Introdução
Convido vocês a embarcarem comigo em uma jornada literária repleta de deuses, lendas, poesias e uma rica mitologia que transcende o tempo no tema da trigésima segunda edição da Revista Internacional The Bard — Sob os ventos do Norte: “A Arte nas Culturas Nórdicas”. Preparem-se para embarcarem nessa jornada onde a magia ganhará vida nas autopoieses criadas, narrando a poesia, a paixão e os amores entrelaçados na arte e sua extensão na alma, ressoando, tão livre quanto o vento em folhas e tão grande quanto o céu infinito.
O objetivo deste ensaio literário reflexivo é despertar novos pesquisadores a adentrarem nesta empolgante temática, com a sistematização de palavras e achados pesquisados na coluna em evidência. Mergulhamos na literatura nórdica, onde o amor, a perda e o divino se entrelaçam sob o manto estrelado do destino. Portanto, desejo-lhes bons momentos autopoiéticos com êxtases oceânicos de conhecimentos em um universo fantástico. A literatura nórdica é uma fonte inesgotável de histórias fascinantes que nos transportam para um mundo cheio de deuses poderosos, heróis corajosos e criaturas míticas. Ela exerceu uma grande influência na cultura contemporânea e continua encantando leitores ao redor do mundo.
Afagos nos olhos.
É lindo sentir que existimos.
E que existem imortalidades culturais.
Minha mensagem introdutória.
Colunista Stella Gaspar.

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Autopoieses & Narrativas: A Cultura Nórdica e a arte como extensão da alma
Sob os ventos gelados do Norte, onde o céu dança em véus de aurora, as culturas nórdicas teceram uma tapeçaria de mitos, símbolos e poesia que ressoa como o pulsar de um coração apaixonado. A arte dessas terras, repletas de narrativas épicas e delicadas, não é somente um reflexo da natureza bruta, mas também uma celebração da alma humana em sua busca por significados, buscando equilibrar a grandiosidade do épico com a emoção humana, criando uma experiência literária que toca profundamente o coração e a mente do leitor. O sentido de delicadeza na literatura épica diz respeito à sensibilidade, à emoção, à fragilidade e à beleza sutil do contexto épico.
A literatura nórdica é um conjunto de histórias e mitos que se originaram nos países escandinavos, como Noruega, Suécia e Dinamarca. Essas histórias são cheias de deuses, heróis e criaturas fantásticas. Sua rica cultura possui um estilo único, com uma linguagem poética e uma atmosfera sombria, influenciando diversas obras literárias, como a trilogia “O Senhor dos Anéis” de J.R. Tolkien; que apresenta diversas mensagens contextuais, variando conforme a visão e a interpretação pessoal. Contudo, algumas das mensagens mais recorrentes abordam a relevância da amizade, da bravura, da esperança, da força, da benevolência e da essência humana. A narrativa também aborda tópicos como a dimensão do poder, a essência da guerra e a relevância de resistir ao mal.
Outro exemplo é a série “Crônicas de Gelo e Fogo”, do autor George R.R. Martin; que também se inspira na mitologia nórdica para criar um universo complexo e repleto de personagens cativantes.
Os mitos nórdicos são histórias que explicam a origem do mundo, dos deuses e dos seres humanos. Eles são cheios de aventuras, batalhas épicas e ensinamentos morais. Essas histórias eram transmitidas oralmente de geração em geração, até serem registradas em textos escritos durante a Idade Média.

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A série incorpora elementos da mitologia nórdica, como a presença de monstros e seres sobrenaturais, e a importância da família, que são características marcantes da cultura nórdica.“As Crônicas de Gelo e Fogo” são consideradas por críticos e fãs como uma das melhores séries de fantasia já escritas; todas as obras têm em comum que mostram o conflito entre os autos sacrifícios e o autointeresse, entre o espírito e ego humanos. Os nórdicos, assim como a maioria dos povos da antiguidade, eram politeístas; acreditavam, portanto, em vários deuses. Além de suas crenças, os nórdicos acreditavam também na existência de seres sobrenaturais e mágicos como fadas, elfos, anões encantados, gigantes, bruxas e videntes.

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2 – A poesia nórdica — um convite à contemplação do sublime
“A poesia pode ser um vasto mundo, uma maneira renovada de sentir sensações e emoções, é um convite para o olhar do coração, moldando a nossa existência”. (Stella Gaspar, 2025).

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Para o povo nórdico, a arte de poetizar era um ato de autopoiese, uma recriação do self em harmonia com o cosmos. No coração da arte nórdica, a poesia era mais do que palavras; era magia, um convite à contemplação do sublime. Ela nos ensina que o amor, como a arte, é uma dança com um destino, um canto que ecoa além da vida. A poesia era o caminho para escrever e registrar os principais textos sagrados. A poesia aparece entre os primeiros registros das culturas mais alfabetizadas, com fragmentos poéticos encontrados em monolitos antigos, runas e outros materiais. O Romantismo nas Runas e na Natureza, mais do que um alfabeto, eram portais para o sagrado. Inscrições em pedras rúnicas, como a pedra de Rök, contam histórias de amor eterno e sacrifício. Uma runa entalhada para um amante perdido não era somente um epitáfio, mas um juramento gravado na eternidade. A natureza, com seus fiordes e florestas sussurrantes, inspirava esses versos. O vento, tão presente na mitologia nórdica, era um mensageiro dos deuses, carregando suspiros de amantes separados pelo mar ou pela morte. O romantismo dos ventos do Norte ainda sussurra, convidando-nos a ouvi-lo.
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Skald era um nome dado a um poeta ou contador de histórias que usava poesia e música na Noruega e na Islândia, e em sentido amplo nos países nórdicos. Numa época em que o acesso à escrita era menos frequente, este também era um narrador popular de episódios históricos. Compunham poemas cantados ou recitados em ocasiões importantes, como festas, cerimônias e celebrações. A principal fonte de conhecimento que temos sobre a poesia dos skalds está na “Prosa Edda”, um manual do século XIX. É possível que os Skalds dos Vikings contassem as histórias sem o uso de poesia também, mas o modo usual era em versos acompanhados por um instrumento de cordas, especialmente as harpas. Isso fazia com que contar histórias ou dar palestras fossem verdadeiros espetáculos, os quais, se olharmos atentamente as tradições antigas, a poesia seria provavelmente ouvida com profundo respeito e silêncio, às vezes interrompidos por risos ou espanto.
Os skalds, poetas-guerreiros, dominavam a arte do skaldskapr, compondo versos que capturavam a essência do heroísmo e da fragilidade humana. Seus poemas, como os drápas e lausavísur, eram oferendas aos deuses, aos reis e aos amores perdidos. A métrica complexa, como o dróttkvætt, exigia não apenas habilidade, mas uma entrega emocional que fazia cada verso vibrar com vida. Os skalds eram os poetas dos vikings, e a poesia (narração de histórias), era uma das formas de arte mais valorizadas na cultura nórdica. Essa arte era considerada um presente de Odin, o deus-chefe dos vikings, e o simples fato de ser um skald já fazia com que alguém se tornasse parte da classe alta dos jarls em sua sociedade. Embora o skald exigisse uma quantidade enorme de conhecimento e memória, ele não se resumia à memorização e recitação. Grande parte da poesia era composta na hora, adaptando-a à inspiração do momento, ao humor e à reação do público. O skald às vezes usava uma lira ou harpa para marcar o tempo enquanto improvisava com base em seu tema. Também usava formas líricas chamadas kennings para colorir seu poema, encontrando seu caminho artístico.

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A poesia skaldiana compara-se ao jazz ou às fugas (variações infinitas sobre um tema) da música clássica. Essa qualidade de criatividade e inspiração inerente à poesia skaldiana é provavelmente a principal razão pela qual os poemas não foram escritos, eram criações vivas, captando a essência da experiência humana, uma expressão poética de sentimentos e emoções, visões de mundo.
A poesia pode ser um vasto mundo, uma maneira renovada de sentir sensações e emoções, é um convite para o olhar do coração, moldando a nossa existência.

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Em poemas como os encontrados na “Edda Poética”, o amor é um fogo que consome e ilumina. Um exemplo é o lamento de Skírnir em Skírnismál, onde ele corteja a gigante Gerðr em nome de Freyr, misturando desejo ardente com a inevitabilidade do destino. A poesia nórdica não separa o romântico do cósmico; o amor é um fio que conecta mortais aos deuses, entrelaçado com a neve e o sangue.
O romantismo nórdico é indissociável da tragédia. Na Völsunga Saga, o amor entre Sigurðr e Brynhildr é um fogo condenado pelas teias do destino. A poesia que permeia essas narrativas não busca finais felizes, mas a beleza na efemeridade. Como as auroras boreais, o amor nórdico é fugaz, mas eternamente memorável. Os versos dedicados a esses amores trágicos, muitas vezes improvisados em banquetes, eram uma forma de desafiar a mortalidade, de tornar o efêmero imortal.
Poesia Nórdica
(Traduzido do islandês por Francesca Cricelli)
Um espelho fala em meio ao sono.
Absorve a realidade.
Lá fora, espelham-se as nuvens, navegam no céu.
Como um navio em direção ao porto.
Quantos portos há no céu?
Pergunte ao espelho, antes que a realidade acorde.
E o silêncio assuma.
Ele é sedento como as nuvens.
Tudo isso acontece na alma.
As palavras flutuam no céu.
E se levantam do abismo.
Caminham cidades adentro.
E se espelham nas nuvens.
Como as cores na luz.

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2.1-Encontrando autopoieses na cultura moderna nórdica
Me fascina o poder da autopoiese em nós, nas nossas vidas e produções. Nossas imaginações voam como um sopro de brisas, buscando nas diferentes artes o belo que deve ser imortal. A autopoiese é uma autocriação, onde o artista, o professor, o ator, o jornalista, etc. imortaliza sua arte. A prova dessas afirmações está no fato de, até hoje, a arte nórdica continuar a nos encantar. Diversos autores têm utilizado elementos dessa rica tapeçaria cultural em suas obras, criando narrativas e autopoieses que homenageiam e reinventam antigas lendas da mitologia nórdica, com suas narrativas repletas de deuses poderosos, criaturas míticas e heróis destemidos, que têm atravessado séculos e ainda exercem uma influência significativa na cultura moderna. Esta influência pode ser observada em múltiplas facetas da arte e do entretenimento, onde antigos símbolos e histórias são reinterpretados para capturar a imaginação de novas gerações.
A arte, para os nórdicos, é como uma extensão da alma. Podemos entender essa grandeza de palavras como o sonho possível da fusão corpo e alma, na busca da simbiose perfeita que integra as diferentes dimensões do ser humano, criando, imaginando, transformando, florescendo a vida.
A chama da vida sem a essência da autoria, ou seja, da autopoiese, tende a perder a fonte de energia inspiradora.

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A vela vermelha
Por Stella Gaspar
Paixão, energia e força.
Sua chama dança.
Em meus pensamentos.
Ah! Eu me divirto.
Como um pássaro encantado.
Avisto a inspiração.
De cor vermelha.
Carinhosamente penetrando.
Nos meus desejos intensos.
Vamos ao jardim.
Ver as estrelas?

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A música também é um meio expressivo para a reinterpretação da mitologia nórdica. Bandas que se inspiram em temas épicos e místicos trazem elementos das antigas sagas em suas composições, evocando um passado heroico e sombrio que transcende o tempo. Escritores contemporâneos, como Genevieve Gornichec em “No Coração da Bruxa”, reimaginam as lendas nórdicas com novas perspectivas e narrativas envolventes. Grupos musicais de metal, como Amon Amarth e Sabaton, encontram inspiração nos temas épicos nórdicos para composições e espetáculos ao vivo. A cultura nórdica moderna está passando por uma transformação, onde suas tradições ancestrais estão sendo reinterpretadas e incorporadas em diversas formas de expressão. A teoria autopoiética nos sinaliza que a dinâmica que dá origem ao humano no vir-a-ser, o reconhecendo como seres humanos de criações e revelações, abre possibilidades de entrelaçamento entre o viver e o conviver, cada com suas formas de expressar emoções. Esses aspectos da dinâmica autopoiética refletem na cultura nórdica sua capacidade de se adaptar aos tempos modernos, mantendo-se relevante e cativante para as novas gerações.
A mitologia nórdica exerce uma influência significativa na literatura, na música, cinema e moda, despertando o interesse do público por histórias épicas e personagens poderosos, ressoando com as sensibilidades modernas. Estas narrativas são reinterpretadas sob novas óticas, mas mantêm a essência de um mundo onde o destino dos homens e deuses se entrelaça inexoravelmente.

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Para concluir…

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Estou muito feliz por conhecer, via pesquisadores e estudiosos, a beleza da mitologia nórdica, que abrange uma variedade de temas, incluindo a criação do mundo, a vida dos deuses, a natureza e o destino humano. As histórias da mitologia nórdica continuam a encantar leitores de todas as idades. “Edda em verso” ou “Edda poética” é uma coleção de poemas em nórdico antigo preservados inicialmente no manuscrito medieval islandês Codex Regius, do século XIII. A obra é composta por 11 poemas mitológicos e 19 poemas de heróis nórdicos e germânicos, cujos autores são desconhecidos. Com a Edda em prosa de Snorri Sturluson, é a mais importante fonte de informações sobre a mitologia nórdica e de heróis lendários germânicos.
Essa mitologia é repleta de deuses, deusas, criaturas míticas e eventos épicos. A cultura nórdica continua a fascinar e inspirar, mantendo viva as chamas de suas antigas tradições em constante transformação. Desejo que possamos encontrar nossas próprias autopoieses em narrativas escritas e construídas para tecer a dialética do encontro com nossas inspirações, desafiando o tempo, sob o olhar vigilante das estrelas.

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Muitas inspirações literárias.
Desejos da autora e colunista!

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“Quero ouvir a sua bela voz, meu amor”.
(NeIL, German, 2017)
Referências Bibliográficas.
NEIL, G. Mitologia Nórdica. Uma edição. Gávea, Rio de Janeiro: RJ. Editora Intrínseca, 2017
https://revistacult.uol.com.br/home/arcas-de-babel-poesia-nordica-1/
(Acesso em 07/05/2025).
https://www.revistas.usp.br/clt/issue/view/11891( Acesso em 04/05/2025).
Por STELLA GASPAR
