era afeto em forma de gente. Vô de todo mundo. Pai de todo mundo. Sabia conversar sem pressa, fazer rir sem esforço, ouvir como quem realmente fica. Quando estava, estava inteiro. Sergio não habitava o mundo. Ele era o mundo para quem estava perto.

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Até que um dia, quase sem aviso, Sergio atravessou a porta de um hospital como quem atravessa mais uma manhã comum. Andava. Sorria. Levava consigo a confiança de quem sempre voltou para casa. Mas aquela porta não se abriu de novo para ele. O tempo ali dentro passou diferente. Foram vinte dias que escorreram lentos, como chuva grossa em vidro fechado. Nos dois primeiros, ainda houve sorriso. Depois, o rosto aquietou, e o menino foi ficando distante. Vieram os amigos, um a um, muitos. Vieram as mãos dadas do lado de fora, as orações sussurradas, as esperanças repetidas. Vieram despedidas que ninguém reconhecia como despedidas. E então, em silêncio, o menino partiu.

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Hoje, Sergio Rodrigues de Abreu vive onde a ausência não alcança. Mora na lembrança das pessoas e repousa na memória de Deus. Não levou Jane a Veneza. Não envelheceu do jeito que sonhou, de mãos dadas, atravessando os anos com calma. Mas irá. Depois do sono profundo, cada promessa encontra o seu tempo. Até lá, quem ficou escreve diários que não têm papel, apenas saudade. Anota lugares, gestos, cenas simples que o menino Sergio ainda vai amar. Tudo o que ficou suspenso segue guardado. Nada se perdeu. Apenas espera.

Sergio já está no futuro. Difícil está para nós, que ainda estamos presos ao presente, aprendendo a viver sem aquele olhar do menino que sabia, desde os oito anos, carregar o mundo inteiro no bolso.

Em memória de Sergio Rodrigues de Abreu

 

Por ALINE ABREU SANTANA

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