AUTOPOIESE E NARRATIVAS – O Tempo como um modo próprio de ser

AUTOPOIESE E NARRATIVAS – O Tempo como um modo próprio de ser

Introdução

A vida é um processo de conhecimento; assim, se o objetivo é compreendê-la, é necessário entender como os seres vivos conhecem o mundo. (Maturana, 1996)

 

A 36ª edição da Revista Internacional The Bard, aborda como tema principal – Uma Viagem nos Tempos: “A expressão de Chronos, Kairos e Aion no Espiríto Humano”.

A narrativa escrita na nossa coluna, buscou trazer para discussão os modos de entendimento e vivência do tempo incentivando reflexões importantes acerca do valor singular de cada momento vivido dando sentido às experiências cotidianas.

IMAGEM GERADA POR IA “usando SEAART.AI, sob a direção de Arely Soares Reis, Criada em 30/01/2026″

 

Ao unir o tempo linear, o tempo oportuno e o tempo eterno, cada pessoa é convidada a compreender e vivenciar o tempo de forma mais ampla e consciente, enriquecendo sua trajetória e visão de mundo.

No espírito humano, Chronos, Kairos e Aion coexistem e se complementam, influenciando nossos pensamentos, emoções e decisões. Enquanto Chronos organiza e limita, Kairos inspira e transforma, e Aion conecta e transcende.

O que acontece com o tempo quando passamos a perceber sua presença nas coisas e em nós? São questões como estas que a instalação Cronologia Kairológica busca instigar.

Daí, o título: O Tempo Como Um Modo Próprio De Ser, sendo o principal foco investigativo nesta narrativa. Na ideia de tecer cronologias kairológicas, colocamo-nos diante do tempo com novas perspectivas conectadas a transcendência de Aion e em Chronos que aparece em situações como:

  • Organização da agenda e planejamento das atividades diárias.
  • Sensação de urgência ou pressa diante de tarefas e obrigações.
  • Preocupação com o futuro e com o envelhecimento.
  • Vivência do tempo como recurso limitado, que pode “escapar” ou “ser desperdiçado”.

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Devemos viver em nós mesmos e pensar na vida inteira, em todos os milhões de possibilidades vividas no tempo presente, futuro, diante dos quais não há nada de tempo perdido. Há momentos em que parece que o tempo fica mais lento, ou o ar fica parado, e tudo ao nosso redor parece encolher, marcando aquele momento que você nunca vai esquecer. Nada impede que entre meu trajeto entre um compromisso e outro marcado pelo relógio eu possa viver outras experiências, mesmo as mais simples, até as mais complexas.

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Não se perca no seu tempo. Sinta o seu tempo presente e perceba o valor dos momentos que são valiosos. Essa percepção nos permite pausar, refletir e apreciar as experiências do dia a dia, por mais simples que sejam.

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Com tempos de afetos,

Stella Gaspar.

                    

O Tempo Como Um Modo Próprio De Ser

 Ao percebermos o tempo nos detalhes da vida cotidiana, abrimos espaço para significados mais profundos e para a construção de memórias duradouras. Assim, cultivar a presença e a atenção aos instantes nos permite ressignificar nossa própria trajetória.  A grande quantidade de expressões que temos na linguagem oral, e escrita, para a descrição do tempo como elemento comparativo já denuncia a importância deste como um importante eixo norteador, focando as questões: O que é o tempo? Onde ele está? Qual é sua forma, sua identificação? O tempo tem um início?

O paradigma da ciência hoje, apresenta uma série de conceitos que nos permitem analisar com diferentes olhares questões interrogativas que nos convidam a buscar uma relação mais sensível com o tempo, reconhecendo que ele não é apenas uma medida, mas também uma experiência subjetiva, na ordem biológica. Nós seres humanos, somos corpos em ritmos, no nosso próprio tempo. Não existimos fora do mundo – geográfico, histórico, político e social. Essas ideias estão vinculadas à teoria da autopoiese, que concebe o ser vivo como um sistema autônomo (auto-organizado), dependente das interações, portanto aberto para mudança de energia.

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Há, portanto, no ser vivo, um processo de autoconstrução, ou seja, seres em constantes mutações.

Conta-nos “Ovidio” nas Metamorfoses, a principal obra mitográfica tardia da Antiguidade, que havia uma potência primordial, “Chronos, o tempo, também conhecido como “Aion”, imortal, imperecível, o tempo sacralizado. 

Chronos, na tradição grega, é o deus do tempo cronológico, mensurável e sequencial. Ele corresponde ao tempo que pode ser contado e medido, aquele Vivência do tempo como recurso limitado, que pode “escapar” ou “ser desperdiçado”.

Do ponto de vista psicológico, Chronos pode gerar ansiedade e estresse quando o indivíduo se sente pressionado por prazos ou pela passagem do tempo. Por outro lado, pode também promover disciplina, ordem e senso de responsabilidade.

Chronos e Kairós. O primeiro é o responsável pelo tempo marcado, contado. É o relógio matemático de nossas atividades. O outro é a qualidade de todo tempo vivido, é o momento oportuno, que nos marca. Kairós é o tempo da oportunidade, do momento certo e significativo.

Diferente de Chronos, Kairós não é mensurável nem previsível; ele se refere ao instante em que algo especial acontece, àquele tempo “certo” para agir, decidir ou transformar. No espírito humano, Kairós se manifesta como a percepção de momentos únicos, de revelações, de experiências profundas que marcam a vida. Na psicologia, Kairós está ligado à capacidade de perceber e aproveitar as oportunidades e ao desenvolvimento da intuição e da sabedoria. Ele valoriza a qualidade do tempo sobre a quantidade.

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Embora não fosse um dos deuses mais cultuados, a figura de Kairós era respeitada como a encarnação do instante decisivo, aquele que pode transformar destinos. Sua representação reforça a ideia de que o tempo certo não espera — é preciso reconhecê-lo e aproveitá-lo quando aparece. Neste contexto, as horas são preciosas, não podem ser desperdiçadas. A qualidade de todo tempo vivido, é o momento oportuno, que nos marca.

Mário Quintana traduz esses tempos:

 

O tempo é indivisível. Dize.

Qual o sentido do calendário?

Tombam as folhas fica a árvore.

Contra o vento incerto e vário.

 

A vida é indivisível. Mesmo.

A que se julga mais dispersa

E pertence a um eterno diálogo

(…) Todas as horas são extremas!

 

Aproveitar o tempo, seu encantamento. Ir longe, mas do que podemos, ter olhos para além, com uma visão renovada.

Aion representa o tempo eterno, ilimitado e absoluto. É o tempo da alma, da existência e do ser. No espírito humano, Aion se manifesta como a experiência de transcendência, de conexão com algo maior, de integração do passado, presente e futuro em uma unidade. Sabemos que precisam se misturar e, se renovar. É o tempo da contemplação, da espiritualidade e do sentido profundo da vida. Na filosofia, Aion é o tempo do ser, que transcende o tempo cronológico e oportuno.

Práticas como meditação, leitura silenciosa, caminhadas, contemplação de paisagens, pesca, apreciação artística, dança, preparo cuidadoso de refeições e diálogos pautados pela escuta ativa contribuem para manter o indivíduo atento, receptivo e integrado ao momento presente. Agir em conformidade com a própria intuição também favorece esse estado de conexão.  

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O tempo potencial, como nos disse Prigogine (1991), está sempre aqui, em estado latente, prestes a se atualizar.  

Explicar o tempo? Não sem a existência.

Explicar a existência? Não sem o tempo.

Desvendar a profunda e oculta conexão entre o tempo e a existência […]

é uma tarefa para o futuro. John Wheeler, físico. (1911-2008)

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Essas operações internas, marcadas pelo movimento e pela ação do próprio espírito, possibilitam que cada indivíduo sinta e conte o tempo de forma singular na sua jornada de autoconhecimento. Assim, o tempo não é apenas uma entidade externa, mas algo vivido e construído a partir da experiência interior, também como interlocutor na dimensão inconsciente, na qual o dinamismo do espírito desempenha um papel essencial na compreensão e vivência temporal. É a qualidade de todo tempo vivido, é o momento oportuno, que nos marca.

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O que é, pois, o tempo? 

Então, o que é o tempo? se ninguém me perguntar, eu sei; se quiser explicá-lo a quem me pergunta, não sei. Santo Agostinho, Confissões, livro XI.

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Uma famosa indagação de Santo Agostinho, “O que é, pois, o tempo?”, destaca a dificuldade em defini-lo, apesar de o compreendermos no cotidiano. Agostinho sugere que o tempo existe na mente humana como memória (passado), atenção (presente) e expectativa (futuro), sendo uma “distensão da alma” e não um objeto mensurável exterior. 

Agostinho é especialmente conhecido por sua profunda reflexão sobre o tempo, que ele aborda não apenas como uma dimensão física, mas como uma experiência interna da alma humana. Em seu texto Que é o tempo?”, ele explora as dificuldades e paradoxos de compreender o tempo, questionando sua existência e natureza, e mostrando como o tempo está ligado à percepção e à mudança.

 

Que é o tempo?

Por Santo Agostinho

Não houve, pois, tempo algum em que nada fizestes, pois fizeste o próprio tempo. E nenhum tempo pode ser coeterno contigo, pois és imutável; se, o tempo também o fosse, não seria tempo. Que é, pois, o tempo? Quem poderia explicá-lo de maneira breve e fácil? Quem pode concebê-lo, mesmo no pensamento, com bastante clareza para exprimir a ideia com palavras? E, no entanto, haverá noção mais familiar e mais conhecida em nossas conversações?

Quando falamos dele, certamente compreendemos o que dizemos; o mesmo acontece quando ouvimos alguém falar do tempo. Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem me pergunta, já não sei.

Contudo, afirmo com certeza e sei que, se nada passasse, não haveria tempo passado; que se não houvesse os acontecimentos, não haveria tempo futuro; e que se nada existisse agora, não haveria tempo presente. Como então podem existir esses dois tempos, o passado e o futuro, se o passado já não existe e se o futuro ainda não chegou?

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Quanto ao presente, se continuasse sempre presente e não passasse ao pretérito, não seria tempo, mas eternidade. Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como podemos afirmar que existe, se sua razão de ser é aquela pela qual deixará de existir? Por isso, o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não existir. Disponível na Íntegra em: https://farofafilosofica.blog/2025/05/12/

Em uma linguagem agradável a leitura evidencia aspectos entrelaçados com; sentir o mundo. Por meio de nossa necessidade de movimento no tempo, podemos sentir a vida e o que fazemos de nossa existência. Assim, entende-se que somente a eternidade é estática, todo o resto, que esteja “dentro” do tempo, possui necessariamente movimento com mudanças paradigmáticas, preservando a nossa memória com momentos atemporais.

O que podemos extrair das investigações até agora acerca da natureza do tempo, é que, em primeiro lugar, o tempo é uma questão fundamental para o ser humano – fazendo parte da sua condição natural – em segundo lugar, o propósito por detrás destas investigações é, em último caso, lidar com a noção de finitude humana.

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A Chronologia Kairológica é uma tentativa de transformar o tempo do relógio em um tempo de experiências marcantes. Daqueles instantes em que poetizamos nos permitindo desenvolver olhares e escutas.

 

Tempo e Vida

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Concordo com Sêneca… afirmando que o “Homem” é capaz de lutar por qualquer coisa que não lhe pertença. Luta para defender terras, por poder, por escravos, por amores, por seus filhos, por seu povo. Mas é incapaz de lutar para defender seu tempo. Sêneca, (2022, p. 39) acreditava que o tempo é nosso bem mais valioso. Como a vida é finita, resta a cada indivíduo um tempo limitado. Para ele, desperdiçamos muito tempo e a vida vai se esvaindo. Dedicamos realmente a nossa atenção, o nosso tempo às superficialidades, ficamos secos de sensibilidades e amor, cansados e queixosos. Na verdade, nos fatigamos demais. A vida vai acontecendo pobre de profundidades e limitada.

Tempo, tempo, tempo. Valorizar cada minuto. “A vida se sabemos usá-la, é longa”, escreveu Sêneca. É preciso maior compreensão do viver, tendo uma visão clara de tudo o que o cerca. Percorrendo o seu interior, o “Homem” prossegue se depurando e avançando na direção da felicidade, do amor, da luz, se aproximando de sua espiritualidade. 

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Na mitologia, Chronos representa o senhor absoluto do tempo marcado pelo relógio, controlando minutos, horas e dias. Ele é frequentemente considerado como uma força constante que acompanha todos os momentos de nossas vidas, impactando nosso percurso ao longo do tempo. Esta figura ilustra a dimensão do tempo que existe fora de nós, funcionando como um elemento fundamental para organizar a vida cotidiana, estimulando as buscas pelo alimento, realizações, conquistas. No entanto, nos escraviza quando determinamos que o tempo que vivemos “do lado de dentro” seja também regido por ele. Podemos nos tornar escravos do relógio, do tempo cronometrado, do tempo do mundo. Com isto deixamos de usufruir do bem-estar.

Imagem de Fateetech por Freepik

 

A nossa chance de libertação vem com Kairós. (do grego, momento oportuno) é um portal, que transforma o tempo do relógio no tempo do coração, poético e belo. Cronos é o tempo do mundo. Kairós é o tempo da “oportunidade”. Sabe aquele dia em que você encontrou um amigo muito querido de um jeito inesperado (Kairós) e passou horas (Cronos) conversando sem se dar conta de qualquer tempo? Nesse dia você conheceu Aion, o tempo do fluxo, do “caminho feliz” da existência, da totalidade psíquica, do movimento cíclico e incessante da vida, da imortalidade. 

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O tempo Aion é descrito nas mandalas, mas o que seria o relógio senão uma mandala? Mandala, palavra sâncrite, significa círculo e é associada a instrumento, que facilita a meditação e o autoconhecimento, e a ritos mágicos, assim como é usado na arquitetura sagrada como planta de templos, tendo relação também com o mundo exterior. A mandala mostra a alma humana como todos os seus enigmas, suas buscas, conflitos, aspirações, procurando unir a “Terra ao Céu”.

O grande segredo de viver em plenitude é encontrar Kairós a qualquer instante, a qualquer momento da nossa vida. 

 

Conclusões

 Na mitologia grega, Chronos é o deus do Tempo, o medidor do tempo físico. Por sua vez, Kairós – palavra de origem grega – é o tempo que não pode ser medido, cronometrado, representa acontecimento que não tem hora marcada, surpresas do cotidiano.

Assim, o tempo Kairós nos convida a aproveitar a vida em outro compasso: mais leveza e alegria, apesar da inevitável existência das tristezas, desilusões…

Em Aion, alcançamos a dimensão do eterno, da finalidade da expansão, da justa medida imprecisa entre a imanência e a transcendência. Porque este é o “não tempo”. E “não tempo” também é tempo. Imensurável.

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Tempo para sempre.

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu… Eclesiastes 3.1

Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais dirás: Não tenho neles prazer. Eclesiastes 12.1

Assim falava Zaratustra. (2021, p. 105)

É noite: agora eleva-se mais a voz das fontes.

E a minha alma é também uma fonte.

É noite agora despertam todos os cantos dos amantes.

E a minha alma é também um canto de amante.

Há qualquer coisa em mim não aplicada nem aplicável, que quer se expressar.

Há em mim um anelo de amor que fala a linguagem do amor.

 

E assim, O tempo pode ser definido também como único e singular ou múltiplo e plural. Há os tempos individuais e coletivos, como também os “tempos cíclicos”, por exemplo, da infância, do trabalho, da velhice, do lazer.

A todos que me motivaram a escrever esta narrativa, desejo-lhes os mais felizes dos tempos!

 

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO, Santo. Que é o tempo? In: Confissões. Livro XI. São Paulo: Paulus, 2007

PRIGOFINE, I. El Nascimiento del tempo. Barcelona: Tusquets, 1991.

QUINTANA, Mario- Pequeno Poema Didático. In: Antologia. Poética. Porto Alegre: L&PM, 1999.  

Disponível na íntegra em: https://amarello.com.br/2014/03/cultura/quem-e-seu-tempo-cronos-kairos-ou-aion/ 

Por STELLA GASPAR

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