“Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura…
Fernando Pessoa”. (1998, p.208)
Caros leitores, buscamos na nossa coluna “Autopoiese &Narrativas”, dialogar com narrativas possíveis, nesse universo criado na Antiguidade, em conjunto com o desenvolvimento da escrita, cerca de 3.500 a.C.
Para explorar este universo, é necessário termos um olhar não anestesiado, disposto a reelaborar, e construir conhecimentos, com a capacidade humana que temos de protagonizar e interpretar o universo dinâmico de conhecimentos.
O conceito de biblioteca é atribuído a um espaço onde se armazena vários tipos de matérias, sendo eles classificados por diferentes mecanismos, estes: físicos e digitais.

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No entanto, esses recursos tiveram grandes mudanças ao longo do tempo. A proliferação das bibliotecas, foi iniciada na Antiguidade, vistas como depósitos para seus criadores, onde deram início ao armazenamento da informação, que ajudaram a preservar a memória ao longo do tempo. Destacamos as principais bibliotecas: Alexandria por sua grande imponência informacional, a de Nínive construída por um Rei, localizada em seu grande palácio, a de Pérgamo, por seu grande acervo informacional e, por ser a pioneira no desenvolvimento do pergaminho, este que trouxe grandes atribuições para o armazenamento e descrição dos seus materiais (MARTINS, 2002).

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O que define a condição de biblioteca é a existência de uma forma de organização que permita encontrar o que se deseja, e que o máximo de usuários tenha êxito nessa busca. Essa ideia de organização se estabeleceu desde os primórdios, iniciando esse processo, nas práticas do homem, de registrar o cotidiano, percebendo, posteriormente, a importância de se preservar o conhecimento.
As bibliotecas modernas foram desenvolvidas com o intuito de tornar o conhecimento acessível à população estruturada mediante quatro características: laicização; democratização; especialização; e socialização, para auxiliar no processo da difusão da informação, a qual foi marcado pelo desenvolvimento das bibliotecas nacionais, instituições para preservar a memória da social, através de suas bibliotecas específicas por país (MARTINS, 2002). Assim, a biblioteca é designada a ser um local de transição do conhecimento, e não somente um ambiente de depósito documental. Ela só terá sua efetivação mediante a sua participação conjunta com a sociedade, público a que se destina.

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Um lugar onde se vê e lê o mundo: entre as letras, artes e palavras
Considera-se que, no caso das bibliotecas, seus estilos arquitetônicos, podem ser um dos fatores determinantes na conquista e, até mesmo, na fidelização de usuários; por isso, os projetos de planejamento das bibliotecas devem ser pautados em espaços adequados para ocorrer uma atração do público, cumprindo com o seu papel social de “Ser o fio condutor entre indivíduos e o conhecimento de que eles necessitam.” (OLIVEIRA, 2005, p. 23), e de desenvolver o interesse e o hábito da leitura, fazendo assim com que os usuários adquiram novos conhecimentos, os quais podem modificar suas realidades pessoais e, até mesmo, de suas comunidades, permitindo ao homem filosofar, refletir e até mesmo pensar o indizível.
As bibliotecas, com seus acervos, nos levam a conhecimentos por meio de diferentes registros de linguagens. A cada leitura, uma nova descoberta, por vezes convencional e literal, abrindo assim nossos olhos para analogias e comparações passíveis de interpretações e concepções, as mais diversas sobre aquilo que nos cerca. Entretanto, bibliotecas mais antigas, de modo geral, se encontram presentes nos guias turísticos e servem como pontos importantes por terem seu exterior e interior visitados com frequência, tanto por turistas quanto por moradores da cidade, para conhecer ou se aproximar de uma determinada época. O mesmo acontece com bibliotecas públicas que possuem arquitetura moderna, com fachadas diferentes do padrão a que se está acostumado, chamam a atenção do usuário pelo estilo arquitetônico de seus edifícios fazendo em alguns momentos com que o público dê pouco valor ao seu objetivo real.

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- As grandes bibliotecas históricas
As grandes bibliotecas históricas incluem a Biblioteca de Nínive; Biblioteca de Pérgamo; Biblioteca de Alexandria.
- 1.1 – Biblioteca de Nínive. Uma das bibliotecas mais importantes da Antiguidade. Sua origem se caracterizou pelo desejo do Rei Assurbanipal de ter um acervo particular em seu palácio, então, ele ordenou a construção da Biblioteca, que tinha como matéria-prima placas de argila, sendo seu acervo voltado ao estudo da geografia, astrologia, religião e matemática. Segundo Battes (2003) a prática de escrita utilizada para compor o seu material era chamado de “cuneiforme” por conter “caracteres silábicos” O acervo de Nínive era composto por 25 mil tábuas de argila, ressaltando que, ela voltava-se para a lógica 18 do depósito, e que continha também uma vasta coleção de profecias, fórmulas de encantamento e hinos sagrados e diversas peças literárias escritas em diferentes dialetos. Sua organização pode ser destacada como um dos elementos. As placas componentes de uma mesma obra eram reunidas num único bloco, no qual se punha um rótulo identificador do conteúdo. A Biblioteca de Nínive pode ser considerada a primeira coleção indexada e catalogada da história. Cabe ressaltar, que a “Biblioteca de Nínive” era localizada nas dependências do palácio do Rei Assurbanipal, assim, o acesso às informações contidas na mesma, era de acesso restrito ao Rei, sua família, amigos da nobreza, e a seus servos (Escribas), que tinham o papel de guardião, conselheiro e organizador do acervo. Com a morte Assurbanipal, a Biblioteca de Nínive sucumbiu, sendo esquecida. Séculos depois, ela foi redescoberta por Layard e boa parte da sua coleção está no Museu Britânico, podendo, enfim, ser mostrada ao grande público.

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1.2 – Biblioteca de Pérgamo, uma das bibliotecas mais importantes da Antiguidade. Segundo Martins (2002), a biblioteca de Pérgamo tinha o intuito de confrontar com a Biblioteca de Alexandria. Naquela época a disputa por matéria-prima era grande, em um certo momento, da Antiguidade, a cidade de Pérgamo ficou sem o papiro, material utilizado para armazenar seus escritos, o rei com temor em não poder da continuidade a Biblioteca, ordenou a construção de um novo suporte para registrar seus textos, surgindo o “pergaminho”, feito de pele de animais, sendo vantajoso para a escrita, pois se podia escrever em ambos os lados, e reutilizado novamente, apagando o que já estava registrado. A biblioteca de Pérgamo abrigava 200 000 volumes em seu acervo, possuía uma sala de leitura central, onde se reunia um grande grupo de sábios para o estudo da literatura e linguista. O acesso à Biblioteca era em suma voltado ao Rei e aos estudiosos, estes, conhecedores da literatura e da linguista, a qual estava voltada toda a sua coleção.

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1.3 Biblioteca de Alexandria. A mais famosa e importante biblioteca do mundo antigo, reunindo o maior acervo de cultura e ciência entre 280 a.C. e 416 a.C. Símbolo de imponência, através da História. Durante a Antiguidade, a biblioteca de Alexandria, foi construída com o propósito, de ser uma biblioteca agregadora, ou seja, que tinha a pretensão de agrupar as coleções do mundo inteiro. Seu fundador Ptolomeu gostava de estar envolvido com o intelecto, inclusive era discípulo de Aristóteles. A biblioteca de Alexandria era dividida em duas partes: quatrocentos mil volumes foram depositados num bairro da cidade chamado Bruchium; e trezentos outros mil volumes formaram uma biblioteca suplementar, num outro bairro chamado Serápio. (MARTINS, 2002, p. 75). A biblioteca foi dividida em dois prédios, com a finalidade como já citado anteriormente, de agregar tudo já escrito pelo homem, de diferentes partes do mundo, uma biblioteca, de coleções antigas e a outra parte, coleções atualizadas, construindo um círculo de preservação e organização do conhecimento perante a História.
A biblioteca de Alexandria foi a precursora na universalidade, o que mais tarde a tornou referência para as bibliotecas da era moderna.

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- Bibliotecas na Contemporaneidade/Modernidade
É fundamental resgatar a etimologia da palavra contemporâneo, cuja origem procede do Latim “contemporaneus” e “contemporanii”. Este termo é formado pelo prefixo con (relacionado à convergência), pelo substantivo tempus/temporis (tempo, duração, fração de tempo) e pelo sufixo aneus (aneo), denotando pertencimento. Segundo Cunha (2010), o adjetivo contemporâneo indica ser algo que é vivenciado na mesma época. Nessa perspectiva, aborda-se o perfil da biblioteca atual, ressaltando seu papel na sociedade moderna.

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As bibliotecas na modernidade chegam para ajudar, no processo de socialização, através do grande fluxo de circulação dos livros, estes, que passam a ter um conteúdo variado, de múltiplas opções e gostos, deixam de ser, obras meramente didática e de cunho religioso e cumpre o papel de universalismos, obras, que atuam para o crescimento e desenvolvimento geral da sociedade, exercendo, influência nesse espaço, como a nação, o estado, o município, o bairro, a escola e a família.
Citamos algumas das mais importantes bibliotecas da era moderna. Biblioteca Nacional; Biblioteca pública; Biblioteca Particular; Biblioteca Escolar; Biblioteca Infantil; Biblioteca Comunitária; Biblioteca Especializada; Bibliotecas Digitais; Biblioteca Híbrida. O papel da biblioteca contemporânea é fornecer, gerir e disseminar o conhecimento, tornando a mesma acessível à comunidade a qual está inserida, isso ocorre por meio do acesso às ferramentas e suportes informacionais, seja no meio impresso ou digital, podendo, ainda, serem acessadas tanto presencialmente como virtualmente, para garantir a interação e socialização do saber.

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- Arquitetura das bibliotecas. Aproximações de olhares, imagens, formas e imaginário
O lugar onde se vê traduz interpretações ou ponto de vista do público que ali está. Assim sendo, no caso das bibliotecas públicas, acredita-se que a influência de sua arquitetura no imaginário coletivo pode interferir no seu uso ou não uso, por parte do público.
A composição do espaço físico, nos livros que o preservam ou ainda na memória dos que o fazem, é a de um ser, que tece amplitudes de referências a que remete “obras de arte”. Não há discriminação nas diferentes áreas culturais e científicas e nas sínteses culturais. Todavia, definimos o que é o projeto arquitetônico de uma biblioteca, equivalendo a compreender ele como sendo um conjunto de possibilidades escritas, literárias e argumentativas, evocando sentidos que transcendem as obras de amplos mundos, na perspectiva histórica ou contemporânea.
Tal fato faz com que a biblioteca se torne um lugar onde convergem informações e dados locais e globais, reais e de ficção, fragmentos de saber e da realidade, os quais confirmam a ideia que relaciona a biblioteca à cultura. Segundo Cunha (2000), as bibliotecas, no caso as universitárias (BUs), são organizações complexas, com múltiplas funções e uma série de procedimentos, produtos e serviços informacionais, que refletem as mudanças oriundas da sociedade. A arquitetura das bibliotecas não tem a predominância de um espaço estático, na sua anatomia podemos incluir olhares, imagens, formas e imaginário.

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Entendemos, portanto, que o espaço livresco deve ser um espaço um local dedicado à leitura, que deve ser confortável e aconchegante. O documental… equilibra o conteúdo, a pesquisa em expressões, inseridas nos vários campos do conhecimento. É importante ressaltar que a biblioteca se difere dos museus, centros culturais e galerias de artes e instituições afins, e sua intenção cultural não é ocupar seus espaços, do mesmo modo que não é se tornar uma influenciadora de opiniões, mas aderir à cultura do cotidiano, uma forma de relação do homem com o mundo, com tudo aquilo que a natureza lhe impõe e, como ele, homem, altera formas e sentidos impostos, adequando-os às suas necessidades físicas e morais. Assim, as bibliotecas passam por constantes e dinâmicas reformulações de utilização. Hoje o acervo é organizado de tal maneira, amanhã de outra. Dependendo do tipo de biblioteca, é necessário espaço de ampliação constante ou não. Assim, as formas de organização das bibliotecas nem sempre vão combinar com as edificações que, muitas vezes, poderão não ser adequadas para novos usos.

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Considerações Finais
As bibliotecas vêm se tornando espaços de conhecimento, cujo reconhecimento social tem aumentado significativamente. Por outro lado, enfrentam vários desafios neste novo milênio, uma vez que as transformações sociais, culturais, científicas e tecnológicas têm impactado diretamente as estratégias de ação, a mediação da informação, os objetivos dos serviços prestados e as finalidades dos produtos elaborados aos diferentes públicos. Em relação aos desafios contemporâneos, pode-se citar as novas formas de ensino-aprendizagem, as quais são: cursos a distância, salas de aula virtuais, materiais didáticos e científicos em repositórios institucionais; a interação com as tecnologias de informação e comunicação (TICs) móveis, por exemplo, o tablet, o smartphone; as novas formas de mediação relacionadas às necessidades/demandas da sociedade em rede; o desenvolvimento da competência em informação no público usuário, para saberem manejar a informação no ambiente eletrônico e digital; o acesso aberto (open access) e gratuito à informação (copyleft); entre outros. Esses são desafios que exigem uma nova maneira de atuar, um novo papel a cumprir junto ao público usuário.

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Para se manter como uma instituição relevante à comunidade, a biblioteca deve fornecer a informação de forma cada vez mais confiável, rápida e, principalmente, com qualidade, para a apreciação de mundos, de uma relação dialógica, com posturas epistemológicas diferenciáveis.
Concordo com as diferentes concepções de que a leitura é uma experiência de amplos aprendizados, que nos levam a desafios, buscas de respostas e melhores condições de aprender a aprender fatos, fenômenos da própria vida, compreensão e produção de conhecimentos.
MEUS AGRADECIMENTOS
Muito, muito obrigada por suas leituras, apoio e generosidade ao me permitir compartilhar essa narrativa autopoiética. Aprendi com esses escritos, foi particularmente útil e sugestivo. Infinita gratidão aos extraordinários autores pesquisados.
Juntos aprendemos, com paixões pelas palavras.
Devemos aprender durante toda a vida, sem imaginar que a sabedoria vem com a velhice. Deve-se aprender sempre, até mesmo com um inimigo. É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe. Discursos de Epicteto (livro II, capítulo 17).

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Referências.
BATTLES, Matthew. A conturbada história das bibliotecas. São Paulo: Planeta, 2003.
CUNHA, Murilo Bastos da. Construindo o futuro: a biblioteca universitária brasileira em 2010. Ciência da Informação, Brasília, v. 29, n. 1, p. 71–89, jan./abr. 2000.
MARTINS, Wilson. A palavra escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. São Paulo: Editora Ática, 2002.
Por STELLA GASPAR
