Ao ler Dom Quixote pela primeira vez, me restou a lembrança de uma força de viver, a ilusão da vida e dos desejos que só poderiam ser comparados ao estar amando. “Assim como Dom Quixote amava Dulcineia, mesmo sem jamais a ter visto, e transformava em aventura o que Sancho Pança via como a triste e banal realidade, assim é o Amor; assim é amar.”
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A Dulcineia que nunca existiu
Dom Quixote não amava uma mulher, mas uma invenção. Cervantes, com sua ironia habitual, deixa isso claro: “Dulcineia del Toboso era, na verdade, uma boa lavradora, de quem ele se enamorou, embora nunca a tivesse visto” (Dom Quixote, Parte I, Cap. XIII). A musa que incendiava o coração do cavaleiro era uma camponesa banal, transfigurada pela febre da imaginação. O amor, aqui, não é encontro com o outro, mas invenção de si.

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Essa operação não é exclusiva de Dom Quixote. Quantas vezes não elevamos um gesto trivial à categoria de epifania? Quantas vezes um silêncio qualquer não se torna “mistério profundo”, quando, na verdade, é só desinteresse? Amar, quase sempre, é produzir literatura em cima de matéria bruta. E nisso todos somos escritores medíocres, mas obstinados.

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A inexistência de Dulcineia revela o motor secreto do amor: não precisamos do outro real, basta a ficção que o substitui. O amado é, antes de tudo, uma tela de projeções, uma superfície onde colamos nossas fantasias mais convenientes. O amor é menos uma relação que uma retórica.

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Cervantes riu na nossa cara: “Amor e guerra são o mesmo, e tão lícito é usar de artimanhas e estratagemas no amor como na guerra” (Dom Quixote, Parte II, Cap. XXI).
Dulcineia é artimanha, é estratagema, é o ardil com que Dom Quixote justifica seu delírio. O amor é o pretexto que legítima aventura. E talvez seja essa a função mais nobre do amor: dar à vida a densidade de epopeia. A realidade é insuportavelmente pobre quando deixada à sua própria sorte. Inventar Dulcineias é o modo humano de tornar o cotidiano suportável.

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Schopenhauer: O Carrasco das Paixões

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Mas, como não sou um louco sempre, analisar é preciso, pois sei bem o que aconteceu com Quixote ao fim. Então entra em cena Schopenhauer, sempre disposto a derrubar castelos de vento. “O amor não é mais que um instinto sexual intensificado e iludido pela imaginação” (O Mundo como Vontade e Representação, Livro IV, §44). Se Cervantes mostra o riso do delírio, Schopenhauer mostra a engrenagem por trás dele: a vontade da espécie, que nos manipula como bonecos.
Para o filósofo, toda paixão amorosa, por mais sublime que pareça, não é senão a encenação de um cálculo biológico. “O verdadeiro fim do amor é a geração de um indivíduo determinado, que só pode nascer desses pais” (Metafísica do Amor, §1). Em outras palavras: aquela “alma gêmea” que juramos ter encontrado não passa de uma combinação genética estratégica. É vontade de existência de um ser que pode existir, da união de Quixote e Dulcineia. Fico a imaginar o que poderia vir desse encontro, se a donzela quisesse algo com o cavaleiro. Mas pode existir alguém com imaginação forte o suficiente para isso, porém o que sabemos é que Cervantes fecundou o que chamamos de romance hoje.

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Esse desmascaramento tem algo de cruel. Onde vemos poesia, Schopenhauer enxerga espermatozoides em fila. Avistamos o destino, ele vê estatística biológica. Para ele, o amor representa um mecanismo natural cuidadosamente elaborado, que utiliza artifícios como sonetos para garantir a perpetuação da espécie por meio da reprodução.
Não por acaso, sua conclusão é amarga: “O amor sexual é uma fraude da natureza em detrimento do indivíduo” (Metafísica do Amor, §5). O que acreditamos ser a busca pela felicidade não é senão a submissão a uma força cega, que sacrifica nossa paz em nome de uma posteridade que sequer nos agradecerá. E não conseguimos escapar. Mesmo sabendo que Schopenhauer tem razão, seguimos nos apaixonando. Talvez porque, sem a ilusão do amor, a vida se tornaria insuportavelmente lúcida e a lucidez absoluta é somente outro nome para desespero.

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O Amor Como Planilha Falida
Se fôssemos sensatos, o amor seria tratado como investimento. Cálculos de ganhos emocionais, balanços de riscos, previsões de retorno. Seríamos gestores dos afetos, com planilhas impecáveis. Mas a experiência prova o oposto: basta um olhar, um toque, um silêncio interpretado e todo Excel vai para o lixo.
É aí que o amor se mostra mais poderoso do que a razão. Cervantes já ironizava isso ao pôr Quixote contra moinhos de vento: símbolos da inutilidade da lógica diante do delírio. O cavaleiro sabia que enfrentava gigantes porque queria que fossem gigantes. O amor opera com a mesma teimosia: acreditamos porque precisamos acreditar.

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Schopenhauer reforça o diagnóstico com frieza: “O indivíduo, ao julgar estar perseguindo sua própria felicidade, serve, na realidade, a fins totalmente alheios a ele” (Metafísica do Amor, §6). A planilha nunca fecha porque o cálculo nunca é nosso, é da espécie. Pensamos que escolhemos; somos escolhidos. O que nos faz colocar nesse caldeirão de possibilidades mais um livro, o Gene Egoísta de Richard Dawkins, no qual quem coordena o mantenimento da espécie é o desejo de continuar existindo do gene e não o desejo carnal da espécie. Para ser o mais lúcido possível, o gene faz pensar que você tem um desejo pelo outro para que ele possa continuar a existência da humanidade, ou seja, o amor não é somente sobre você e o outro, é sempre sobre nós. No entanto, não desistimos. Rimos da própria falência e continuamos investindo no prejuízo. O amor é o único empreendimento em que aceitamos o fracasso como condição da experiência. O tombo não é erro: é parte do jogo da espécie.

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É, por isso, a mais sofisticada ironia da vida: condenados ao déficit, ainda assim insistimos em financiar o delírio. Sancho Pança chamaria de loucura. Quixote chamaria de grandeza. E talvez ambos estivessem certos.
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Egocentrismo disfarçado de romance
Dom Quixote não viu Dulcineia; viu sua própria alma refletida nela. Amava menos a camponesa que a nobreza de sua própria imaginação. Esse é o truque do amor: o outro é, na maior parte das vezes, somente pretexto para o espetáculo do eu.
Schopenhauer confirma: “A paixão amorosa põe no objeto amado uma ilusão de perfeição que desaparece tão logo a vontade da espécie se vê satisfeita” (Metafísica do Amor, §7). Amamos menos o ser real do que a fantasia que ele nos permite sustentar. O outro é espelho, não substância.

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Esse narcisismo travestido de romance explica por que o amor é tão frágil. Quando o espelho racha, quando a imagem inventada não coincide mais com a realidade, a paixão desmorona. Dulcineias viram Aldonzas; príncipes encantados viram desempregados que roncam no sofá.
Mas, até que a ilusão se quebre, somos capazes de feitos extraordinários. Amar é um teatro de projeções, e nesse palco somos dramaturgos, atores e plateia. Não há realidade que nos demova enquanto a peça estiver em cartaz. E ainda assim, seguimos amando. Porque o teatro do amor, mesmo sendo fraude, dá à vida uma narrativa. Sem esse autoengano compartilhado, restaria somente a monotonia dos dias e o tédio, como já sabiam tanto Cervantes quanto Schopenhauer, é um fardo insuportável.
Entre a loucura e o tédio
Aqui chegamos ao dilema final. Ser Sancho Pança, prudente, pragmático, confortável em sua mediocridade sensata? Ou ser Dom Quixote, delirante, derrotado, mas gloriosamente ridículo em sua fidelidade aos sonhos? Eis a questão que atravessa séculos.
Sancho representa a sobrevivência sem sobressaltos. Ele é o realista, o cético, preferindo pão e vinho ao risco da fantasia. Não sofre muito, mas também não vive muito. É a versão humana da planilha equilibrada: estável, entediante, previsível.

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Quixote, ao contrário, escolhe a vertigem. Sua vida é um acúmulo de fracassos, mas cada fracasso é também uma afirmação de grandeza. “A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que os céus deram aos homens” (Dom Quixote, Parte II, Cap. LVIII). Amar é, no fundo, essa liberdade de ser ridículo e de preferir a poeira do caminho à limpeza da acomodação.
Schopenhauer não nos dá saída: “Na vida, oscila-se constantemente entre a dor e o tédio” (O Mundo como Vontade e Representação, Livro IV, §57). Amar é dor; não amar é tédio. O jogo está armado de antemão, e nenhum dos dois caminhos nos redime. Mas, se tudo está perdido, que ao menos escolhamos perder com estilo. Melhor a queda de Quixote, ruidosa e poética, que a sobrevivência silenciosa de Sancho. Preferível à loucura do amor que à sanidade do nada.

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Obrigado pelo tombo
No fim, amar é aceitar a queda. É inventar Dulcineias, desobedecer Schopenhauer, rir da própria tragédia. É ser derrotado por moinhos, mas com a sensação íntima de que a batalha valeu a pena. Como diria Cervantes: “Aquele que lê muito e anda muito, vê muito e sabe muito” (Dom Quixote, Parte II, Cap. XXV). Quem ama muito, talvez não saiba nada, mas ao menos vê a vida como uma epopeia.

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Por LUIZ SOLRAK


