Voar, no fundo, é se desprender do que pesa, mesmo que por alguns minutos. É dar trégua ao chão. É confiar que o ar, invisível, sustenta. Voar é aceitar que o controle nem sempre é seu, mas o percurso ainda pode ser belo.
Acordamos antes do sol. O céu da Capadócia ainda estava adormecido, mas uma inquietação doce pairava no ar. Havia algo naquele breu que antecedia a alvorada. As formações rochosas, esculpidas por milênios de vento e lava, esperavam imóveis, como sentinelas de pedra.
— Tá sentindo esse cheiro? — ele disse, ainda com a voz rouca de sono, puxando o zíper da jaqueta.
— De vento seco ou de eternidade? — respondi, meio rindo.
— De chá com canela… e talvez de um pouco dos dois — ele piscou. — Aqui tem cheiro de coisa antiga que a gente nunca viveu, mas já conhece.
— Ou de sonho antigo que a gente tinha esquecido… até agora.

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Ele me olhou com aquele sorriso torto, o mesmo de sempre, mas que agora ganhava um contorno novo, mais silencioso. Era como se o cenário também estivesse escutando nossa conversa.

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— Você acha que, quando o balão subir, a gente vai conseguir ver tudo diferente?
— Acho que sim. Ou talvez ver igual, mas com olhos mais altos.
— Isso existe? Olhos mais altos?
— Aqui existe, Lallo. A Capadócia inventa essas coisas.
Ficamos quietos por um instante, só ouvindo o sussurro dos queimadores enchendo os balões. Lá embaixo, as chaminés pareciam guardar segredos. E lá em cima, os primeiros tons de rosa começavam a colorir o céu.

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— Posso confessar uma coisa? — Lallo perguntou, mais sério.
— Claro.
— Eu sempre achei que voar fosse coisa de gente que quer fugir. Mas agora eu entendo: às vezes a gente voa não pra escapar… mas pra lembrar o quanto gosta de voltar.

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Encostei a cabeça em seu ombro, sem dizer nada. Ele entendia meus silêncios. E naquele momento, voar era só um jeito de repousar o coração no colo do mundo.
Chegávamos cada vez mais perto, após horas por estradas serpenteantes da Turquia, atravessando cidades pequenas, mercados cheios de cores e ruas que exalavam açafrão, chá de maçã e histórias antigas. Cada curva nos levava mais fundo no coração da Anatólia. Era como se o tempo se diluísse, passado e presente misturados como mosaicos nas paredes das cavernas.

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— Você reparou na senhora do mercado? — perguntei, enquanto o ronco do motor grave preenchia o silêncio entre uma curva e outra.
— Aquela que nos ofereceu figos secos? — Lallo sorriu de canto, sem desgrudar os olhos da estrada. — Me lembrou minha avó. O mesmo olhar firme de quem já sobreviveu a tudo, mas ainda estende a mão como quem abençoa.
O carro cortava a estrada de pedra com autoridade. Alto, robusto, parecia não pedir licença para passar — ele simplesmente ia. Lallo adorava esse espírito.

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— E o menino? O que te vendia o pingente da lua e da estrela?
— Disse que dava sorte. Que carregava “vento no peito”. Achei bonito… mas não gosto de coisa mística.
— “Vento no peito”… soa como quando a gente pisa em chão estrangeiro e, mesmo assim, se sente em casa.

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— Ou como agora — ele respondeu, acelerando suavemente. — Essa estrada que desenha o deserto, esse céu que nos acompanha como cão fiel.
Ficamos em silêncio. O painel iluminava nossos rostos com uma luz âmbar. A paisagem parecia se arrastar devagar, como se também quisesse ouvir a conversa.
— Lallo… você acha que o tempo percebe quando a gente atravessa um lugar assim?
— Acho que sim. Ele se esconde nas coisas pequenas: no cheiro do açafrão, no pó vermelho colado no para-choque, no riso da mulher que nunca vimos e mesmo assim nos chamou de “meus filhos”.
— Você sempre foi assim, bruto por fora, coração de seda por dentro…
Ele olhou de relance, com aquele meio sorriso que fazia a marcha engatar sozinha.
— Eu só fico assim quando tô contigo. Esse carro, esse caminho… tudo é cenário. Mas tu é o roteiro.
Apertei sua mão, ainda quente do volante. E soube, com a mesma certeza de quem vê o balão subir, que aquela viagem era mais do que turismo, era um pouso suave no centro de algo que nem sabíamos que procurávamos.

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— Por falar em “meus filhos”, que língua era aquela, hein? — comentei, lembrando da senhora sorridente no mercado.
— Turco, ué. Mas ela falava com a gente como se fôssemos da família — respondeu Lallo, ainda com a mão firme no volante.
— Eu sei… Mas olha, se não fosse pelos cartõezinhos de “Welcome”, os cardápios com bandeirinha e os meninos decorando frases em inglês só pra vender amuleto, a gente tava perdido.

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— Eu até tentei aprender umas palavras, mas parece que o idioma escapa da boca. É como se ele se enrolasse na língua de propósito — disse ele, rindo com o canto da boca. — Só consegui decorar “merhaba” e “çay”.
— O básico pra não passar fome nem sede — completei, rindo também.
O rádio sintonizava uma música turca que parecia misturar todos os instrumentos do mundo e ainda assim soava simples. A gente não entendia uma palavra, mas era como se entendesse tudo.
— Tem algo bonito nisso, né? — continuei. — Estar num lugar onde ninguém fala sua língua, mas mesmo assim você se comunica. Um gesto, um olhar, um pedaço de pão dividido…
— É tipo a gente. Às vezes nem precisa falar. Eu já sei o que você quer só de ver teu olho ficar parado.
— Isso é bom ou assustador?
— É bonito. É raro.
Olhei pela janela. A estrada começava a subir entre os montes claros da Capadócia. As pedras se erguiam como se dissessem: “chegaram”. E a gente, mesmo sem entender direito o idioma dos homens, parecia falar fluentemente a língua do tempo, da paisagem e do encontro.
Capadócia. Terra de cavernas esculpidas por mãos humanas e da natureza, de cidades subterrâneas e de silêncios profundos. Mas ali, o silêncio era quebrado pelo som ritmado de grandes balões sendo inflados, cada um deles como um coração prestes a bater, como um segredo prestes a ser revelado.

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A palavra “balão”, descobri depois, vem do francês ballon, que veio do italiano pallone. Mas antes de qualquer Europa, já se inflavam bexigas de animais para cerimônias e jogos na China, entre os astecas. A linguagem, como os balões, também voa: ela flutua entre povos, muda de forma, atravessa fronteiras e pousa onde quiser.
— Qual a graça de subir num balão? — Lallo perguntou, enquanto estacionava o carro numa clareira de cascalho claro, diante de dezenas de estruturas sendo infladas com ar quente e paciência. Lallo era desses, o das críticas doces e cítricas.
— A graça é essa: subir — respondi, saindo do carro e ajeitando o lenço no pescoço. — A gente vive pisando firme demais, esquecendo que o ar também sustenta.

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Ele me lançou um olhar enviesado, meio cético, meio curioso. Caminhamos lado a lado até o campo, onde o tecido dos balões se agitava como pulmões despertando de um sonho.
— Quer aquele colorido ali? — apontou para um, azul e vermelho, com uma faixa branca que lembrava uma pena em espiral.
— Pode ser. Escolhe você. — mas já sabia que Lallo não escolhia absolutamente nada. Eu é que faria esse trabalho, sempre.
O baloeiro nos recebeu com poucas palavras e um sorriso cansado. Não era preciso muito. A linguagem entre nós se fazia de gestos, de acenos, da entrega de um crachá com nosso nome escrito errado e mesmo assim bonito.
Entramos no cesto com mais três turistas. O fogo subiu, o pano inflou, e logo os pés da Capadócia estavam ficando para trás.

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— Curioso… — disse, observando a linha do horizonte. — Balão vem do francês ballon, do italiano pallone… mas é só em português que a palavra tem esse som tão redondo, quase infantil. — Como se fosse feito pra caber na boca de criança — completou ele, olhando lá embaixo.
— Exato. A nossa língua tem dessas delicadezas. A palavra “balão” é leve. Parece que já nasce pronta pra voar.
— E a gente aqui dentro dela — disse Lallo, apertando minha mão. — Flutuando no som e na coisa ao mesmo tempo.
Fiquei em silêncio, deixando o vento e a altura me dizerem o resto. A paisagem se abria em fendas largas, tons ocres, casinhas fincadas em pedra. E no fundo da cesta de vime, junto com o calor do maçarico, o idioma do mundo parecia mais simples: olho no olho, palavra certa, mão segurando mão.

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E a língua portuguesa, ali entre nós, era esse balão também: uma forma de dizer o que sentimos, sem precisar tocar o chão.
E ali, na terra que carrega a bandeira com a lua crescente e a estrela, eu me peguei olhando para o céu, que começava a mudar de cor, do azul profundo ao rosado quase dourado. As cores da bandeira turca pareciam se espalhar no horizonte. Era como se os balões tocassem o próprio símbolo nacional. A lua, que já tinha se escondido, deixava espaço para uma nova luz: a do dia que nasceria em breve. E nós, suspensos no tempo, éramos também parte dessa bandeira viva.

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Dentro do cesto, Lallo me segurou pela cintura. Não falamos nada. O silêncio ali era absoluto. E confortável. Era o tipo de silêncio que só partilha profunda permite.
Voar é isso, pensei. É saber estar junto no silêncio. É contemplar. É dar-se o direito de ver tudo de cima — não com superioridade, mas com reverência.

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E quando o balão subiu, senti algo dentro de mim também se elevar. Uma memória. Um carinho. Uma certeza: a beleza também sabe calar e não havia nada mais urgente do que viver exatamente aquele momento. Sem pressa. Sem depois. Sem palavras.
PARA SABER MAIS:
Vocabulário Turco-Português
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Palavra/Expressão em Turco |
Tradução em Português |
Observações culturais ou de uso |
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Çay |
Chá |
O çay turco é tradicionalmente servido em pequenos copos em forma de tulipa. É forte, preto e sem leite. |
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Elma çayı |
Chá de maçã |
Muito oferecido a turistas. É mais aromático e doce que o tradicional. |
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Pazar |
Mercado |
Refere-se a feiras populares ao ar livre, com frutas, especiarias e artesanato. |
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Kapadokya |
Capadócia |
Região histórica da Anatólia Central, famosa por formações rochosas, cidades subterrâneas e passeios de balão. |
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Balon |
Balão |
Do francês ballon. Refere-se ao balão de ar quente (balon turu = passeio de balão). |
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Şans |
Sorte |
Palavra que aparece em pingentes e souvenires. |
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Yol |
Caminho / Estrada |
Palavra comum em placas e conversas durante viagens. |
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Misafir |
Visitante / hóspede |
Muito usada no contexto de hospitalidade turca. |
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Evlatlarım |
“Meus filhos” |
Forma carinhosa com que pessoas mais velhas se referem a jovens. |
Por ALINE ABREU SANTANA
