A minha “língua sem fronteiras” de hoje vai parar num lugar aparentemente inocente: uma cantiga de criança. Daquelas que a gente canta sem pensar, passa objetos de mão em mão, erra o tempo, ri, recomeça. Escravos de Jó. Cresci cantando isso em São Paulo, capital, no pátio da escola, no chão frio da sala, sem nunca tropeçar na palavra “escravos”. Ela passava batida, quase invisível, como passam tantas palavras quando ainda não sabemos o peso que carregam.
Na minha cabeça de criança, o dilema era outro. Jó era o da Bíblia. O homem provado, coberto de feridas, que perdeu filhos, bens, dignidade, e ainda assim não amaldiçoou Deus. Esse era o limite da minha reflexão. O máximo dela. A música era brincadeira, o zigue-zigue-zá era coordenação motora, concentração, ritmo. Um jogo que exigia atenção absoluta, porque quem errasse o tempo ficava para trás. A cantiga ensinava, sem ninguém dizer, que viver é não perder o compasso.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEEART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 01/02/2026″
Pensando hoje, com olhos de adulta, percebo que Escravos de Jó é também um exercício cognitivo poderoso. A roda parada, o corpo atento, a mão direita passando, a esquerda recebendo, a troca rápida, quase automática. Quando a letra manda “zigue, zigue, zá”, o gesto muda, o fluxo se interrompe, o objeto é retido. É preciso saber ouvir para saber agir. Linguagem, corpo e atenção caminhando juntos. Uma pequena coreografia da vida.
Mas o que me intriga agora não é só o jogo. É a língua. Porque a mesma cantiga, ao atravessar o Brasil, se transforma. E se transforma porque a língua portuguesa é assim: viva, errante, cheia de camadas, memória e invenção.
Em Minas, no Nordeste, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro, a cantiga chama o Zé Pereira como quem chama alguém conhecido do bairro, alguém que sempre aparece nas festas e nunca explica direito de onde veio.

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“Escravos de Jó, jogavam caxangá,
Tira, bota, deixa o Zé Pereira ficar.”
É quase um pedido educado, um convite feito em tom de brincadeira. Zé Pereira não é herói nem vilão; é figura do povo, dessas que atravessam ruas, histórias e carnavais com um nome comum o suficiente para caber em qualquer corpo. Pode ser um, pode ser muitos. Pode ser quem passa o objeto errado no tempo errado e faz todo mundo rir antes de a roda se reorganizar e seguir adiante.
Em Alagoas, a brincadeira ganha outro fôlego e convoca o Zé Guerreiro.
“Escravos de Jó, jogavam caxangá,
Tira, bota, deixa o Zé Guerreiro ficar.”
O nome endurece, ganha peso, pede atenção. Já não é só alguém que permanece; é alguém que enfrenta. O gesto da mão acompanha o ritmo com mais tensão, como se o “zigue-zigue-zá” exigisse firmeza para não cair. O guerreiro entra na roda como lembrança de luta, mesmo quando ninguém percebe que está repetindo, em forma de jogo, histórias antigas de resistência.
Em algumas versões, a língua resolve pregar peça e muda o personagem: surge o Cão Guerreiro.
“Escravos de Jó, jogavam caxangá,
Tira, bota, deixa o cão guerreiro entrar.”
O cão ocupa o lugar onde antes havia um homem. Guarda, ameaça, companheiro. Não fala, mas entende o jogo. Não questiona a regra; reage ao ritmo. A cantiga aceita essa troca sem espanto, porque a língua portuguesa não pede justificativas. Ela permite. O cão entra, o objeto circula, a roda não se desfaz.
No Pará, a letra resolve andar, sair do lugar, abrir caminho:
“Escravos de Jó, jogavam caxangá,
Tira, bota, vamos a Belém, que vai, que vem.”
A cantiga vira deslocamento. Já não é apenas passar o objeto; é viajar. O jogo ganha estrada, ida e volta, fluxo contínuo. A roda deixa de ser só círculo e se transforma em travessia. A língua faz turismo afetivo: leva a brincadeira para outro território e devolve com cheiro de rio, de mercado, de cais.

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Em São Paulo, talvez por pressa, talvez por hábito urbano, a letra se enxuga:
“Escravos de Jó, jogavam caxangá,
Tira, põe, deixa ficar.”
Não há nomes próprios, nem personagens. Só ação. Só comando. A cantiga vira quase um roteiro do gesto. Não pergunta quem fica; apenas afirma que algo precisa permanecer. Funcional, direta, prática. Como a cidade. A roda segue sem pausa.
E, por baixo de todas essas versões, como um rio que corre sem ser visto, aparece Zambelê.
“Escravos de Jó, jogavam caxangá,
Tira, bota, deixa o Zambelê ficar.”
Zambelê não entra em todas as rodas, mas sustenta muitas delas. Não é convite, nem ordem. É eco. É lembrança que insiste. Quando ele surge, a cantiga deixa de ser apenas jogo e encosta na lenda, na história dura, na violência que a língua tentou suavizar sem apagar. Zambelê não “fica” por escolha; ele permanece porque não encontrou descanso.
E aí a brincadeira muda de tom.
Zambelê não é só um nome sonoro. É uma lenda. Um homem negro, escravizado, líder em sua terra, trabalhador honrado, morto de forma brutal, esquartejado, enterrado em partes diferentes. Um corpo fragmentado pela violência. Uma alma condenada a vagar, procurando a própria cabeça, ajudando os outros a encontrar o que perderam, na esperança de, um dia, encontrar a si mesmo. Zambelê vê tudo porque não tem descanso. Sabe onde estão as coisas porque nunca pôde estar inteiro.

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Como isso foi parar numa cantiga infantil?
Talvez porque a língua faça isso: ela guarda o que a história tenta esconder. Disfarça em jogo o que foi trauma. Transforma dor em ritmo, violência em parlenda, para que a memória não desapareça completamente. Zambelê vira som, vira sílaba repetida, vira algo que a criança canta sem saber, mas que permanece ali, pulsando.
E então entram os outros personagens. O guerreiro, figura de força, resistência, luta. O cão, símbolo ambíguo, ora guardião, ora ameaça, ora companheiro fiel. O Zé, nome genérico, popular, que pode ser qualquer um, todo mundo e ninguém. Zé Pereira, Zé Guerreiro, Zé anônimo. São camadas sobrepostas. Cada região escolhe o que faz sentido para sua própria história, sua própria memória coletiva.

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No fundo, todos eles dizem a mesma coisa: deixa ficar. Deixa o Zé ficar. Deixa o guerreiro ficar. Deixa o cão entrar. Deixa o Zambelê ficar. A língua, generosa e inquieta, não exclui. Ela incorpora. Não apaga. Reconta.
E talvez seja isso que a música ensina, sem jamais explicar: pouco importa quem entra na letra. O essencial é que alguém fique. Porque, enquanto a roda gira e a língua se move, a história continua sendo cantada, mesmo quando ninguém percebe. A língua portuguesa é assim: cheia de alusões, histórias, lendas, ecos de um passado que insiste em se mover dentro do presente.

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Como juntar tudo isso numa brincadeira de criança? Não se junta. A língua faz sozinha. Ela mistura sem pedir licença. Ela atravessa séculos, regiões, violências e afetos, e chega até nós como jogo, música, riso. E, quando crescemos, se tivermos disposição para ouvir de novo, percebemos que ali havia muito mais do que parecia.
Entre o zigue e o zá, a língua ensina: nada é simples, nada é neutro, nada é só brincadeira. Mas, ainda assim, a roda gira. E o objeto continua passando de mão em mão. Porque, apesar de tudo, a língua segue viva. Em movimento. Sem fronteiras.

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PARA SABER MAIS:
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Tema |
O que é |
Reflexão |
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Cantiga “Escravos de Jó” |
Brincadeira tradicional do folclore brasileiro, transmitida oralmente |
Mostra como a língua guarda histórias profundas mesmo quando aparece em jogos infantis |
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Variações regionais da língua portuguesa |
Diferenças de palavras, nomes e sentidos conforme a região |
Revela que a língua não é fixa, mas se molda à memória e à vivência de cada lugar |
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Lenda de Zambelê |
Narrativa popular ligada à escravidão e à injustiça histórica |
Aponta como a dor coletiva pode ser suavizada pela oralidade sem ser apagada |
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Cultura oral brasileira |
Saber transmitido pela fala, pelo canto e pela repetição |
Mostra que nem tudo que importa está escrito, mas permanece vivo na prática |
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Jogos cantados infantis |
Brincadeiras que unem música, corpo e atenção |
Indicam que aprender também acontece pelo ritmo, pelo gesto e pelo convívio |
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Escravidão no Brasil |
Sistema histórico que marcou a formação social e cultural do país |
Convida a repensar palavras que cantamos sem perceber o peso que carregam |
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Folclore brasileiro |
Conjunto de cantigas, lendas e parlendas populares |
Revela a capacidade da língua de misturar memória, imaginação e resistência |

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Por ALINE ABREU SANTANA
