CALDEIRÃO CULTURAL – Homem com H: entre amores, repressão e um drama edipiano

CALDEIRÃO CULTURAL – Homem com H: entre amores, repressão e um drama edipiano

“Você assistiu ao filme do Ney Matogrosso?”

Foi assim que começou uma conversa numa segunda de manhã.

Do outro lado da mesa, alguém franzia o nariz como quem cheira uma crítica social disfarçada de moralismo. “Não gostei, tinha muita cena de sexo.”

Ah, claro. Não gostou, pois tinha muita cena de sexo. O que me sobrou nessa conversa foi: uma obra tão rica em conteúdo histórico, social. musical e psicológico, mas o que ficou na mente dessa pessoa foi a cenas de sexo. Isso me diz muito mais sobre essa pessoa do que sobre a obra cinematográfica.

Imagem de Google

 

Faço essa coluna para esclarecer que a arte é múltipla. Ela é sempre um caldeirão de possibilidades e resultados culturais. Sendo assim a obra “Homem com H“  com direção e roteiro  de Esmir Filho, elenco composto por: Bruno Montaleone, Hermila Guedes, Jullio Reis , Jesuíta Barbosa, não é um filme pra agradar. É pra cutucar. E, convenhamos, nada mais Ney Matogrosso do que incomodar.

Imagem: cena do filme “Homem com H” por Google

 

Psicologia: o filho rebelde e a busca inconsciente pela aprovação

“Em psicologia, quando um filho realiza ações contrárias às suas próprias preferências, mas com o objetivo de agradar ou obter aprovação do pai, isso pode ser interpretado como um padrão de comportamento relacionado à dependência emocional, falta de autonomia ou necessidade de validação externa. Este comportamento pode ser um reflexo de uma educação rígida, onde o filho aprende que a aprovação do pai é essencial para o seu bem-estar emocional”.

Imagem de Sigmund Freud, por Max Halberstadt, em 1922 por Google

 

Essa é a resposta básica que encontramos no buscador ao pesquisar essa busca de aprovação do filho para com o pai. Mas Ney, pelo menos o biografado, alcança um outro patamar que leva a análise para o complexo de Édipo desenvolvido pelo grandioso Sigmund Freud. Assim ele vai buscando a resolução do complexo de Édipo, quando reconhece as limitações e as interdições impostas pelo pai e inicia a identificação com seu genitor, internalizando seus valores e normas. Cena que aparece quando ele conversa com a mãe nos últimos dias de seu pai, e ela diz que ele parecia muito com seu pai, pois fazia sempre o que queria, sempre sem indomável oi indobrável.

Imagem: cena do filme “Homem com H” por Google

 

A obra mostra-nos um menino sensível ao mundo, mas não sensível de frágil, e sim no sentido de conectado com a natureza como todo ser humano é, pois como diz Ailton Krenak “Somos natureza”, ou seja, não há separação entre o ser humano e a natureza. Dessa forma a sensibilidade dele afeta a masculinidade, ou o que o pai tem como masculinidade e isso gera um conflito gigantesco.

Vemos com isso um movimento inconsciente do protagonista que apesar de fazer tudo o que deseja e assim contradizer seu genitor, ao mesmo tempo busca esse olhar de pai que poderia lhe acolher e lhe fortalecer.

Porém ele encontra na mãe esse afeto, esse compreender. A mãe que se assemelha à mãe natureza, aceitando-o como ele foi criado.  Ela não julga, apenas observa seu filho e sua existência e potência humana.

Imagem de Gray StudioPro por Freepik

 

Ditadura: engolir seco e ser molhado pela censura

Durante a ditadura militar sempre será parêntese de autoritarismo com cheiro de naftalina. Ney Matogrosso se permitiu, apesar de toda a censura, ser livre e foi tudo que o regime não queria ver: andrógino, provocador e talentoso. Em tempos em que mostrar os pés era imoral para um homem, um ombro nu dava cadeia. Ney subia no palco quase nu, parecia um alienígena mostrando para os Homens de Neanderthal que a realidade era nua e crua como um corpo livre no palco. Era arte, resistência, afronta e sobrevivência.

Homem protesta durante ditadura militar no Brasil – Reprodução/Arquivo Nacional

 

A censura bem que tentou silenciá-lo. Mas como poderiam com essa voz tão presente. Uma voz sua entre o masculino e feminino está a voz dele. Ameaças chegaram pelo correio, como quem manda bomba dentro de carta de amor. Mas ele seguiu. Porque silenciar Ney Matogrosso é como tentar esconder o Sol com cortina blackout.

Imagem de Jirawatfoto por Freepik

 

O conhecimento e amor eram o remédio

Outro grande tema dentro da obra é como esse período histórico e inicial da chegada do HIV no Brasil vai perpassar a biografia do Ney Matogrosso.

A obra é muito sensível quando toca nesse assunto. O HIV se mostra em tela, mas acima dele há o companheirismo, o amor e o está junto apesar da dor certa da perda do indivíduo amado e sempre presente.

Um jornal da década de 1980, exibido no filme Foto: Reprodução

 

O Brasil mergulhou num poço de ignorância, preconceito e luto. Ney, de novo, não fugiu. Conviveu com o vírus, com a dor, com a perda de amores como Cazuza e Marco de Maria. Nunca contraiu HIV, algo que ele mesmo chama de sorte. Outros diriam: milagre.

Enquanto muita gente fazia piada, Ney falava sério. Sobre prevenção, sobre dor, sobre a importância de viver sem fingir. Ele viu de perto o estrago da desinformação e, mesmo assim, não se escondeu. Foi à TV, deu entrevistas, falou de sexo, de amor, de luto. Falou da vida — aquela coisa frágil, linda e, às vezes, trágica — que insistia em viver com intensidade.

 

 

A bandeira sou eu

Levantar bandeira não é para o Ney, como ele mesmo disse em entrevista à BBC News Brasil em Londres “Eu sou a bandeira”. Não poderia ser diferente, pois ele é a liberdade em pessoa que a comunidade LGBTQIAPN+ sempre busca.

Ney é o que é, e se a ideia artística inicial era ser um bicho, assim ele reconfigura a imagem do homem, e mostra-nos que sempre estamos renegando nossos desejos mais primitivos. Talvez essa ideia animalesca seja um recusa a palavra bicha, no seu sentido pejorativo. Em vez disso, ele era um bicho, como todos nós somos. Apesar da racionalidade, o bicho nos habita.

Simples, direto e absurdamente verdadeiro. Ney não precisa carregar cartaz. Ele é o cartaz. A presença dele no palco, a voz aguda rasgando o silêncio da caretice, o corpo que dança fora do compasso da norma: tudo nele é política, sem precisar de panfletos.

 

No fim, quem não gostou, talvez não entendeu

Voltando a conversa inicial ou a pessoa entendeu demais e não soube lidar ou apenas está renegando seus impulsos mais primitivos. Porque o filme escancara o desconforto. Mostra que ser quem se é, num país tão violento como é o Brasil.

Se você ainda não viu o filme, veja. Se já viu e não gostou… veja de novo. Talvez o problema não seja o filme. Talvez o problema seja o espelho.

Imagem: cena do filme “Homem com H” por Google

Por LUIZ SOLRAK

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