A coluna Caldeirão Cultural surge como um espaço para refletirmos sobre as inúmeras narrativas que abordam as questões mais complexas e profundas da sociedade humana. Embora esses temas se mostrem diversos, sua essência converge para uma busca comum: entender o significado da existência, das ações humanas e dos valores que moldam o mundo em que vivemos. Em cada edição, nos lançamos em discussões que atravessam os campos da filosofia, ética, moral, política, e tradições, entre outros saberes que, ao longo da história, têm buscado compreender e ordenar o caos da experiência humana. Através da reflexão sobre essas questões, somos convidados a explorar a vida como ela se manifesta na arte e a arte como uma expressão genuína da vida, sua interpretação e recriação.
Esta jornada, que exige paciência e discernimento, propõe um mergulho no cerne das quimeras — as ideias e mitos que surgem da caixa de Pandora da contemporaneidade — e que, frequentemente, escapam à compreensão imediata, mas que, ao serem reveladas, nos desafiam a reimaginar as normas, as tradições e os valores que ainda sustentam as sociedades e suas práticas. No fundo, busca-se não apenas decifrar os tempos atuais, mas também projetar uma visão crítica sobre as influências e os legados que moldam a cultura, o comportamento ético e as relações políticas da atualidade.

Imagem de 1413rabbani8833 por Freepik
Para iniciar, vamos refletir sobre um filme recente que, de forma contundente, aborda a condição humana, o amor e a estrutura de nossa sociedade. O filme em questão é Mickey 17, uma obra-prima que se encaixa perfeitamente nesta coluna. Ele mistura filosofia existencial, amor, política, religião e distopia, gerando uma experiência cinematográfica que desafia a mente do espectador, muitas vezes provocando desconforto ao expor as contradições da “humanidade” do protagonista.
Mickey 17 é o nono longa-metragem do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho. A produção americana é baseada no livro Mickey7, de Edward Ashton, publicado em 2022. A história segue um protagonista enviado a uma expedição humana para colonizar o mundo gelado de Niflheim. Após sua morte em uma missão, sua memória é regenerada em um novo corpo, que preserva a maior parte das suas recordações.

As mortes
É a partir deste ponto sombrio que começa a nossa análise. A morte repetida do protagonista perde, ao longo do tempo, seu caráter trágico, tornando-se banal e desprovida de significado. Esse processo de “reimpressão” da vida assume um tom de negligência por parte da equipe científica, que, a cada morte do protagonista, simplesmente imprime uma nova versão dele. A banalidade da morte e a indiferença do processo, que poderiam ser objetos de uma dissertação de Hannah Arendt, se transformam drasticamente quando Mickey descobre que sua última morte foi antecedida por uma impressão feita antes do evento fatal, ou seja, ele se encontra com uma versão de si mesmo.

Imagem: cena do filme Mickey 17por Google
A múltipla existência e o paradigma do existir

Este dilema nos leva a uma reflexão existencialista. O existencialismo, enquanto corrente filosófica que foca na experiência subjetiva do indivíduo, na liberdade e na responsabilidade pessoal, está presente na obra ao questionar a essência da existência humana. Se agora é possível ter infinitas vidas sem perder a memória, o que significa ser humano? O medo da imortalidade se reflete na sociedade distópica que proíbe a coexistência de duas versões de uma mesma pessoa, considerando isso um crime. A busca por identidade e autenticidade se torna ainda mais complexa nesse cenário, onde a vida, longe de ser única, se torna descartável e repetível. Como Sartre afirmou, “o homem está condenado a ser livre”, ou seja, a liberdade absoluta impõe uma responsabilidade imensa, pois somos os criadores do nosso próprio significado, e, ao dividir a essência do protagonista em múltiplas versões, a obra questiona a capacidade humana de lidar com tal liberdade e responsabilidade sem desmoronar.

Imagem de Babee por Freepik
O protagonista é o narrador, e isso faz com que ainda mais o existencialismo seja presente na obra pois“(…) para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, é preciso e basta que nos ponhamos a narrá-lo. É isso que ilude as pessoas: um homem é sempre um narrador de histórias, vive rodeado por suas histórias e pelas histórias dos outros, vê tudo o que lhe acontece através delas; e procura viver sua vida como se a narrasse. Mas é preciso escolher: viver ou narrar.” (SARTRE, 1938, pg. 55). Ao contar sua própria história, foi a maneira que ele achou de se perceber no controle de sua existência.

Imagem de Milankov por Freepik
Amor só vale a dois

O dilema amoroso que surge entre as duas versões de Mickey e a mulher que ambos amam revela outra faceta dessa distopia. O amor, em sua complexidade, é apresentado de forma ambígua: a protagonista feminina ama as duas versões igualmente, sem conseguir escolher qual delas deveria “viver”. Esse dilema remete à reflexão do filósofo Arthur Schopenhauer, que via o amor como uma ilusão do “vontade de viver” — uma força cega que nos impulsiona a nos reproduzir e perpetuar a espécie, independentemente da razão ou do desejo individual, o que seria de extrema importância para o nosso planeta, mas os três estão além dessa necessidade prática . Para Schopenhauer, o amor não é uma busca pela felicidade, mas uma manifestação da vontade de poder da vida, que age por trás de nossas escolhas afetivas, levando-nos a acreditar que estamos escolhendo, quando na verdade somos levados por essa força irracional. A protagonista de Mickey 17 vive essa tensão, entre a paixão e a ilusão do amor, sem conseguir escapar da armadilha de um desejo que se revela maior do que ela própria e dessa maneira a escolha final parece impossível para ela.

Imagem de Agarthaai2030 por Freepik
A obra também coloca em evidência o papel da religião, não como um princípio conciliador, mas como um instrumento de controle. A figura de um comandante religioso e autoritário, obcecado pelo poder e pela imagem pública, remete a regimes totalitários. Essa dinâmica se assemelha a lideranças políticas contemporâneas, como a do ex-presidente Donald Trump, cuja postura midiática e performática exibia uma constante busca por validação. A religião, nesse contexto, não apenas controla a moralidade, mas se une à política de maneira destrutiva.

Imagem de Freepik
O mortal progresso

Imagem de Progresso Americano (1872) por Google
Além disso, o filme aborda a ciência, que é negligenciada em favor de uma abordagem agressiva e destrutiva diante de formas de vida alienígenas. Ao se depararem com novas criaturas no planeta, a primeira reação dos colonizadores é a destruição em massa. A superioridade humana é alimentada pela ideia de que, em comparação com essas criaturas, somos mais civilizados, uma crença que os cientistas tentam refutar, mas que o comandante ignorou. Essa imagética do progresso acima de tudo que é muito típico dos estadunidenses desde o seu início que é muito bem representado na pintura de 1872 de John Gast. A imagem central feminina representando os Estados Unidos da América traz o iluminado progresso para os incultos indígenas como o capitão ver os seres do novo planeta.

Imagem de Nattysiri por Freepik
Em Mickey 17, o caldeirão de ideias filosóficas e culturais cria um espelho distorcido da realidade. O filme nos apresenta uma sociedade onde a vida é vista como uma sucessão infinita de chances, o amor como um sentimento incontrolável e a política-religião como forças manipuladoras. Ao final, o que nos parece ser uma distopia aceita coletivamente, onde as fronteiras entre o humano e o desumano, o ético e o cruel, são tão tênues que nos perguntamos: a realidade em que vivemos não seria ela também uma distopia disfarçada de normalidade?
Essa obra é uma reflexão potente sobre a condição humana, sobre as escolhas que fazemos e as implicações dessas escolhas em uma sociedade que, aos poucos, parece aceitar suas próprias mazelas como parte de sua identidade.

Imagem de Vecstock por Freepik
Por LUIZ SOLRAK
